Francisco, me conta uma coisa?
Francisco... é mentira, né? Me diz que a vida não é só isso... só ficar acordada à noite pensando na minha pequeneza num mundo tão gigante, onde parece que ninguém me vê de verdade. Me diz que não é só acordar com o corpo pesado e a alma ainda mais, e viver um dia igual ao outro numa correria que nunca para, sem entender o porquê. Me diz que não é só escutar todo mundo falando dos seus problemas enquanto os meus ficam entalados na garganta, feito um grito que não sai. Que não é só se trancar no banheiro na hora do almoço pra chorar bem baixinho e depois voltar fingindo que tá tudo bem. Me diz que a vida não é só ficar quieta num lugar cheio de silêncio e, de repente, começar a chorar por dentro sem saber exatamente o motivo... e perceber que talvez eu não tenha ninguém pra contar. Me diz que a única ligação que eu vou receber não vai ser só da Claro querendo vender plano, e nenhuma de alguém que eu amo. Que não é só sentir culpa por me alegrar com a minha comida favorita, como se até isso eu não merecesse. Francisco… por favor, por favorzinho, me conta que tem mais. Nem precisa ser muito. Só um motivo, uma esperança, qualquer coisinha que faça isso tudo valer a pena. Mas se não tiver, então me explica, por favor, como é que a gente para de viver só por obrigação. Como é que a gente descansa de verdade. Porque hoje, Francisco, você ficou em silêncio. E isso é estranho, porque você é meu terapeuta. Você devia saber o que dizer.
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