A menina que lia o mundo
Eloísa era feita de histórias. Quase literal. Desde pequena, reconhecia livros como quem reconhece casa. Enquanto o mundo corria, ela se demorava em páginas. Sentava em qualquer canto e abria um livro como quem abre um portal. E ia. Sem sair do lugar. Cresceu assim. O que era encanto virou hábito, depois… necessidade. Colecionou mundos. Pequenos no começo, imensos por dentro. Atravessou aventuras, guardou marcas, descobriu autores que a prendiam sem esforço. Histórias que viravam noites. Mistérios que ensinavam que nada é por acaso. Eloísa não lia por gosto. Lia por falta de ar. Na cozinha, mexia o tempo com uma mão e segurava um livro com a outra. Já queimou arroz, esqueceu panelas, ouviu reclamações — mas nunca parou. Porque parar de ler era como parar de respirar. Mas o tempo… não avisa. Chegaram dias cheios, urgências, distrações. E os livros, aos poucos, foram ficando para depois. “Hoje não.” “Amanhã eu volto.” Mas não voltou. O hábito virou pausa. A pausa, distância. E a distância… silêncio. Os livros ficaram. Na estante. Esperando. Mas Eloísa já não sabia mais como voltar.
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