Capitulo 2: O Monjolo
Antes mesmo do galo cantar, ele já estava acordado. Lá longe, perto do corgo, o monjolo começava seu trabalho. O som atravessava a madrugada e chegava manso até a casa. Tum. Tum. Tum. Era um barulho tão comum que fazia parte da paisagem. Ninguém estranhava. Era como o vento, o canto dos passarinhos ou o café no fogão de lenha. Deitada no meu catre, enrolada na coberta, eu escutava aquele bater e sabia que o dia chegava. Naquele tempo, o mundo não tinha pressa. A água corria pelo rego, enchia a concha de madeira e despencava no braço do monjolo. Então ele batia. E tornava a subir. E tornava a bater. Horas e horas. Dias e dias. Anos e anos. Sem reclamar. Sem descansar. Sem pedir nada em troca. Eu gostava de olhar. Achava bonito a força da água trabalhando sozinha, como um encantamento dentro daquele engenho. Enquanto o pilão socava o milho, a água cantava. Enquanto a água cantava, o monjolo batia. Enquanto ele batia, a vida acontecia. Os homens iam pra roça. As mulheres cuidavam da casa. As crianças corriam no terreiro. E o velho monjolo marcava um tempo que não existia nos relógios. Hoje penso que aquele som ensinava uma lição sem que ninguém percebesse. Ele ensinava paciência. Ensinava que algumas coisas levam tempo. Que o milho não vira fubá de uma vez. Que a lavoura não cresce da noite para o dia. Que a chuva tem seu tempo. Que a colheita tem sua hora. Que a vida não pode ser apressada. Talvez por isso o povo antigo fosse diferente. Aprendeu com os rios. Aprendeu com a terra. Aprendeu com o monjolo. Hoje quase não existem mais monjolos. O progresso chegou. As máquinas ficaram mais rápidas. Os motores mais fortes. Os dias mais curtos. Mas, às vezes, quando o silêncio da noite fica grande demais, eu ainda escuto aquele velho som da infância. Tum. Tum. Tum. Vindo das profundezas da memória. Batendo devagar dentro de mim.
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