"Louvado seja aquele que organizou o seu próprio caos e nele plantou uma estrela dançante! Tal homem tornou-se uma fatalidade: contra ele, todo veneno é alimento e toda ferida é um novo degrau. Ele é o senhor de sua própria medida; ninguém pode roubar-lhe o abismo, pois ele mesmo é o seu próprio destino, inabalável e único."
Jair o Bardo
Na aurora pálida, de um cinza doente,
A chuva reza um salmo de agonia;
O orvalho é gelo, e o vento, de repente,
Vem açoitar minha alma fria e vazia.
Não há calor no sol que nasce morto,
Nem luz que vença a névoa do caminho;
No peito, em vez de vida, um desconforto:
O pulsar de um metal, batendo sozinho.
É o gelo da manhã, constante e mudo,
Que vem selar meu fado de abandono;
Um coração que, em meio a este veludo,
Sonha com a morte... e não desperta do sono.
Poesia de: Jair o Bardo
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Recordo-te no véu das horas idas,
como um sol cansado ao se pôr;
foste alegria breve entre feridas,
foste ausência moldada em amor.
O tempo, lento algoz da memória,
guarda teu rosto em tom amargo e fiel;
e eu vivo preso à antiga história
de um afeto que não voltou ao céu.
Poesia de: Jair o Bardo
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A ceia é o vácuo, o cálice é de fel,
Nesta noite de luz que eu não mereço;
O mundo ri sob o luar de mel,
Enquanto eu, na sombra, me esvaneço.
O frio morde a carne, o peito estala,
Não há calor de seio ou de lareira;
A solidão caminha pela sala,
Minha única e pálida companheira.
Olho a lua — essa noiva de finados —
Que banha o meu tédio em prata fria;
Somos dois astros sós, abandonados,
Nesta farsa de festa e de alegria.
Oh! Antes a morte em seu lençol de gelo,
Que este Natal de sonhos deserdados...
Ter por alento apenas o flagelo
De ver meus dias todos sepultados.
Poesia de: Jair o Bardo
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No véu da noite, minh’alma é porta — fria e trêmula ao luar,
Ecoa o vento em sua moldura, um suspiro a se arrastar.
Mas dentro dela mora o vácuo, doce em sua dor sem cor,
Pois na solidão encontro abrigo, e no abismo — meu amor.
Liberta estou de vozes vãs, de risos falsos, de rumor,
A sombra é meu companheirismo, a ausência, meu calor.
E se o mundo esquece meu nome, sem lamento, sem demora,
Sorrio: minh’alma é porta… e a solidão, minha libertadora
Jair o Bardo
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Nas trevas frias da meia-noite, ele pousou — sombrio, cansado,
Um corvo de olhos vazios, por lágrimas outrora banhado.
Seu peito, outrora pleno de sonhos e ternura,
Agora só guardava ecos de perda e amargura.
“Jamais!”, grasnou à lua, com voz de desespero e dor,
“Jamais sentirei o doce veneno do amor.”
Pois o mundo lhe tomara tudo — e em troca, o condenou a voar,
Solitário, esquecido… o corvo que desaprendeu a amar
Poema de : Jair o Bardo
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Talvez a morte não seja uma inimiga. Talvez seja aquela amiga discreta que nunca fala, mas está sempre à porta, esperando pacientemente, sem exigir nada em troca. Penso nela como um colo silencioso, onde o coração cansado pode adormecer sem medo de despertar.
Se a vida é um teatro onde todos mentem suas falas, por que não abandonar o palco e assistir ao fim da peça lá de trás, onde ninguém pode nos ver? Quem sabe do outro lado não exista apenas o nada — e que paz seria esse nada! —, mas um jardim de sombras onde nenhuma dor floresce.
Ah, se os vivos soubessem como é doce a ideia de fechar os olhos e não precisar abri-los mais… não chamariam de loucura este devaneio, chamariam de descanso. Talvez… talvez a morte não seja uma amiga tão ruim a se escolher.
Jair o Bardo
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No silêncio febril da madrugada,
Onde o tempo se arrasta sem piedade,
Senti minh’alma — trêmula, calada —
Clamar por sombras de antiga saudade.
Nos véus da solidão, fria e sombria,
Caminhei como um morto entre as ruínas,
E ali, na dor que a noite principia,
Renasceram memórias tão divinas…
Era eu, o que restou do que fui antes:
Sonhos partidos, riso esquecido,
Mas vi, nos olhos de meus próprios prantos,
O ser que em mim jazia adormecido.
Ah! Que estranha paz nos dá a dor sincera…
Pois só no abismo a alma se revê inteira.
Jair o Bardo
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De: Jair o Bardo
Oh brisa errante, doce e tão sutil,
Que beija as folhas com gentil lamento,
Levaste o canto dela — amor febril —
Num véu de sonho, ao léu do firmamento.
Com lira em mãos, vaguei por céus e chão,
Buscando a voz que à noite me encantava;
Mas só ecoa em mim, na solidão,
O som que a ausência dela desatava.
Por vales fundos, monte e campo andei,
E ao vento roguei: “Traz-me seu calor!”
Mas ele, em riso, disse: “Já voei,
Levei comigo a essência do teu flor.”
E o bardo, triste, ao céu então cantou:
“Se amor é vento... que em mim sempre soprou.”
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— em tons lúgubres de um amor que transborda—
Oh! Rosa, que em silêncio me sorria
Nas tardes lânguidas de dor sem fim,
Te vi tremer ao toque da ventania,
Mas cuidei de ti... talvez demais de mim.
Com mãos febris, reguei-te em desatino,
Temendo o sol, teu vulto delicado.
E em cada gota, um verso cristalino,
Mas teu perfume ia sendo apagado...
Não vi que a seiva já se afogava
No pranto terno que a ti ofertei,
E tua alma em pétalas chorava
O zelo cruel que sem ver te dei.
Por te querer viva, forte e florida,
Matei-te aos poucos — flor da solidão!
Teu caule pende, pálida e vencida,
Na tumba em flor do meu coração.
E eu, poeta, amante desmedido,
Que quis com amor salvar-te da dor,
Fui carrasco — um anjo corrompido
Que mata a rosa afogado de amor.
Jair o Bardo
Para Leoa de Cintra
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