CAPÍTULO II — A Casa Onde Nada Responde
Hoje passei diante de lugares que não me chamaram pelo nome. Casas que um dia me viram crescer agora fecham os olhos quando passo. As ruas continuam ali, mas não me pertencem mais. Os nomes antigos perderam o peso, como fotografias guardadas tempo demais no fundo da gaveta. A memória é uma cidade abandonada. De longe, ainda tem beleza. De perto, só vento atravessando janelas quebradas. Não é lugar de se morar — só de se espiar com cuidado, pra não cortar o pé nos cacos. Entrei numa lembrança achando que encontraria algum tipo de descanso. Talvez um colo invisível, talvez um sentido. Mas tudo que respondeu foi o eco da minha própria voz voltando torta, atrasada, quase zombando. Ele ficou parado na porta. Não entrou. Há lugares onde eu ainda finjo que tudo foi bonito demais, e ali ele não pisa. A Sombra não invade o luto — mas tem nojo da mentira bem decorada. Saí dali com a estranha certeza de que fiz uma visita. Alguém já não estava mais vivo. Acendi a luz por hábito, por respeito. E só depois entendi: o morto era eu, e a casa apenas confirmou. Wellington Augusto Schtoltz da Silva
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