Anatomia de Eco
Aprendi a língua dos outros antes de terminar a minha. Havia uma palavra certa para cada mesa, um rosto que não assustasse, uma maneira de fechar a porta sem parecer partida. Fui ficando hábil. Se diziam doeu, eu diminuía os ossos. Se diziam fica, pregava os pés. Se diziam você mudou, eu procurava qual de mim havia falhado. Afinei a garganta. Arranquei dela o não, o excesso, os dentes. O resto guardei sob a língua. Às vezes apodrece. Às vezes canta. — Tudo bem. Tudo bem. — Não precisa. Não precisa. — Faça isso por mim. Por mim. Por— Outro dia procurei minha voz. Havia uma sílaba atrás dos dentes e meu nome, ainda criança, preso em algum lugar da boca. Chamei. A casa devolveu só o fim. Talvez Eco não tenha perdido a voz. Talvez tenha respondido por tanto tempo que esqueceu como começa uma frase.
immago
esta foi a coisa mais linda profunda poética que li aqui. maravilhoso. perdi a compostura kkkkk