Poeta das sombras @geniltamartins
Poema

A Menina do tempo e do vento

Menina miúda, pé no chão batido, Sentada no mourão da velha porteira, Vestido de chita, cabelo de picumã, Espiando o mundo pela estrada poeireira. A casa era de taipa, rebocada de barro, Com esteio grosso e janela de tramelar. No fogão de lenha a trempe gemia, E a picumã vivia no teto a morar. No paiol dormia o milho guardado, Na tuia havia fartura pro tempo ruim. O candeeiro alumiava as rezas da noite, E o borralho guardava histórias sem fim. Lá no corgo cantava água correndo, Enquanto o monjolo batia sem parar. Tum... tum... tum... noite adentro, Feito coração velho querendo falar. A menina cruzava a pinguela estreita, Corria a macega sem medo nenhum. Voltava com carrapicho agarrado na saia, E o vento brincando no cabelo comum. No mangueiro um matungo sonolento, E um poldro rosilho querendo empacar. Mas sonho de menina não conhece cabresto, Nem laço de peão consegue pear. Na quartinha a água da bica era fria, Na gamela quitanda cheirando a manhã. Se vinha sezão, ferruquina e benzedeira, E a fé da vó mais forte que a dor vã. Quando a noite descia no rancho quieto, O catre rangia baixinho ao deitar. "Ô de casa!", chamava o vento no escuro. "Ô de fora!", a velha tornava a falar. — Crendeuspai, menina, entra pra dentro! Num vá vortar tarde desse caminhão. O mundo é grande e tem muito azorde, Mas Deus acompanha quem tem coração. Hoje a tapera virou só lembrança, O monjolo cansou de bater no vazio. A pinguela caiu, o mato tomou conta, E o corgo mudou o rumo do rio. Mas quando fecho os olhos, de tardezinha, Vejo tudo do jeito que ficou: A menina sentada no mourão da porteira, Onde o tempo passou... Mas nunca passou.

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