Sobre buracos negros e singularidade
O colapso é solitário por natureza. Não porque falta amor, mas porque sobra consciência. Solidão não é estar sem ninguém. É perceber demais. É ver as forças em jogo quando os outros ainda chamam de acaso. Quando caí, não caí para fora. Caí para dentro. E ninguém entra onde a gravidade já decidiu que só um corpo pode existir por vez. O buraco negro não rejeita companhia. Ele apenas não permite atravessamento. Não por crueldade — por física. Quanto mais consciente me tornei, mais estreito ficou o caminho. Palavras não passam. Gestos não chegam. Explicações se desfazem antes de tocar o núcleo. O amor orbita. Mas não toca. Vejo as pessoas na borda, tentando entender o que aconteceu comigo, sem saber que não foi um evento, foi um processo. Não foi um dia ruim. Foi densidade acumulada. Pensamento sobre pensamento. Sentido sobre sentido. Até que a linguagem colapsou. Solidão é isso: não a falta de vínculo, mas a impossibilidade de tradução. É saber que ninguém entra onde você caiu porque ninguém caiu ali antes do mesmo jeito. No centro, onde tudo deveria ser vazio, há apenas eu — não inteira, não salva, não resolvida. Só consciente. Um ponto mínimo que observa enquanto o resto se curva. Sem pedir socorro. Sem fazer cena. Porque até o pedido exigiria uma ponte que não existe. E talvez seja isso que mais pesa: não estar sozinha, mas estar inacessível. Não por escolha. Por gravidade.
immago
adoro seus abismos suspensos onde tudo pode acontecer