Lua @Akaai

Meu

Hoje foi o último dia, o último ato do teu palco secreto, aquele corredor onde nossos olhares se cruzavam como estrelas errantes. Hoje foi a última vez que te vi naquela quadra imensa, onde havia um cantinho que era só teu, um refúgio silencioso em meio ao caos ao redor. Mas hoje você estava sozinho. Sem as vozes que costumavam te cercar, sem as risadas que preenchiam o espaço. Só você e seu olhar vazio, perdido em memórias que agora existem apenas na tua mente. Eu te observei. Cada passo, cada gesto, como se pudesse gravar tua essência nos corredores da minha memória. Você nunca soube o que éramos — talvez nada além de olhantes. Olhares longos, eternos em segundos, cheios de histórias que nunca contamos. E então, você partiu. Sentado no teu lugar, me lançou um último olhar, firme, profundo, como se quisesse dizer tudo e nada. Eu desviei por um segundo, e quando voltei, você já não estava. Sumiu como um sonho ao amanhecer, sem deixar vestígio, sem uma assinatura, nem um rastro na parede. Sobrou o vazio do armário 27, que no próximo ano terá outra chave, outro dono, outro universo que não será o teu. E no fim, será como se você nunca tivesse estado aqui. E isso doeu. Doeu porque você foi, e levou consigo algo que nunca soube dar: a história que escrevemos em olhares, e que agora só existe em mim. E no instante da tua partida, desejei ir com você, porque viver aqui sem ter teus olhos sobre mim é uma dor que o tempo não apaga.

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