Permuta
Disse-lhe o que podia, Convenci-me de inúmeras mentiras, Verdades essas que já não sentia. Abaixo meu nome, sou aquilo que me chama, Como mariposa que persegue e inflama. Tirei meu chapéu, Este que me foi companheiro fiel, Testemunha célebre e troféu, Pois na sombra de tua mão Já não me feria a devassidão. Não ouso escalar tal montanha, Pois tua glória não é algo que se ganha, Nem valor definido por barganha, Para que não se vanglorie aquele que engana. Escrevo sobre o sol, para que minhas palavras aqueçam. Forneço páginas de textos, como louco em busca de razão; Desdobro linhas sem fundamento, como quem sobe em canoa sem remo; Sua face em páginas desenho, como beija-flor guiado por instinto; Tua voz e trejeitos revejo, como leitor ávido com seu único livro. Houvesse monumento esculpido, Registro escrito, tecido, Para que não temesse o pesar do destino, O cobrar do tempo temível, Que me assola com o risco de esquecer meus suspiros. Tivesse mais em mim, Se não o reconhecimento verossímil, Que tira de meus ouvidos os sentidos E torna tanto noite quanto girassóis insípidos. Como Jekyll e Hyde me tenho dividido, Entre guardar ou entregar para que guardes contigo. Para que enterres comigo, E perdure no sigilo, O fato consigno, Que reafirmo a cada respiro: Não há sentido, Gênio, estudioso ou livro Que descreva a ti Como sendo algo senão divino.
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