Foto de POETA DE JANELAS DE QUARTO

POETA DE JANELAS DE QUARTO

@Wellington_perNNa · desde 2021

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História

Sonhei com ela de novo

É engraçado como algumas pessoas vão embora da nossa vida, mas esquecem de levar as próprias sombras. Ela continua aparecendo. Não importa quanto tempo passe. Quando fecho os olhos, existe um lugar escondido dentro da minha cabeça onde ela ainda está. Nos sonhos, quase sempre estamos longe. Do outro lado de uma rua, de uma porta, de uma vida que já não é minha. Às vezes brigamos. Às vezes sinto ciúmes. Mas, mesmo brigando, existe amor. Um amor velho, cansado, que ainda insiste em ficar de pé. No sonho, eu sei que ela me ama. E ela sabe que eu ainda a amo. Então acordo. O quarto está vazio, e a realidade me lembra que algumas pessoas não pertencem mais à nossa vida. Pertencem à memória. Mas memória não respeita portas fechadas, distância ou tempo. Você pode apagar mensagens, jogar fora fotografias, seguir em frente e conhecer outras pessoas. Ela simplesmente espera. E quando você dorme, abre a porta. Talvez nunca mais sejamos nós dois. Talvez o nosso lugar tenha ficado preso em algum ano que já não existe. Mas existe uma parte de mim que ainda encontra uma parte dela todas as noites. Talvez esse seja o castigo. Ou talvez seja a única coisa bonita que sobrou. Porque existem amores que terminam. E existem aqueles que simplesmente aprendem a viver em outro lugar. O nosso vive nos meus sonhos. E, toda vez que acordo, por alguns segundos, ainda parece para sempre.

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História

CAPÍTULO II — A Casa Onde Nada Responde

Hoje passei diante de lugares que não me chamaram pelo nome. Casas que um dia me viram crescer agora fecham os olhos quando passo. As ruas continuam ali, mas não me pertencem mais. Os nomes antigos perderam o peso, como fotografias guardadas tempo demais no fundo da gaveta. A memória é uma cidade abandonada. De longe, ainda tem beleza. De perto, só vento atravessando janelas quebradas. Não é lugar de se morar — só de se espiar com cuidado, pra não cortar o pé nos cacos. Entrei numa lembrança achando que encontraria algum tipo de descanso. Talvez um colo invisível, talvez um sentido. Mas tudo que respondeu foi o eco da minha própria voz voltando torta, atrasada, quase zombando. Ele ficou parado na porta. Não entrou. Há lugares onde eu ainda finjo que tudo foi bonito demais, e ali ele não pisa. A Sombra não invade o luto — mas tem nojo da mentira bem decorada. Saí dali com a estranha certeza de que fiz uma visita. Alguém já não estava mais vivo. Acendi a luz por hábito, por respeito. E só depois entendi: o morto era eu, e a casa apenas confirmou. Wellington Augusto Schtoltz da Silva

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História

CAPÍTULO I — O Homem que Andava Atrás

Ele sempre caminhava um passo atrás de mim. Não por respeito. Mas porque alguém precisava observar o estrago enquanto eu fingia que seguia em frente. Ele tinha os ombros largos de quem aprendeu cedo a aguentar impacto. O rosto marcado não por violência, mas por espera. Uma barba mal cuidada, como se o tempo tivesse desistido dele antes que ele desistisse do mundo. Nunca falou muito. Quando falava, era tarde demais. Chamavam ele de muitas coisas dentro da minha cabeça: fraqueza, passado, erro, nostalgia. Mas ele nunca respondeu a nenhum nome. Ele só andava. Conhecia todas as casas que eu evitei voltar. Sabia exatamente onde cada porta rangia. Cada lembrança que eu atravessei fingindo indiferença, ele ficou ali, sentado no escuro, segurando o peso para que eu não desmoronasse em público. Enquanto eu tentava ser alguém novo, ele recolhia os restos. O que ninguém me contou é que a Sombra não nasce do mal. Ela nasce da lealdade. Ele foi leal demais às dores que eu abandonei. Guardou cada uma como quem guarda armas enferrujadas — não para usar, mas para lembrar do que sobreviveu. No sonho, ele tentou me dizer algo. A língua era antiga. Não porque fosse oriental ou sagrada. Mas porque era anterior à justificativa. Quando virou luz amarelada, eu entendi tarde demais: ele não estava indo embora. Eu é que nunca tinha dado um corpo a ele. Hoje ele não anda mais atrás. Anda ao meu lado. Não me protege do mundo. Me impede de mentir para mim mesmo. Ele não pede perdão. Não pede amor. Não pede volta. Só exige uma coisa: — Não me abandone de novo. E pela primeira vez, eu não prometi nada. Eu fiquei. Wellington Augusto Schtoltz da Silva

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Antes de Qualquer Coisa

Faz tempo que eu não escrevo. Tempo suficiente pra poeira se sentir à vontade. Não foi falta de vontade. Foi excesso de vida mal digerida. Algumas coisas atravessam a gente e ficam presas na garganta. Outras só cansam mesmo. E eu cansei. De falar, de explicar, de tentar ser compreendido. Escrever exige um tipo específico de energia. A mesma que a gente gasta pra continuar existindo sem fazer muito barulho. E eu não tinha nenhuma das duas. Mas aqui estou. Não porque as coisas melhoraram — não melhoraram. Só ficaram menos barulhentas. A dor aprendeu a cochichar. O caos sentou no sofá e parou de quebrar tudo. Isso já é um acordo aceitável. Voltei a escrever porque senti falta de me ouvir. Porque falar sozinho em silêncio estava ficando perigoso. Porque o papel não interrompe, não julga e não tenta consertar. Esse não é um recomeço bonito. É só um retorno cansado. Um breve olá jogado no mundo, sem promessa nenhuma. Se isso virar algo, ótimo. Se não, pelo menos eu deixei registrado que ainda estou aqui — sujo, inteiro em partes, respirando no ritmo que dá. Vamos ver no que isso dá. — Wellington Augusto Schtoltz da Silva

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Poema

A Última Prece

Eu a encontrei numa noite sem hora, num bar onde o tempo parou de contar. Ela cheirava a lembranças que eu nunca tive, e falava como se soubesse algo que eu esqueci. Seus olhos eram promessas mal pagas, seus lábios, um caminho sem volta. E eu fui, como sempre fui, como um homem que já perdeu tudo e ainda insiste em apostar. Ela ficou até o sol ameaçar voltar, deixou o cheiro no travesseiro, mas levou embora qualquer chance de descanso. Depois vieram outras, com os mesmos gestos, os mesmos sorrisos, as mesmas mentiras que eu fingi acreditar. E agora? Agora eu vejo o mundo por trás de um copo vazio, converso com sombras que não respondem. Eu jurei que esqueceria, mas há noites em que a cidade me chama, e eu saio procurando um fantasma que nunca mais voltou. Talvez amanhã eu acorde, talvez amanhã eu pare. Ou talvez só acenda mais um cigarro e espere pela próxima ilusão. _W.

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Poema

_Velha casa, velhas contas_

Ei, Sabe aquele tipo de lugar onde o tempo não quer mais ficar? Onde as paredes rangem como se estivessem tentando se lembrar de algo, mas não conseguem? Pois é. A velha casa de madeira era assim. O vento entrava pelas frestas e sussurrava como um bêbado contando uma história triste no balcão de um bar. E o diabo, ah, ele estava lá. Não vermelho, não com chifres. Mas com aquele sorriso cansado de quem já viu de tudo e sabe que no fim nada muda. Ele me olhou e disse: "Segue em frente, garoto. Perdão não é pra gente como nós." Ela ainda estava lá, no canto do quarto, esperando algo que nunca veio. Talvez eu. Talvez outra coisa. Mas um dia, foi embora. Como um cigarro se apagando num cinzeiro sujo. E eu fiquei. Tentando entender o que sobrou de mim depois disso. Ajoelhei. Rezei. Meus joelhos sangraram. E o silêncio respondeu. Deus e o diabo tinham ido embora. Deixaram a conta aberta e eu era o único trouxa no bar. A noite canta a mesma música de sempre: uísque, erros, fantasmas no retrovisor. Vi o rosto dela no rio, por um segundo. Depois só a água, escura e fria. Então é isso. Não abaixo mais a cabeça. Não peço mais nada. Só sigo andando, porque no fim das contas, a estrada não espera ninguém. E aquela casa? Ainda me chama. Mas eu não volto. Algumas coisas precisam queimar. — W.

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Poema

A VERDADE NAS CORRENTES

Hoje parei perto de um rio. Não porque quis, mas porque minhas pernas cederam, o corpo cansado, a cabeça pesada como a garrafa que esvaziei ontem. A água corria como o tempo, um ladrão escorregadio que rouba sem pedir licença. Vi meu reflexo na superfície — não reconheci o desgraçado que olhava de volta. Rugas no rosto, rachaduras na alma. Carreguei tudo que pude por tanto tempo, mas as coisas têm o hábito de cair. Um amor, um sonho, um propósito. As sombras nas ondas me mostraram o que perdi: mulheres que eu desejei e deixei, vidas que imaginei viver, e a juventude que partiu sem me avisar. Agora estou aqui, um velho qualquer, assistindo ao desfile do passado, um espetáculo gratuito e cruel. Lembro de construir minha vida em cima de alguém, como um bêbado tentando erguer uma casa no barro. Não deu certo, é claro. As pessoas nunca ficam — nem o amor, nem a sorte, nem o tempo. Hoje, o rio sussurrou algo. Não sei se era sabedoria ou sarcasmo, mas ele disse: “Continue correndo, mesmo que se quebre no caminho.” Parece uma piada, mas talvez seja a única coisa verdadeira que ouvi. Então, aqui estou, com as mãos vazias e o coração pesado. E quer saber? Ainda estou de pé. Se o deslizamento de terra quer me levar, que venha. Eu já perdi tanto que o resto não importa. Talvez no fundo das ruínas, eu encontre algo que valha a pena. E se não encontrar, ao menos terei o rio e a garrafa. Isso é mais do que muitos têm. Wellington Augusto Schtoltz da Silva

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Poema

...

Olha, não sei por onde começar, mas estou voltando. Não me espere com um jantar quente ou uma cama arrumada. Eu vou chegar quando der, e talvez nem seja do jeito que você espera. O caminho é estranho, torto, feito de pedras afiadas e memórias sujas. Metade do tempo, minha cabeça gira como um carrossel quebrado. As dúvidas vêm, me agarram pelo pescoço, e a coragem? Bem, ela me abandona como um rato fugindo de um navio afundando. Quantas vezes eu tentei consertar tudo? Mais do que consigo contar. Mas cada tentativa veio com um custo, e a conta nunca parou de chegar. Revirei o passado como quem mexe no lixo, tentando encontrar um pedaço de tempo que ainda tivesse algum valor. Tudo sob o mesmo céu cinza, vivendo e morrendo no mesmo ciclo miserável. Mas algo mudou. Não vou andar sozinho dessa vez. As suas palavras – ou seriam orações? – vêm como ecos de uma vida que eu já tinha esquecido. Elas chamam meu nome. Mesmo no escuro, eu consigo ouvi-las, me puxando para longe desse abismo. Os passos falham, você sabe. Tropeço em cada maldito obstáculo. E as sombras? Elas sempre estão ali, esperando por mim. Mas, no meio disso tudo, a sua voz ainda é a única coisa que parece real. Ela me empurra para frente, me arrasta até a luz. E então eu lembro – não importa quantas vezes eu tenha ferrado tudo, não importa o quanto eu tenha corrido atrás do tempo perdido, eu não estou sozinho. Não mais. A névoa é densa, mas a sua voz corta como uma lâmina. Ela atravessa o silêncio, espanta os demônios. E mesmo que eu tenha me perdido pelo caminho, sinto o seu amor me puxando de volta. Então, é isso. Estou voltando. Não sei quanto tempo vai levar, mas estou chegando. Com o que sobrou de mim, com todas as cicatrizes e todas as pedras no bolso. Finalmente, estou encontrando o meu lar. Wellington Augusto Schtoltz da Silva

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História

"Rugas e Poeira"

Quando tudo já não significa mais nada, e seus filhos perdem a fé nas suas velhas verdades, os que partiram antes da hora serão esquecidos antes que o céu amanheça, tingido de cinza. Se houvesse escolha, eu iria embora com todos os irmãos, sem ter que engolir suas crenças mofadas. Ao menos guardaria pequenas memórias, daqueles que arrancaram da terra seca o ouro mais precioso, regado ao suor que escorria de suas cabeças cansadas. Essas foram as palavras que vieram à minha mente quando encontrei aquele homem na estrada. Ele me olhou, por trás de rugas e poeira, disse para continuar sendo aquilo que **sou**, não aquilo que **finjo ser**. Desafiou-me a construir algo que valesse ser lembrado, um legado de herói de guerra, mas não daqueles cobertos de medalhas, um herói cuja espada é a maldita caneta, deslizando sobre o papel para espalhar verdades que nunca foram contadas. Escrever o que dói, o que pesa, o que é real. Desenhar com tinta negra os caminhos que só a dor revela, rindo baixinho entre goles de cerveja, porque a felicidade também é uma farsa, mas a dor – essa, meu amigo – é genuína. Essas foram as palavras que queimaram dentro de mim, quando aquele homem, naquela estrada, me disse para continuar sendo o que sou, e não o que digo ser. E então, sozinho, como os bêbados às três da manhã, tracei meu destino com as linhas mais tortas, porque o legado de um homem não está na glória, mas na luta que ele escreve. E ali, entre fumaça e palavras, eu voei, mais livre do que jamais fui. _W.

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Música

...

Eu estava dirigindo aquele carro, sem destino, como sempre. A verdade é que nunca tive controle de nada. Mas naquele dia, nada importava, porque você estava ali, sentada, rindo como se o mundo fosse nosso playground. E por um segundo, eu acreditei. O mundo parou para nos ver. Sem medo, sem pressa. Mas o céu... o céu sempre desmorona. E eu perdi o controle. Foi um flash de luz, rápido demais, como a vida que você acha que tem nas mãos, até que o destino resolve te foder de vez. A estrada, a porra daquela estrada, me engoliu. Tarde demais para frear, tarde demais para qualquer coisa. Ouvi sua voz, suave, tão suave, e depois só silêncio. O tipo de silêncio que gruda na alma. Agora, eu acordo com o som do seu nome martelando na minha cabeça, os destroços daquele dia se tornaram a minha cama, e a culpa é a única coisa que me abraça. Se eu pudesse voltar, se eu tivesse essa chance maldita, te abraçaria de novo, sob aquele poste de luz, onde tudo ainda parecia simples, onde eu ainda acreditava que poderia te proteger. Mas o tempo é uma piada cruel, um ladrão que me deixou com seu sorriso, escorrendo pelas minhas mãos como areia fina. O que me conforta, o que me tortura, são as memórias que me contaram mentiras. Elas mentem, todas as noites. Eu vejo seu rosto na chuva que desce pela janela, em cada sombra, em cada sussurro que soa como um "olá" que nunca chega. Sua risada, agora um fantasma que me segue, um fantasma que não quer me deixar em paz. O amor que eu conhecia se afogou naquele medo, e agora eu também estou afundando. Será que você me perdoaria? Será que entenderia? Eu era só um homem. Só um homem, tentando segurar o tempo, tentando ser mais do que eu era. Mas a culpa... ela é como uma corrente que me arrasta para o fundo, e mesmo assim, é o seu rosto que me faz continuar. Mas o que me resta é essa noite sem fim. E a escuridão, aquela velha companheira, me lembra que, de alguma forma, você ainda está aqui. Ou talvez seja outra mentira.

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