Poeta das sombras @geniltamartins

A gralha e a cobra

(Esta história não é sobre bichos) Na floresta do Vale Sombrio, no alto de uma árvore seca, vivia uma gralha de olhos fundos e penas negras como noite sem lua. Quando abria o bico, os animais tremiam. Seus alertas pareciam grosseria, seus avisos soavam como irritação. — Lá vem a desgraça! — Lá vem o mau presságio! E todos se afastavam. No chão, entre folhas úmidas e raízes retorcidas, deslizava a cobra coral. Suas cores brilhavam como sangue misturado ao ouro. Era bela demais para aquele lugar. Movia-se em silêncio, como se a própria terra respirasse com ela. Ninguém desconfiava. O mal mais profundo raramente faz barulho. Numa madrugada fria, um jovem coelho saiu da toca. Ouvira falar de uma luz colorida e acreditava que tudo o que reluzia era sinal de sorte. Ignorou o arrepio que sentiu ao atravessar a névoa. Então a viu: a cobra enrolada sobre uma pedra, iluminada pelo luar. Parecia uma joia viva. Ela ergueu a cabeça devagar, olhos brilhando com fome antiga. Hipnotizado, o coelho se aproximou. Do alto, a gralha gritou. Assustado, ele respondeu: — Sua ave barulhenta! Você só sabe assustar! E deu mais um passo em direção ao brilho. A cobra deslizou, rápida e precisa. O ataque foi breve. Um gemido curto. Depois, silêncio. O corpo do coelho desapareceu entre as sombras. A gralha desceu, tarde demais. Não por falta de aviso — mas por falta de escuta. Ninguém vira o ataque. Só tinham ouvido seu grito. Ao amanhecer, encontraram apenas a gralha, suja e exausta, tentando falar: — A cobra… ela atacou… Mas ninguém quis ouvir. Expulsaram-na, chamando-a de monstro. Enquanto isso, de longe, a cobra observava com olhos frios e quietos. Porque é fácil culpar quem grita. Difícil é perceber quem envenena em silêncio.

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