Curativo
Há um pequeno branco preso ao meu dedo, como uma bandeira de rendição que ninguém pediu. Serve para lembrar. Talvez eu precise de uma marca que os olhos encontrem quando tudo o que esqueço acontece por dentro. Tenho tentado caber sem derramar as bordas, arredondar a palavra, engolir o desgosto antes que incomode alguém. Mas há noites em que o curativo cai e a ferida que fingi não ver ocupa o lugar do dedo. Às vezes o não escapa antes que eu o dobre, e a sala esfria: o ar se retrai, as paredes chegam mais perto. Arrogância, dizem. Eu experimento a palavra em silêncio como uma roupa que não reconheço — mas há um momento, breve, em que ela quase me veste. Por isso o branco no dedo: não para estancar sangue, mas para lembrar que há feridas sem marca e olhos que só acreditam naquilo que sangra. Espero que funcione. Que o curativo me lembre do que não deve aparecer. Encolho. Dobro. Engulo. Ninguém vê. Esconder é apenas outra forma de continuar.
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