O rato roeu o rei,
vestiu suas roupas,
dormiu em sua cama,
acompanhou suas noivas.
Após anos de encenações,
guerras e ostentações,
o levaram à forca,
e urraram com suas bocas:
"Preferimos um rato,
barata ou derivado,
em vez desse homem depravado!"
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Sombras espreitam meus temores.
Zombosas, sinuosas, cantando horrores.
Malditas sejam elas,
Deploráveis e maléficas.
Coitadas delas,
O quão horrendo sou em sua imagética.
Elas seguem enquanto as persigo,
E eu me escondo quando me percebem.
Imploro que me esqueçam, preciso disso.
Suplico para que me vejam,
E suplico mais para que ignorem.
Só, como necessito.
E então esfarelo, como pó,
Me resumo a isso.
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Certa vez fui triste,
No tempo em que me embriagava de aventuras,
Manejando no convés da alma uma mágica espada,
“Honra e glória” em sua empunhadura bordada,
Duelando contra o mal em seu covil triangular.
Outra vez entendi, asqueroso, pensei.
Embriaguei-me e, com humildade, declarei-me superior.
Na manhã seguinte, compreendi que não havia melhor,
Nem para mim, nem para outros.
Certa vez estive feliz.
Meu cachorro, idoso e já quase um vulto,
Assim que retornei ao lar, jogou-se em meus braços, desesperado.
Senti-me um verme ingrato, considerando o passado bobo.
Outro dia invejei a juventude,
Enquanto repreendia suas chamas crescentes,
Seus sorrisos inconsequentes,
Como folhas de outono que se deixam levar pelo marejo.
Alguns dias atrás havia vomitado,
e vê-los me lembrou disso.
Algumas vezes odiei a todos, e contentei-me ao ver-me igual.
Já amei, não orgulhosamente, um pouco a cada, acharam-me legal.
Por todas as vezes, senti falta.
Havia expectativa, sinceridade, esforço.
Houve razões, perspectivas, incômodos.
Senti falta da época em que me entristecia por ações, não retratos.
Em que imaginava monstros e descobria que eram irreais,
Onde poderia aprender, pois havia espaço, e tentar novamente.
Sinto essa lacuna, minha falta, quando não entendia meus pais,
Os tinha como ídolos infalíveis, e achava o mau humor incompreensível.
Faz-me falta poder chorar em braços, com um abraço, e ficar tranquilo.
Estar seguro e acreditar não só no outro, mas em mim.
Acreditar que seria incrível, não falharia, e teria toda sabedoria do mundo.
Dói que a angústia seja apenas rotina,
Enquanto a alegria soe como déjà vu.
Sinto saudades de mim, e espero que não tenha desistido.
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Falta pouco.
Coisas, noções, apenas.
Poucas, distantes, pequenas.
Dissertações reafirmaram valores,
E discursos, estampas de grandes homens.
O sal da pele, que transpira do mal da terra,
Afagou no conforto sua prole.
Muita é a distância que percorre,
Mesmo que falte alcance no espaço.
Os músculos ainda se enrijeceram,
Ossos esfarelaram,
E lamúrias cicatrizaram.
Pouco controle,
Pois por ele foi criado,
Nunca ensinado a prostrar-se,
Medido com base em outro gramado,
Em outro vaso,
Pelo mesmo cálculo.
Apesar da culpa,
Tal que não se pede,
Mas tatua e esconde,
Com vergonha rebelde,
Não lhe faz jus marcar outra pele.
Vi outrora, com vergonha, pequenos ruídos.
Entre grandes, volumosos, muitos, foram ínfimos.
Fomos por pouco, roucos bramidos,
Loucos festejando em uníssono,
Pois não se viram, mas estavam reunidos,
E de sempre, pouco mais que sempre, eram amigos.
Cresceu-me a culpa,
E dobrou-te a que lhe infligiram.
Pouco se fez, mal foi feito, incabível.
Desfez-se o som, mar, ar, sentidos.
Sobrou pouco, apenas isso:
Linhas, palavras, rabiscos.
Nunca se fala o que deve ser dito,
Mas as mãos seguem desenhando o sentido,
Com cada letra, salpicos contidos,
Contados a um espelho vazio,
Em uma sala turbulenta e vazia.
Pouco se fez, mas muito se fala.
Pouca culpa tem, e tanta a retalha.
Isso — seu nome, meu codinome, sem desculpa —
Persegue minha fala.
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Se anuncia a partida,
E logo o maestro escreve sua partitura.
Juntam-se filhos, transitam pela rua.
Só espírito há um bramido,
E da sarjeta, o choro da viúva.
Pois os ratos, malditos desgraçados,
Roeram do sol os saltos,
E já não estando alto,
Derramou nos homens seus raios.
Ai de seus cálices dourados,
Seus cabelos escovados,
De seus corpos decorados,
Pois fizeram-se sábios,
E forçadamente tornados,
Rigorosamente doutrinados.
E logo, abruptamente,
Por desdém tomados,
Tanto que cordas trançaram,
E logo se viram no alto,
Pendurados, por suas mãos trançados.
Ai do homem,
Pois se vê e não difere,
Não sente e consente,
Salva — vende.
Pois foram desvendados,
E viram a si como ratos.
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Disse-lhe o que podia,
Convenci-me de inúmeras mentiras,
Verdades essas que já não sentia.
Abaixo meu nome, sou aquilo que me chama,
Como mariposa que persegue e inflama.
Tirei meu chapéu,
Este que me foi companheiro fiel,
Testemunha célebre e troféu,
Pois na sombra de tua mão
Já não me feria a devassidão.
Não ouso escalar tal montanha,
Pois tua glória não é algo que se ganha,
Nem valor definido por barganha,
Para que não se vanglorie aquele que engana.
Escrevo sobre o sol, para que minhas palavras aqueçam.
Forneço páginas de textos, como louco em busca de razão;
Desdobro linhas sem fundamento, como quem sobe em canoa sem remo;
Sua face em páginas desenho, como beija-flor guiado por instinto;
Tua voz e trejeitos revejo, como leitor ávido com seu único livro.
Houvesse monumento esculpido,
Registro escrito, tecido,
Para que não temesse o pesar do destino,
O cobrar do tempo temível,
Que me assola com o risco de esquecer meus suspiros.
Tivesse mais em mim,
Se não o reconhecimento verossímil,
Que tira de meus ouvidos os sentidos
E torna tanto noite quanto girassóis insípidos.
Como Jekyll e Hyde me tenho dividido,
Entre guardar ou entregar para que guardes contigo.
Para que enterres comigo,
E perdure no sigilo,
O fato consigno,
Que reafirmo a cada respiro:
Não há sentido,
Gênio, estudioso ou livro
Que descreva a ti
Como sendo algo senão divino.
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Por vezes o tempo me transpassa,
Queima-me o sol da varanda.
Por outras, cobre-me o vento como véu,
E logo sinto-me abraçado pelo céu.
Retalho meus dedos, custa o peso de prever o infortúnio.
Horas que sangram a carne, recai sobre meu espírito o mundo.
Porém, toma-me o silêncio, ambíguo e profundo,
Logo torno a homem, que balbucia seu egoísmo absurdo.
Chama-me a atenção, observo a vela e sua chama.
Torço, rezo torto, imploro que permaneça,
Mas tanto a vela quanto a chama nunca mais serão as mesmas.
Tenho mantido, tal mérito posso celebrar,
A franzina linha que delimita pensar e pecar,
Que mantém o homem e não o torna sujeito a profanar.
Prendo-me às minhas próprias linhas,
Atribuições de expectativa,
Experiências de belas vistas.
Procuro a sorte como amiga,
Apesar de por vezes mal vista,
Pois o resultado do encontro é perspectiva.
Que o passado guarde o tenro de minha mão,
As palavras de amor,
Promessas de dedicação;
Extraia do café o amargor, xícaras de aflição,
Que tenha a juventude como recordação,
E o presente não me leve à reconciliação.
Tenho estado, mas já não sinto transbordar.
Congela-me o temor, então sigo a caminhar.
De repente me vem a clareza:
Deixei o passado onde está.
Sigo calmo e agitado, pacato como o mar.
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Frágil, é isto que nomeio de flagelo.
Pois não me rasga a carne,
Poupa-me a pele,
E mantém livres meus tornozelos.
Mas ai de minhas preces,
Pois as torno andarilhas,
Filhas vendidas,
Condenadas a vagar entre céu e terra.
Que meus olhos não vissem o horizonte,
Para que não pudesse cobiçá-lo.
Que não sentisse sol ou vento,
Assim não seria tão encantado.
Quem dera desconhecesse o amor,
E talvez fosse menos sufocado.
Do que tenho, e tanto tenho, que não basta ser grato.
Custasse de mim apenas sorriso e humildade,
Não lágrimas e um coração angustiado.
Sou constantemente afagado,
Revisitado, assombrado.
Por olhos que não são meus,
Abraços nunca dados,
E cartas jamais escritas, mas cremadas.
Bastasse a razão no homem como grilhão,
Resumir-se à sua própria palpitação,
Mas maldita é a ambição;
Do ego, personificação,
Impulso de consumação,
De querer fazer tuas as minhas mãos.
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Busque-me, suplício.
Tira-me deste pesadelo,
Este que idealizam com anseio,
Que me tira o chão,
Afoga-me no céu,
Neste que me submerge em teus olhos.
Já não respiro do ar que passa,
Apenas do que pesa,
Que, com pesar, sussurra-me saudades.
Cada palavra dita, vendida,
Cuspida pelas casas joviais,
Marejam minha vista,
Travam minha jugular como gargantilha,
Trazem consigo esse retrogosto,
Empapuçado, desgostoso,
Que impregna na carne, no osso,
E torna minha sanidade em vaidade.
Sinto-me como memória póstuma,
Singular, simplória.
Que, como quadro, empoeira-se nas bordas,
Onde a face desbota,
Para o qual já não se olha.
Pois o viver é, de fato, ingrato.
Atiçou-me como Sherlock ao ver mistérios,
Agarrou-me como em um sequestro,
Me desmembrou, costurou com teu afeto.
Fez-me escravo, por Estocolmo embriagado,
Entusiasmado, de monumentos encarregado,
Tais, para ti dedicados, santuários.
Eis o que são: artefatos empoeirados, desgastados,
Que me tornam historiador dedicado,
Viciado em vislumbres do passado.
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Virei quando me for permitido.
Espero meus pesadelos cessarem,
Estes que surgem quando abro os olhos.
Aguardo apenas o fim dos rangidos,
Estes, dos meus ossos providos,
Que com lágrimas tenho lubrificado, umedecido.
Confecciono, enquanto isso, escombros caídos,
Meu corpo, como foi dito,
Que cede ao delírio coletivo.
Chamam-me uníssono,
Como legião concebido,
Onde muitos irreais casos,
Descasos e cacos,
Tem me servido.
Clamo o apagar da vela,
Chama velha,
Que clareia a falha do meu ego,
E brinca com as sombras de meus medos.
Rogo pelo envelhecer, passar de eras.
Para que pereça esta fera, besta gélida,
E enfim reine a esperança sobre o receio.
Escreva-me lamentos,
Pois em júbilo sou atormentado.
Espero enfim socorro,
Meu enterro orquestrado,
Para que se adube o amor,
E me torne buquê para ti arranjado.
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