Lua @Akaai

Os vivos que deixei morrer

Crescer foi um silêncio que ninguém me explicou. Uma porta fechada sem ruído, onde ficaram, do outro lado, os risos que eram meus. Perdi momentos como quem perde sangue: sem grito, sem aviso, apenas a palidez súbita de tudo que antes ardia. As pessoas não morreram, elas sumiram dentro de mim. Continuam aqui, mas sem rosto certo, sem tempo exato. E eu não consigo deixá-las ir. Carrego partes minhas como defuntos queridos que não enterrei por amor. Eles dormem no peito, mas às vezes acordam, e me pedem para voltar. Então sorrio para o mundo com os olhos marejados de ontem, fingindo que é doce essa saudade, quando na verdade é ela que me devora, me conserva, me condena. Vivo numa solidão morna, coberta por lembranças que ainda têm cheiro, ainda têm nome, mas não me pertencem mais. E tudo que tenho é isso: um lar feito de ausências, onde me sento toda noite à mesa com os fantasmas do que um dia fui.

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