Poeta das sombras @geniltamartins

A CORCUNDA DO VALE SECO (parte 1)

Era uma vez uma menina corcunda E foi assim que ela virou lenda. A menina nasceu no dia que a última chuva caiu. Veio com um caroço nas costas. A terra era rachada igual boca de velho. Recebeu um nome leve demais para o peso que carregaria: Margarida. Desde pequena, ensinaram a ela uma coisa simples: gente como ela serve para carregar. Para se curvar. Primeiro foi a mãe. — Segura aqui pra mim. Era panela, roupas, era culpa. Era o olhar torto quando Margarida não fazia certo. Era a frase repetida até virar raiz: — Você me envergonha. E a menina aprendeu. Aprendeu a curvar. Aprendeu a não responder. Aprendeu a caber no peso dos outros. Depois veio o padre. Ele não pediu. Ele colocou. Mãos pesadas nas costas dela, empurrando para baixo. Água benta escorrendo como coisa estragada. — Tem coisas aí dentro. E todo mundo acreditou. Então Margarida carregou também isso: o demônio que nunca viu, o medo que não era dela, a culpa que não tinha nome. Cresceu. E cresceu torta curvada, Porque peso não educa — deforma. Veio o homem. Chamava de amor. Trancava portas. Segurava braços. Apertava o que ela era até quase desaparecer. E a curvava ainda mais. Ela carregou, silêncio, vergonha. O gosto de não poder sair. Vieram os filhos. Pequenos no começo. Leves. Mas cresceram aprendendo errado. Aprenderam com o mundo. Com o pai. Com tudo que Margarida não conseguiu impedir. — Você é louca. — Por que você é assim? — Some. E ela carregou também isso. Os próprios filhos pendurados nas costas como acusações vivas. Depois vieram os outros. Sempre vêm. Vizinhos com olhos demais. Amigos com riso afiado. Parentes, desconhecidos. Cada um deixava algo. Uma carga a mais Um peso Uma palavra, que a curvava cada vez mais. E tudo grudava. Tudo pesava. Tudo ficava. (Continuação na parte 2)

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