POETA DE JANELAS DE QUARTO @Wellington_perNNa
História

CAPÍTULO I — O Homem que Andava Atrás

Ele sempre caminhava um passo atrás de mim. Não por respeito. Mas porque alguém precisava observar o estrago enquanto eu fingia que seguia em frente. Ele tinha os ombros largos de quem aprendeu cedo a aguentar impacto. O rosto marcado não por violência, mas por espera. Uma barba mal cuidada, como se o tempo tivesse desistido dele antes que ele desistisse do mundo. Nunca falou muito. Quando falava, era tarde demais. Chamavam ele de muitas coisas dentro da minha cabeça: fraqueza, passado, erro, nostalgia. Mas ele nunca respondeu a nenhum nome. Ele só andava. Conhecia todas as casas que eu evitei voltar. Sabia exatamente onde cada porta rangia. Cada lembrança que eu atravessei fingindo indiferença, ele ficou ali, sentado no escuro, segurando o peso para que eu não desmoronasse em público. Enquanto eu tentava ser alguém novo, ele recolhia os restos. O que ninguém me contou é que a Sombra não nasce do mal. Ela nasce da lealdade. Ele foi leal demais às dores que eu abandonei. Guardou cada uma como quem guarda armas enferrujadas — não para usar, mas para lembrar do que sobreviveu. No sonho, ele tentou me dizer algo. A língua era antiga. Não porque fosse oriental ou sagrada. Mas porque era anterior à justificativa. Quando virou luz amarelada, eu entendi tarde demais: ele não estava indo embora. Eu é que nunca tinha dado um corpo a ele. Hoje ele não anda mais atrás. Anda ao meu lado. Não me protege do mundo. Me impede de mentir para mim mesmo. Ele não pede perdão. Não pede amor. Não pede volta. Só exige uma coisa: — Não me abandone de novo. E pela primeira vez, eu não prometi nada. Eu fiquei. Wellington Augusto Schtoltz da Silva

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