um polígono oco @Aili_BarrosS2

Do lado de fora

Há algo nesta casa que nunca entrou pela porta, mas chega ao espelho antes de mim. Desde então, escuto meu nome na sua boca com uma atenção doentia. Procuro uma ternura menor, uma sílaba que tenha sobrado, um silêncio que não seja meu. Você me beija. Às vezes quase consigo estar aqui. Quase. Tenho vergonha da fome de ser bonita, do corpo que ofereço como quem pede desculpas, da necessidade miserável de ouvir que sou suficiente e não acreditar. Sinto uma agonia terrível. Agora, quando me olha, penso em tudo o que seus olhos já encontraram e sinto vergonha de possuir um rosto. Você diz que me ama. Eu sei. Mas há uma distância terrível entre ouvir uma coisa e conseguir habitá-la. Talvez não haja ausência alguma além daquela que inventei em mim. Talvez eu esteja sendo amada com tudo o que você tem. E é isso que me destrói. Porque, mesmo nos seus braços, continuo procurando o que falta em mim. E talvez eu seja, afinal, a mulher mais amada do mundo. Que desgraça. Ser justamente aquela que sente inveja.

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