Caligrafia
Às vezes suspeito que vivi uma vida que me traduziram. Deram nomes aos meus desejos, legendas aos meus silêncios, decidiram o significado dos meus gestos antes que eu aprendesse a lê-los. E eu acreditei. Passei anos sendo uma tradução infiel de mim mesma, pronunciando com convicção palavras que talvez nunca tenham sido minhas. Agora tudo perde o sentido. As frases se desprendem das páginas, as margens avançam, as vírgulas já não sabem onde me interromper. O texto inteiro parece escrito num idioma que um dia foi meu e que agora me recusa. Procuro a versão original e encontro correções, notas de rodapé, trechos riscados por mãos que não reconheço. Talvez por isso eu esteja tão cansada. Não é sono. É uma fadiga que o sono não alcança, um peso sem lugar no corpo, como sustentar durante anos uma palavra que nunca significou você. E talvez essa seja a parte mais cruel: há algo terrivelmente bonito em assistir uma vida inteira perder a tradução. De longe, parece poesia. De perto, é só alguém diante das próprias páginas, tentando descobrir qual palavra ainda responde pelo seu nome. E eu escrevo. Não porque escrever me salve. Escrevo porque alguém precisa registrar a hora exata em que a última tradução deixou de responder por mim. Talvez, quando terminarem de ler, não reste nenhuma versão correta. Só o original, finalmente ilegível — e a caligrafia de todo mundo por cima da minha.
ỌHAR
poema bonito ✍️