Levei teu nome ao rio
como quem leva uma coisa sagrada
para longe dos olhos.
Trancei violetas nos cabelos,
arruda nos pulsos,
alecrim onde o peito
ainda doía.
Não deixei recado na margem.
Nenhuma flor indicava
o caminho de volta.
A água não me devia resposta.
Entrei devagar,
com o coração ainda quente
daquilo que não coube em palavras.
Meu corpo pesou,
mas não havia desespero —
apenas a gravidade
de tudo o que foi verdadeiro.
Continuei cantando
a última coisa
que sabia de cor.
As violetas se soltaram primeiro.
Depois a arruda.
O alecrim permaneceu comigo
até a água alcançar meu peito.
Não pensei no que faltava.
Pensei que, entre tantas coisas
que atravessei sem compreender,
ao menos uma eu soube inteira:
amei.
E afundei
sem pedir ao rio
que me devolvesse à margem.
As flores subiram.
O nome ficou no rio.
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O livro estava lá.
O sol brilhava.
Não sabia quem o escreveu.
Quando o havia adquirido?
Tanto fazia.
Folheou algumas páginas.
Passou os dedos nos versos.
Sangrou neles.
Marcou onde parou.
Na margem, uma anotação a lápis.
Não era dedicatória.
Era epitáfio.
Esperava o próximo verso,
sabendo que não o leria.
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Não há nada mais bonito que um poeta triste;
há beleza na maneira como sangra
sem sujar o chão.
Chamam de poesia
o sangue que não secou no papel.
Para cada abraço, uma prova.
Para cada prova, uma dívida.
Para cada dívida, uma falta.
Para cada falta, eu.
Você não abriu minhas feridas.
Encontrou-as pelo sal.
Quando o mar me tomou a boca,
não me exigiu calmaria.
Não prometeu o mundo.
Abriu lugar no seu.
E, em vez de emprestar-me luz,
mostrou a minha — ainda acesa.
Aprendo a nadar.
Aprendo a pedir tua mão.
Aprendo a soltá-la
sem chamar de abandono.
E eu, que sempre fui tempestade,
que tanto paguei para ficar,
descubro, enfim, um porto
que não me cobra o naufrágio.
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Há algo nesta casa que nunca entrou pela porta,
mas chega ao espelho antes de mim.
Desde então, escuto meu nome na sua boca
com uma atenção doentia.
Procuro uma ternura menor,
uma sílaba que tenha sobrado,
um silêncio que não seja meu.
Você me beija.
Às vezes quase consigo estar aqui.
Quase.
Tenho vergonha
da fome de ser bonita,
do corpo que ofereço
como quem pede desculpas,
da necessidade miserável de ouvir
que sou suficiente
e não acreditar.
Sinto uma agonia terrível.
Agora, quando me olha,
penso em tudo o que seus olhos já encontraram
e sinto vergonha de possuir um rosto.
Você diz que me ama.
Eu sei.
Mas há uma distância terrível
entre ouvir uma coisa
e conseguir habitá-la.
Talvez não haja ausência alguma
além daquela que inventei em mim.
Talvez eu esteja sendo amada
com tudo o que você tem.
E é isso que me destrói.
Porque, mesmo nos seus braços,
continuo procurando o que falta em mim.
E talvez eu seja, afinal,
a mulher mais amada do mundo.
Que desgraça.
Ser justamente aquela que sente inveja.
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Há um pequeno branco preso ao meu dedo,
como uma bandeira de rendição
que ninguém pediu.
Serve para lembrar.
Talvez eu precise
de uma marca que os olhos encontrem
quando tudo o que esqueço
acontece por dentro.
Tenho tentado caber
sem derramar as bordas,
arredondar a palavra,
engolir o desgosto
antes que incomode alguém.
Mas há noites em que o curativo cai
e a ferida que fingi não ver
ocupa o lugar do dedo.
Às vezes o não escapa
antes que eu o dobre,
e a sala esfria:
o ar se retrai,
as paredes chegam mais perto.
Arrogância, dizem.
Eu experimento a palavra em silêncio
como uma roupa que não reconheço —
mas há um momento, breve,
em que ela quase me veste.
Por isso o branco no dedo:
não para estancar sangue,
mas para lembrar
que há feridas sem marca
e olhos que só acreditam
naquilo que sangra.
Espero que funcione.
Que o curativo me lembre
do que não deve aparecer.
Encolho.
Dobro.
Engulo.
Ninguém vê.
Esconder
é apenas outra forma
de continuar.
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Às vezes suspeito
que vivi uma vida
que me traduziram.
Deram nomes aos meus desejos,
legendas aos meus silêncios,
decidiram o significado dos meus gestos
antes que eu aprendesse
a lê-los.
E eu acreditei.
Passei anos sendo
uma tradução infiel de mim mesma,
pronunciando com convicção
palavras que talvez
nunca tenham sido minhas.
Agora tudo perde o sentido.
As frases se desprendem das páginas,
as margens avançam,
as vírgulas já não sabem
onde me interromper.
O texto inteiro parece escrito
num idioma que um dia foi meu
e que agora me recusa.
Procuro a versão original
e encontro correções,
notas de rodapé,
trechos riscados por mãos
que não reconheço.
Talvez por isso eu esteja tão cansada.
Não é sono.
É uma fadiga que o sono não alcança,
um peso sem lugar no corpo,
como sustentar durante anos
uma palavra
que nunca significou você.
E talvez essa seja
a parte mais cruel:
há algo terrivelmente bonito
em assistir uma vida inteira
perder a tradução.
De longe,
parece poesia.
De perto,
é só alguém diante das próprias páginas,
tentando descobrir
qual palavra ainda responde
pelo seu nome.
E eu escrevo.
Não porque escrever me salve.
Escrevo porque alguém precisa
registrar a hora exata
em que a última tradução
deixou de responder
por mim.
Talvez, quando terminarem de ler,
não reste nenhuma versão correta.
Só o original, finalmente ilegível —
e a caligrafia de todo mundo
por cima da minha.
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Eu não sinto falta de Deus.
Deveria, eu sei. Ou pelo menos foi isso que aprendi: quem se afasta deveria carregar alguma saudade sagrada, uma fisgada no peito, uma vontade de voltar ao templo, de dobrar os joelhos, de repetir as orações que um dia soube de cor.
Mas não há fisgada.
É estranho não sentir falta do Todo-Poderoso. Mais estranho ainda é perceber que a distância não me dói.
E então vem a pergunta que realmente me incomoda:
Deus sente a minha falta?
Não sei sequer se Deus pode sentir falta de alguém. Saudade pressupõe ausência, e dizem que Ele está em toda parte. Pressupõe carência, e dizem que Ele não precisa de nada. Que vazio uma criatura poderia deixar dentro de um ser infinito?
Além disso, Ele tem milhões, bilhões de fiéis. Igrejas cheias, mãos erguidas, joelhos no chão, gente que acorda pronunciando seu nome e adormece agradecendo. Tem, segundo as Escrituras, hostes de anjos diante de seu trono.
E então existo eu.
Uma pessoa entre bilhões, sem altar, sem oração na ponta da língua.
Que diferença faria minha ausência?
Talvez nenhuma. Talvez o infinito funcione de um modo que eu não compreenda. Talvez bilhões não tornem ninguém menos único diante Dele.
Ou talvez seja apenas uma maneira bonita que inventamos para suportar a ideia de sermos pequenos.
Não me pergunto tanto se Deus existe ou se devo voltar para alguma igreja. Pergunto-me se, existindo, Ele percebeu que eu fui embora.
Se entre a onisciência e a eternidade existe espaço para notar uma cadeira vazia.
Se, cercado por toda a criação, Ele percebe a ausência de uma única criatura que já não percebe a ausência Dele.
Eu não sinto falta de Deus.
Mas há uma contradição nisso que não consigo esconder: gostaria que Ele sentisse a minha.
Talvez eu só queira saber que fui percebida. Que minha presença não era intercambiável. Que, entre bilhões de vozes, Ele sabia qual era a minha.
Não sei se saudade é uma palavra que cabe em Deus.
Mas, se couber, espero que em algum lugar impossível da eternidade exista uma pequena falta com meu nome.
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O colapso é solitário por natureza.
Não porque falta amor,
mas porque sobra consciência.
Solidão não é estar sem ninguém.
É perceber demais.
É ver as forças em jogo
quando os outros ainda chamam de acaso.
Quando caí,
não caí para fora.
Caí para dentro.
E ninguém entra onde a gravidade já decidiu
que só um corpo pode existir por vez.
O buraco negro não rejeita companhia.
Ele apenas não permite atravessamento.
Não por crueldade —
por física.
Quanto mais consciente me tornei,
mais estreito ficou o caminho.
Palavras não passam.
Gestos não chegam.
Explicações se desfazem antes de tocar o núcleo.
O amor orbita.
Mas não toca.
Vejo as pessoas na borda,
tentando entender o que aconteceu comigo,
sem saber que não foi um evento,
foi um processo.
Não foi um dia ruim.
Foi densidade acumulada.
Pensamento sobre pensamento.
Sentido sobre sentido.
Até que a linguagem colapsou.
Solidão é isso:
não a falta de vínculo,
mas a impossibilidade de tradução.
É saber que ninguém entra
onde você caiu
porque ninguém caiu ali antes
do mesmo jeito.
No centro,
onde tudo deveria ser vazio,
há apenas eu —
não inteira,
não salva,
não resolvida.
Só consciente.
Um ponto mínimo que observa
enquanto o resto se curva.
Sem pedir socorro.
Sem fazer cena.
Porque até o pedido
exigiria uma ponte
que não existe.
E talvez seja isso que mais pesa:
não estar sozinha,
mas estar inacessível.
Não por escolha.
Por gravidade.
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Aprendi a língua dos outros
antes de terminar a minha.
Havia uma palavra certa
para cada mesa,
um rosto que não assustasse,
uma maneira de fechar a porta
sem parecer partida.
Fui ficando hábil.
Se diziam doeu,
eu diminuía os ossos.
Se diziam fica,
pregava os pés.
Se diziam você mudou,
eu procurava
qual de mim
havia falhado.
Afinei a garganta.
Arranquei dela
o não,
o excesso,
os dentes.
O resto
guardei sob a língua.
Às vezes apodrece.
Às vezes canta.
— Tudo bem.
Tudo bem.
— Não precisa.
Não precisa.
— Faça isso por mim.
Por mim.
Por—
Outro dia
procurei minha voz.
Havia uma sílaba
atrás dos dentes
e meu nome,
ainda criança,
preso em algum lugar da boca.
Chamei.
A casa devolveu
só o fim.
Talvez Eco
não tenha perdido a voz.
Talvez tenha respondido
por tanto tempo
que esqueceu
como começa
uma frase.
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