Antes mesmo do galo cantar, ele já estava acordado.
Lá longe, perto do corgo, o monjolo começava seu trabalho.
O som atravessava a madrugada e chegava manso até a casa.
Tum. Tum. Tum.
Era um barulho tão comum que fazia parte da paisagem.
Ninguém estranhava. Era como o vento, o canto dos passarinhos ou o café no fogão de lenha.
Deitada no meu catre, enrolada na coberta, eu escutava aquele bater e sabia que o dia chegava.
Naquele tempo, o mundo não tinha pressa.
A água corria pelo rego, enchia a concha de madeira e despencava no braço do monjolo.
Então ele batia. E tornava a subir.
E tornava a bater. Horas e horas.
Dias e dias. Anos e anos.
Sem reclamar. Sem descansar.
Sem pedir nada em troca.
Eu gostava de olhar.
Achava bonito a força da água trabalhando sozinha, como um encantamento dentro daquele engenho.
Enquanto o pilão socava o milho, a água cantava.
Enquanto a água cantava, o monjolo batia.
Enquanto ele batia, a vida acontecia.
Os homens iam pra roça.
As mulheres cuidavam da casa.
As crianças corriam no terreiro.
E o velho monjolo marcava um tempo que não existia nos relógios.
Hoje penso que aquele som ensinava uma lição sem que ninguém percebesse.
Ele ensinava paciência.
Ensinava que algumas coisas levam tempo.
Que o milho não vira fubá de uma vez.
Que a lavoura não cresce da noite para o dia.
Que a chuva tem seu tempo.
Que a colheita tem sua hora.
Que a vida não pode ser apressada.
Talvez por isso o povo antigo fosse diferente.
Aprendeu com os rios. Aprendeu com a terra.
Aprendeu com o monjolo.
Hoje quase não existem mais monjolos.
O progresso chegou.
As máquinas ficaram mais rápidas.
Os motores mais fortes. Os dias mais curtos.
Mas, às vezes, quando o silêncio da noite fica grande demais, eu ainda escuto aquele velho som da infância.
Tum. Tum. Tum.
Vindo das profundezas da memória.
Batendo devagar dentro de mim.
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(Capítulo 1)
Não nasci em castelo, nem cresci cercada de luxo.
Minha infância coube dentro de uma casinha de pau a pique, coberta de capim, com chão batido e cheiro de café passado no fogão de lenha.
Naquele tempo, eu não sabia que era pobre.
Sabia apenas que existia um córrego para nadar, uma pinguela para atravessar, uma lamparina para iluminar a noite e um mundo inteiro esperando atrás da porteira.
Hoje, quando fecho os olhos, ainda escuto o monjolo batendo ao longe.
Tum. Tum. Tum.
Talvez seja apenas a lembrança.
Ou talvez seja o coração do sertão, que nunca deixou de bater dentro de mim.
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Menina miúda, pé no chão batido,
Sentada no mourão da velha porteira,
Vestido de chita, cabelo de picumã,
Espiando o mundo pela estrada poeireira.
A casa era de taipa, rebocada de barro,
Com esteio grosso e janela de tramelar.
No fogão de lenha a trempe gemia,
E a picumã vivia no teto a morar.
No paiol dormia o milho guardado,
Na tuia havia fartura pro tempo ruim.
O candeeiro alumiava as rezas da noite,
E o borralho guardava histórias sem fim.
Lá no corgo cantava água correndo,
Enquanto o monjolo batia sem parar.
Tum... tum... tum... noite adentro,
Feito coração velho querendo falar.
A menina cruzava a pinguela estreita,
Corria a macega sem medo nenhum.
Voltava com carrapicho agarrado na saia,
E o vento brincando no cabelo comum.
No mangueiro um matungo sonolento,
E um poldro rosilho querendo empacar.
Mas sonho de menina não conhece cabresto,
Nem laço de peão consegue pear.
Na quartinha a água da bica era fria,
Na gamela quitanda cheirando a manhã.
Se vinha sezão, ferruquina e benzedeira,
E a fé da vó mais forte que a dor vã.
Quando a noite descia no rancho quieto,
O catre rangia baixinho ao deitar.
"Ô de casa!", chamava o vento no escuro.
"Ô de fora!", a velha tornava a falar.
— Crendeuspai, menina, entra pra dentro!
Num vá vortar tarde desse caminhão.
O mundo é grande e tem muito azorde,
Mas Deus acompanha quem tem coração.
Hoje a tapera virou só lembrança,
O monjolo cansou de bater no vazio.
A pinguela caiu, o mato tomou conta,
E o corgo mudou o rumo do rio.
Mas quando fecho os olhos, de tardezinha,
Vejo tudo do jeito que ficou:
A menina sentada no mourão da porteira,
Onde o tempo passou...
Mas nunca passou.
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Com o tempo, Margarida já não andava.
Ela se arrastava.
Até o dia em que não aguentou.
Sentiu um cansaço, tão fundo
Ela levantou.
Sem avisar. Sem explicar.
E começou a subir.
O morro era alto.
Íngreme.
Pedra solta, terra seca, ar pesado.
Cada passo arrancava um pedaço dela.
No meio do caminho, algo caiu.
Um corpo. Depois outro.
Depois vários. Ela não parou.
Não olhou. Só subiu.
Porque, pela primeira vez… não estava segurando.
Estava deixando.
Quando chegou ao topo, o silêncio veio.
Ela olhou para trás.
O caminho estava coberto.
Gente espalhada como resto.
Bocas abertas.
Olhos ainda acusando.
Mas longe. Muito longe.
Ela não tinha soltado ninguém.
Ela tinha subido… acima deles.
De repente, a coluna estalou pro outro lado.
_TEC._
Ela tava nua de peso. Leve igual pluma de urubu.
Do outro lado do morro, há uma floresta.
Ela passou por ela.
Sem parar.
Arrancou uma folha, e mordeu.
O gosto veio rápido.
— Rivotril.
A floresta inteira era feita disso.
De tudo que tentaram enfiar nela pra silenciar.
No fim do caminho, um casarão.
Tinha grades.
Tinha cheiro de gente que desistiu.
Margarida entrou. Era um hospício.
E lá dentro… estavam todos.
A mãe. O padre.
O homem. Os filhos.
Os outros.
Mas não era mais gente inteira.
Falavam. Repetiam.
Mas já estavam, gastos.
O padre ainda rezava, mas a hóstia na boca dele era cinza.
Os filhos ainda cobravam
mas a língua deles apodrecia entre os dentes
Todos trancados.
Presos no que fizeram.
Presos no que disseram.
Virou o que lançaram nela.
Margarida ficou parada.
Observando.
Sem responder.
Sentou na cadeira da diretoria, abriu o prontuário dela mesma e escreveu na capa com carvão:
ALTA DEFINITIVA. MOTIVO: CANSEI.
Margarida olhou.
Depois virou e saiu, só que antes fechou o portão, e engoliu a chave.
Saiu andando, não olhou pra trás.
Não carregou mais ninguém.
Foi embora pra longe, construiu vida nova.
E, pela primeira vez desde que nasceu…
Ela dormiu em paz 🕊️
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Era uma vez uma menina corcunda
E foi assim que ela virou lenda.
A menina nasceu no dia que a última chuva caiu. Veio com um caroço nas costas.
A terra era rachada igual boca de velho.
Recebeu um nome leve demais para o peso que carregaria: Margarida.
Desde pequena, ensinaram a ela uma coisa simples:
gente como ela serve para carregar.
Para se curvar.
Primeiro foi a mãe.
— Segura aqui pra mim.
Era panela, roupas, era culpa.
Era o olhar torto quando Margarida não fazia certo.
Era a frase repetida até virar raiz:
— Você me envergonha.
E a menina aprendeu.
Aprendeu a curvar.
Aprendeu a não responder.
Aprendeu a caber no peso dos outros.
Depois veio o padre.
Ele não pediu.
Ele colocou.
Mãos pesadas nas costas dela, empurrando para baixo.
Água benta escorrendo como coisa estragada.
— Tem coisas aí dentro.
E todo mundo acreditou.
Então Margarida carregou também isso:
o demônio que nunca viu,
o medo que não era dela,
a culpa que não tinha nome.
Cresceu.
E cresceu torta curvada,
Porque peso não educa — deforma.
Veio o homem.
Chamava de amor.
Trancava portas.
Segurava braços.
Apertava o que ela era até quase desaparecer.
E a curvava ainda mais.
Ela carregou, silêncio, vergonha.
O gosto de não poder sair.
Vieram os filhos.
Pequenos no começo.
Leves.
Mas cresceram aprendendo errado.
Aprenderam com o mundo.
Com o pai.
Com tudo que Margarida não conseguiu impedir.
— Você é louca.
— Por que você é assim?
— Some.
E ela carregou também isso.
Os próprios filhos pendurados nas costas como acusações vivas.
Depois vieram os outros.
Sempre vêm.
Vizinhos com olhos demais.
Amigos com riso afiado.
Parentes, desconhecidos.
Cada um deixava algo.
Uma carga a mais
Um peso
Uma palavra, que a curvava cada vez mais.
E tudo grudava.
Tudo pesava. Tudo ficava.
(Continuação na parte 2)
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Eloísa era feita de histórias.
Quase literal.
Desde pequena,
reconhecia livros
como quem reconhece casa.
Enquanto o mundo corria,
ela se demorava em páginas.
Sentava em qualquer canto
e abria um livro
como quem abre um portal.
E ia.
Sem sair do lugar.
Cresceu assim.
O que era encanto
virou hábito,
depois… necessidade.
Colecionou mundos.
Pequenos no começo,
imensos por dentro.
Atravessou aventuras,
guardou marcas,
descobriu autores
que a prendiam sem esforço.
Histórias que viravam noites.
Mistérios que ensinavam
que nada é por acaso.
Eloísa não lia por gosto.
Lia por falta de ar.
Na cozinha,
mexia o tempo com uma mão
e segurava um livro com a outra.
Já queimou arroz,
esqueceu panelas,
ouviu reclamações —
mas nunca parou.
Porque parar de ler
era como parar de respirar.
Mas o tempo…
não avisa.
Chegaram dias cheios,
urgências, distrações.
E os livros,
aos poucos,
foram ficando para depois.
“Hoje não.”
“Amanhã eu volto.”
Mas não voltou.
O hábito virou pausa.
A pausa, distância.
E a distância… silêncio.
Os livros ficaram.
Na estante.
Esperando.
Mas Eloísa
já não sabia mais
como voltar.
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"Não dê poder às cobras; quanto mais você se rebaixa, mais elas te picam.
Seja forte! E quando elas vierem te atacar, pise logo na cabeça delas e esmague.
Duvido que elas voltem a te atacar novamente."
(Esta história não é sobre bichos)
Na floresta do Vale Sombrio, no alto de uma árvore seca, vivia uma gralha de olhos fundos e penas negras como noite sem lua. Quando abria o bico, os animais tremiam. Seus alertas pareciam grosseria, seus avisos soavam como irritação.
— Lá vem a desgraça!
— Lá vem o mau presságio!
E todos se afastavam.
No chão, entre folhas úmidas e raízes retorcidas, deslizava a cobra coral. Suas cores brilhavam como sangue misturado ao ouro. Era bela demais para aquele lugar. Movia-se em silêncio, como se a própria terra respirasse com ela. Ninguém desconfiava. O mal mais profundo raramente faz barulho.
Numa madrugada fria, um jovem coelho saiu da toca. Ouvira falar de uma luz colorida e acreditava que tudo o que reluzia era sinal de sorte. Ignorou o arrepio que sentiu ao atravessar a névoa.
Então a viu: a cobra enrolada sobre uma pedra, iluminada pelo luar. Parecia uma joia viva. Ela ergueu a cabeça devagar, olhos brilhando com fome antiga.
Hipnotizado, o coelho se aproximou.
Do alto, a gralha gritou.
Assustado, ele respondeu:
— Sua ave barulhenta! Você só sabe assustar!
E deu mais um passo em direção ao brilho.
A cobra deslizou, rápida e precisa. O ataque foi breve. Um gemido curto. Depois, silêncio. O corpo do coelho desapareceu entre as sombras.
A gralha desceu, tarde demais. Não por falta de aviso — mas por falta de escuta. Ninguém vira o ataque. Só tinham ouvido seu grito.
Ao amanhecer, encontraram apenas a gralha, suja e exausta, tentando falar:
— A cobra… ela atacou…
Mas ninguém quis ouvir. Expulsaram-na, chamando-a de monstro. Enquanto isso, de longe, a cobra observava com olhos frios e quietos.
Porque é fácil culpar quem grita.
Difícil é perceber quem envenena em silêncio.
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Hoje é o Dia da Bíblia, e estamos homenageando
Este livro sagrado,
Com Deus nos abençoando.
Merece o meu respeito todos que aqui estão,
Que Jesus se faça presente em cada coração.
Livro santo, palavra viva,
Fonte eterna de verdade e luz;
Em suas letras, Deus nos guia
Pelos passos deixados por Jesus.
Espada mansa que corta a alma,
Consolo certo na dor e na aflição;
É voz que chama, corrige e acalma,
Semeando fé em cada coração.
Quem nela lê jamais caminha só,
Pois nela habita o amor do Pai;
A Bíblia é pão, é rumo, é voz,
É vida eterna que nunca cai.
E aqui fica um forte abraço
Desta poetisa evangelista. ✨📖
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Enquanto alguns te pisoteiam no pó do desprezo,
Outros estendem a mesa, repartem o pão e o afeto.
Uns veem em ti apenas o chão que se pisa,
Outros te convidam, com honra, para o banquete.
Há quem te use como degrau, sem olhar teu valor,
E há quem te reconheça como presença e respeito.
Nem todo passo é queda — às vezes é escolha:
Ficar com quem pisa, ou sentar à mesa do afeto.
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