A morte me assusta.
Não como medo do escuro,
mas como um trauma antigo,
daqueles que não têm nome,
só sensação, e nó na garganta.
É aquele medo bobo, enraizado,
que te faz tremer sem razão,
te faz voltar a ser criança num corpo grande,
paralisada diante do invisível,
chorando baixinho pra ninguém ouvir.
Desde que perdi aquele homem
que eu chamava de pai,
a morte deixou de ser ideia
e virou presença.
Ela não passa, não some,
ela ronda.
Me olha pelos cantos,
sussurra quando alguém sorri demais,
quando o amor encosta,
quando uma lembrança insiste em florescer.
E por esse medo tênue,
me afasto de vidas.
Não por desamor,
mas por pavor da perda.
Tenho medo de que tudo acabe:
os cheiros, os risos,
as frases repetidas,
as músicas que ele cantarolava sem saber a letra.
Tenho medo que as lembranças fujam,
como ele fugiu do tempo.
A morte me assusta, sim.
Não pelo fim,
mas pela ausência cruel que ela deixa em mim.
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Crescer foi um silêncio que ninguém me explicou.
Uma porta fechada sem ruído,
onde ficaram, do outro lado,
os risos que eram meus.
Perdi momentos como quem perde sangue:
sem grito, sem aviso,
apenas a palidez súbita
de tudo que antes ardia.
As pessoas não morreram,
elas sumiram dentro de mim.
Continuam aqui,
mas sem rosto certo,
sem tempo exato.
E eu não consigo deixá-las ir.
Carrego partes minhas como defuntos queridos
que não enterrei por amor.
Eles dormem no peito,
mas às vezes acordam,
e me pedem para voltar.
Então sorrio para o mundo
com os olhos marejados de ontem,
fingindo que é doce essa saudade,
quando na verdade
é ela que me devora,
me conserva,
me condena.
Vivo numa solidão morna,
coberta por lembranças
que ainda têm cheiro,
ainda têm nome,
mas não me pertencem mais.
E tudo que tenho é isso:
um lar feito de ausências,
onde me sento toda noite
à mesa com os fantasmas
do que um dia fui.
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Francisco...
é mentira, né?
Me diz que a vida não é só isso...
só ficar acordada à noite
pensando na minha pequeneza
num mundo tão gigante,
onde parece que ninguém me vê de verdade.
Me diz que não é só acordar
com o corpo pesado
e a alma ainda mais,
e viver um dia igual ao outro
numa correria que nunca para,
sem entender o porquê.
Me diz que não é só escutar
todo mundo falando dos seus problemas
enquanto os meus ficam entalados na garganta,
feito um grito que não sai.
Que não é só se trancar no banheiro na hora do almoço
pra chorar bem baixinho
e depois voltar fingindo que tá tudo bem.
Me diz que a vida não é só ficar quieta
num lugar cheio de silêncio
e, de repente, começar a chorar por dentro
sem saber exatamente o motivo...
e perceber que talvez eu não tenha ninguém pra contar.
Me diz que a única ligação que eu vou receber
não vai ser só da Claro querendo vender plano,
e nenhuma de alguém que eu amo.
Que não é só sentir culpa por me alegrar
com a minha comida favorita,
como se até isso eu não merecesse.
Francisco…
por favor, por favorzinho,
me conta que tem mais.
Nem precisa ser muito.
Só um motivo, uma esperança,
qualquer coisinha que faça isso tudo valer a pena.
Mas se não tiver,
então me explica, por favor,
como é que a gente para de viver só por obrigação.
Como é que a gente descansa de verdade.
Porque hoje, Francisco,
você ficou em silêncio.
E isso é estranho,
porque você é meu terapeuta.
Você devia saber o que dizer.
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O ano virou, mas nada mudou,
a dor persiste, pesada, ficou.
2024, um ano de conquistas e feridas,
um luto no peito, noites perdidas.
Esperava que os fogos, no céu a brilhar,
levassem a dor, me deixassem respirar.
Mas o 5 veio, o 4 se foi,
e a ferida ainda queima, não se destrói.
Nem celebrar parece ter sentido,
a dor me segue, um peso contido.
Venha, 2025, com sua luz tão sonhada,
leve o que dói, deixe a estrada renovada.
Quero superações, um novo começo,
deixar para trás o que me enfraqueço.
Mas enquanto a noite for escura e fria,
a dor no peito ainda será minha guia.
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Deus, quanta hipocrisia,
no dia do Teu Filho amado,
aquele que, em sangue derramado,
o peso do mundo carregou.
Como Tu permite, Senhor,
que a boca que clama Teu amor
seja a mesma que julga e condena
quem escolhe não rezar em cena?
De mãos dadas, eles erguem preces,
mas logo depois, o coração esquece.
Bucho cheio de gula e vaidade,
proclamam Teu nome sem sinceridade.
Chamam-Te Pai, com olhos de Judas,
línguas que ferem, palavras cruas.
Bebem, prostituem, mentem à luz,
mas erguem as mãos, clamando Jesus.
Eu não ajoelho junto a esses falsos,
que fazem da fé um palco de saltos.
Deus ama a todos, sei que é verdade,
mas confesso: sinto nojo da maldade.
Se Teu amor é vasto e perfeito,
perdoa quem vive de peito estreito.
Mas eu, Senhor, escolho silêncio,
pois fé, para mim, não é um consenso.
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Tudo acaba numa quarta-feira qualquer,
sem alarde, sem aviso, sem final de novela.
Anos de história viram ecos na memória,
doendo como farpas que não sabem cicatrizar.
Você ainda respira, a 15 minutos de mim,
mas é como se um abismo tivesse nascido.
Posso te mandar mensagem,
mas onde mora a coragem
que antes guiava meus dedos?
Minhas pernas, que antes corriam,
agora hesitam em caminhar,
como se o peso da distância
não fosse só físico, mas algo além,
um fardo que só eu carrego.
E aqui estou,
há uma semana te buscando
em cada canto onde sei que você não está.
Nos livros, nas músicas, nos cheiros perdidos,
até no espelho, que reflete uma ausência sua.
Tudo acabou numa quarta-feira qualquer,
mas o que não acaba é essa saudade torta,
essa vontade de voltar no tempo
e mudar o dia do fim.
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Hoje foi o último dia,
o último ato do teu palco secreto,
aquele corredor onde nossos olhares
se cruzavam como estrelas errantes.
Hoje foi a última vez que te vi
naquela quadra imensa,
onde havia um cantinho que era só teu,
um refúgio silencioso
em meio ao caos ao redor.
Mas hoje você estava sozinho.
Sem as vozes que costumavam te cercar,
sem as risadas que preenchiam o espaço.
Só você e seu olhar vazio,
perdido em memórias que agora
existem apenas na tua mente.
Eu te observei.
Cada passo, cada gesto,
como se pudesse gravar tua essência
nos corredores da minha memória.
Você nunca soube o que éramos —
talvez nada além de olhantes.
Olhares longos, eternos em segundos,
cheios de histórias que nunca contamos.
E então, você partiu.
Sentado no teu lugar,
me lançou um último olhar,
firme, profundo,
como se quisesse dizer tudo e nada.
Eu desviei por um segundo,
e quando voltei, você já não estava.
Sumiu como um sonho ao amanhecer,
sem deixar vestígio,
sem uma assinatura,
nem um rastro na parede.
Sobrou o vazio do armário 27,
que no próximo ano terá outra chave,
outro dono,
outro universo que não será o teu.
E no fim, será como se você
nunca tivesse estado aqui.
E isso doeu.
Doeu porque você foi,
e levou consigo algo que nunca soube dar:
a história que escrevemos em olhares,
e que agora só existe em mim.
E no instante da tua partida,
desejei ir com você,
porque viver aqui sem ter teus olhos sobre mim
é uma dor que o tempo não apaga.
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Às vezes me pego pensando,
será que ele lembra de mim?
Será que, como eu,
ele revisita memórias sem fim?
Será que no meu aniversário,
ele surge com uma mensagem banal?
Um "parabéns" simples e breve,
mas que faria tudo parecer normal?
Hoje, o dia nasceu com esperança,
e eu esperei, como quem sonha e dança.
Esperei que ele lembrasse,
que o silêncio não me abraçasse.
Mas a mensagem não veio,
nenhuma palavra, nenhum "oi".
Talvez ele tenha esquecido,
ou talvez o laço se desfez e foi.
Então, apago as velas em silêncio,
com um desejo que só meu coração tem:
que no próximo ano, quem sabe,
a mensagem dele venha também.
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Faz tão pouco, pai, que você subiu,
Dezoito dias, e o mundo já ruiu.
Ontem foi seu dia, meu coração lembrou,
Hoje é o meu, e a saudade gritou.
Será que aí no céu você sente o tempo?
Aqui ele arrasta, um eterno lamento.
Queria que viesse, mesmo só por um pouco,
Me dar parabéns, me deixar menos louca.
Tem bolo na mesa, seu lugar vazio,
A festa calada, só o vento frio.
Pai, eu chamo baixinho, será que escuta?
Minha saudade é grande, quase me furta.
Se puder descer, nem que seja um instante,
Prometo sorrir, ser mais confiante.
Só me abrace, pai, como fazia antes,
E sussurre baixinho: "Parabéns, toquinho."
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Hoje durou muito, pai,
durou mais do que eu queria.
Olhei para o calendário
e percebi:
é 1º de dezembro,
e você não está aqui.
Fazem 18 dias que se foi,
e o mês virou sem você.
Sem a sua voz perguntando:
"Cadê o truco? Cadê o churrasco?
Cadê o bolo pra acender a vela?"
Os 43 chegaram, pai,
mas você não está para comemorar.
Lembro daquele aniversário aos 33,
quando a gente riu do juízo,
colocando a vela de 4 no bolo
e você disse:
"Juízo? Nunca vou ter isso."
E agora, pai, eu penso,
você partiu antes de descobrir
o que era juízo,
antes de brincar com a ideia
de que talvez, só talvez,
aos 43 ele chegasse.
Cadê você, pai?
Cadê para levantar todo mundo,
acender a churrasqueira,
e fazer o dia nascer mais leve?
Dia 2 é meu aniversário,
mas como eu comemoro,
carregando o peso
de não ter mais você?
Eu vou tentar, pai,
juro que vou.
Vou cortar um pedaço do bolo,
um pra mim, outro pra você.
E mesmo doendo muito
vou lembrar de você,
porque, mesmo longe,
a festa ainda é nossa.
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