A CORCUNDA DO VALE SECO (parte 2)
Com o tempo, Margarida já não andava. Ela se arrastava. Até o dia em que não aguentou. Sentiu um cansaço, tão fundo Ela levantou. Sem avisar. Sem explicar. E começou a subir. O morro era alto. Íngreme. Pedra solta, terra seca, ar pesado. Cada passo arrancava um pedaço dela. No meio do caminho, algo caiu. Um corpo. Depois outro. Depois vários. Ela não parou. Não olhou. Só subiu. Porque, pela primeira vez… não estava segurando. Estava deixando. Quando chegou ao topo, o silêncio veio. Ela olhou para trás. O caminho estava coberto. Gente espalhada como resto. Bocas abertas. Olhos ainda acusando. Mas longe. Muito longe. Ela não tinha soltado ninguém. Ela tinha subido… acima deles. De repente, a coluna estalou pro outro lado. _TEC._ Ela tava nua de peso. Leve igual pluma de urubu. Do outro lado do morro, há uma floresta. Ela passou por ela. Sem parar. Arrancou uma folha, e mordeu. O gosto veio rápido. — Rivotril. A floresta inteira era feita disso. De tudo que tentaram enfiar nela pra silenciar. No fim do caminho, um casarão. Tinha grades. Tinha cheiro de gente que desistiu. Margarida entrou. Era um hospício. E lá dentro… estavam todos. A mãe. O padre. O homem. Os filhos. Os outros. Mas não era mais gente inteira. Falavam. Repetiam. Mas já estavam, gastos. O padre ainda rezava, mas a hóstia na boca dele era cinza. Os filhos ainda cobravam mas a língua deles apodrecia entre os dentes Todos trancados. Presos no que fizeram. Presos no que disseram. Virou o que lançaram nela. Margarida ficou parada. Observando. Sem responder. Sentou na cadeira da diretoria, abriu o prontuário dela mesma e escreveu na capa com carvão: ALTA DEFINITIVA. MOTIVO: CANSEI. Margarida olhou. Depois virou e saiu, só que antes fechou o portão, e engoliu a chave. Saiu andando, não olhou pra trás. Não carregou mais ninguém. Foi embora pra longe, construiu vida nova. E, pela primeira vez desde que nasceu… Ela dormiu em paz 🕊️
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