Há muito tempo essas carnes tem gosto de hóstia.
— Mãe, por que o padre só dá a bênção de Deus
depois dos avisos da paróquia?
Estou farto dessa independência compulsória!
Usa as palavras que tu tem
e fala com a vida tu que viveu!
Neste solo, sonho só brota no regar da esperança.
Quem vende o que tiver de vida por um cativeiro de vinte metros quadrados comprado na planta?
A morte amortiza dia após dia, ano após ano!
Aluga-se por temporada:
Deuses, sapatos, medos, monstros!
O problema é que todo mundo tem seu ponto de vista e ninguém vê que a vida está sendo "sugerida" por um ritmo algorítmico não-circadiano.
A quem tu confiaste o despertar do teu sono?
A quantos subprodutos do petróleo você se submeteu?
Esse povo anda passivo demais!
Cabos elétricos, aos olhos, já tão naturais!
E as luzes artificiais, aos sonhos, generativas!
Tecnologia divina e a fome feudal!
Diante da fera capital,
ergue paredes de cânhamo e baixa a febre da terra.
Todos os deuses disponíveis estão de pé.
Todos os seres invisíveis cientes da guerra.
O que está no DNA óptico dessa neurótica hera?
As flores que hoje ainda brotam da Terra
têm estranhado o toque do sol.
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Certo dia, em meio ao trânsito injulgável, esbarrei em poesia.
Tornei-me asfalto preenchido por vício falado de língua,
retinta mágoa, míngua,
fera de dentes afiados.
“Tudo é opcional”, disse,“nada é obrigado.”
Refugiei-me na pátria do ócio,
calcificado fóssil perante o ensino agrícola,
Escapou-me à mente a genealógica amarra,
ânsia infeliz de sina.
Dediquei-me quase que integralmente à rima, que, a todas as almas arma, em raiva pandêmica
dos que encontram no trabalho meio de morte, larguei-me à própria sorte.
De tão frágil e sensível o elo, julguei curta a vida útil do maquinário poético, corpo meu.
Mas, como a mim e a todos diariamente me sujeito e me rebelo;
Sigo contrariado e cego
perante a engrenagem a ranger anatômica,
perante os espasmos fébris da cocaína eletrônica,
E a pureza crônica que assola as crianças fabris.
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Me sinto fraco, pois sou dos que fraquejam
Me sinto pasmo, pois sou dos que ainda se espantam
Aguardo a poeira que subirá da fuzilaria Pela flecha de um raio cortante de sol
Meu estômago cozinhou por dentro
A gravidade, o epicentro.
O final.
Quantos degraus e quantos graus?
Até onde vai? Até onde iria?
Por onde a chuva começaria a cair se não fosse tarde mais para dizer
Tudo tem que lutar. Tudo tem morrer.
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Arrancaram meu jardim.
Quando vi, me perdi de mim. Ele não estava mais lá.
Arrancaram meu jardim. Pronto, simples assim.
Sem motivo, sem aviso, sem receio.
Sem dó, sem maldade, sem piedade.
As mãos inocentes de um jardineiro que só aprendeu a cortar.
Inocente jardim que não aprendeu a dizer.
As mãos calejadas de um pedreiro que só aprendeu a quebrar.
Gentil veneno, a inocência não devasta menos,
nem cega a faca que corta, nem cessa a ferida que sangra.
Me dói, me dói por dentro,
Como se eu fosse uma criança que perdera, subitamente, seu jardim.
Meu coração largo, frágil, despedaçado inteiro, simples assim.
Perdoai os homens, pois não lhes ensinaram a cultivar.
Devastada terra, devastada eu, devastado lar.
Como se de mim tivessem arrancado um dedo,
uma costela, um familiar, um jardim.
Sobrou o choro, destes, que não tem consolo. Nem culpa para justificar.
Ele não está mais lá.
E só restou o concreto: quente, cinza, seco, onde erá jardim.
Mas a terra permanecerá, sozinha, fértil enfim
E o tempo há de regar o solo, e fazer crescer outro jardim.
O tempo há de estancar essa ferida em mim.
Mas até lá , carregarei a falta como sobrenome.
Até lá me faltará sempre um dedo, uma costela, um familiar, um jardim.
Levarei uma esperança e choro calado de criança dentro de mim.
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Levantem-se, favelas!
Cerrai vossas correntes,
Marchem, marchem pela terra
Expulsando as caravelas
Que infestam o continente.
Levantem-se, favelas!
Que o sol arde em brilho negro,
Façamos nós por nossas mãos
Tudo o que nos diz respeito.
De pé, filhos da fome,
De pé, mães da miséria,
O fogo da raiva consome
O gelo frio desta era.
Branca é a mão que persegue,
Branco é o veneno que mata,
Olhai na minha pele parda,
A cor que me foi roubada.
De pé, órfãos da pátria,
De pé, soldados sem nome,
Ouçam as trombetas da guerra
Chamando-nos ao fronte.
Abram as portas dos terreiros,
Incendeiem cada cruz,
Para que finalmente cesse
A crucificação de Jesus.
Avante, vento que sopra,
Avante, tempo que gira,
Os cães da miséria se escondem,
Mas o rastro do sangue nos guia.
Veja no horizonte,
A revolução que se anuncia.
Levantem-se favelas!
Erguei vossos punhos,
Para forjar na terra o altar de um novo mundo.
Levantem-se favelas!
Cantai todas as dores,
Que o suor da batalha escorra em vitória
Ao som de vossos tambores.
Gritai, favelas!
Não esqueçais vossos inimigos,
Extraí vossa força para a guerra
Do choro dos recém-nascidos.
Uni-vos, favelas!
Erguei vosso fogo em luz,
Para que finalmente desça do céu
A justiça em fino véu
De um negro e retinto Jesus.
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De vez em quando eu rogo ao passado que me agracie com fruturos
ao mesmo passo em que acho que não sou o mesmo, mas não saí do lugar
recebo cartas, abraços, beijos e correios que vem do outro lado do mundo
distinto fuzo luso-aventureiro, brisa que vem do norte e saí do sul
Alísios e alívios ventos comuns
trazendo os barcos e as chuvas de março
há velhos galhos? Sim.
ha galhos magros? Claro.
Perdi, mais um vez, o contrapasso
Já não consigo saber o que difere a raiz, os vermes, as flores, os frutos
e os cupins
Sinto que o que as crianças talharam em mim mudou o rumo
A única coisa que aprendi é que há beleza em, quase, tudo
E que toda folha há de cair
Tenho a breve impressão de que já não acredito mais no calendário
Adquiri apreço pelo que é, e é organicamente sagrado.
E tenho burlado o cercado e conversado com o capim.
Quando era gente, encontrei-me como outra árvore, em sonho,
E me contei três segredos distinto em um idioma que eu mesmo inventei
Ligados por algo entre mudez o sussurro e o cansaço
Num rugido agudo de um estranho e conhecido passarin
Eu sou minhas raízes, minhas folhas, meus frutos?
Eu sou o talhar das crianças em mim?
Toda matéria prima é a mesma
Toda a água, toda a terra, todo barro
O vento que trouxe os barcos e caravelas é o mesmo que ergue minha bandeira
É o mesmo que beija as árvores
É o mesmo por onde se guiam os aviões
Os mesmo aviões que trouxeram o meu amor
Os mesmo que bombardearam outro amor
Toda matéria prima é a mesma
Mas o sol não é o mesmo
Não é a mesma a atmosfera
E logo mais não brotaram mais flores nem cupins do chão da terra
E logo em breve será outra a diversidade
No berço desta Gaia gravidade
Eu posso ser um mal fiel
Eu posso pecar e ser rei ou réu
Eu posso ser diabo, mesmo sendo deus
Mas não posso escapar do vento
Do que é, porque é e há de continuar sendo
Eu gostaria de experimentar
Uma filosofia vinda de alguma outra estrela noturna
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No calor dos meus poros,
No calor do nosso suor,
Na memória, você.
Será que a humanidade é o universo, dizendo o que pensa de si a si mesmo
Num idioma muito específico?
É rápido, e vai se digerindo com cada vez mais facilidade.
Nem tudo que é vivo chora.
Ninguém chorou pelos dinossauros.
Quem chorará por nós?
Onde mora a compaixão do universo? Sentir Construir Destruir
Paciência para cultivar-se
Quem chora por nós?
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Manifestantes tomaram as ruas da cidade, nesta sexta-feira, para protestar contra o corte no orçamento público do amor. Segundo eles, o novo projeto de lei pretende drenar o já escasso afeto coletivo e reduzir ainda mais o rarefeito cuidado.
As entidades responsáveis alegam que a máquina estatal não comporta a demanda de ternura em escala nacional.
Relatórios recentes mostram que o maquinário existente foi enferrujado pela pressa, rangendo de dor constantemente, e que há cada vez menos mão de obra especializada na calibragem de sentimentos.
Os técnicos afirmam que a falta de matéria-prima (conversas longas, silêncios gentis, laços e acasos) diminui drasticamente a vida útil dos produtos afetivos, aumenta a rotatividade do mercado e empurra o mundo para um colapso global no campo econômico-emocional.
Funcionários do setor declamam “falta pessoal capacitado para operações delicadas, como dizer ‘fica’ sem parecer súplica, ou ir sem ferir ninguém”.
O Ministério da Saúde alerta para uma epidemia de covardia.
Entre as pautas de reivindicação, o preço médio do amor é o item mais alarmante. Desde o último reajuste inflacionário, que privatizou o ócio e taxou a vida contemplativa, amar ficou caro demais. Em nota oficial, a defensoria alega que “não há estoque de horas nem de trovas para atender às demandas afetivas per capita”.
Diante disso, a Associação de Amadores e Amantes ameaça uma greve geral dos corações, uma paralisação cardíaca que seria fatal para o mercado e para os próprios manifestantes.
Enquanto isso, especialistas de boteco em raro consenso alertam “mais vale o afeto artesanal”.
O governo repete “não há licenciamento para tal”.
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O fel afia a lâmina fria rente a pele magra
A jugular saliva, sangria voz calada
Interna hemorragia da palavra votiva
Da cisão escorre a poesia
Verso a verso a gotejar histeria
Maestria cirúrgica, corte e costura
Ao compasso coagula a gula sutura
E o fio que cura é o mesmo que rasga
Fina lâmina da palavra
Quente frente a pele crua
Movimento incessante que remenda e machuca
A dissecar a conjectura
Até desfazer as vísceras
Para saborear
Deixe-me abrir mais uma poesia
No verbo latente que pulsa
Queima e purifica
Até na mais palpável doçura
Toda cura exige ferida.
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Acorda! Você dormiu de novo?
Fala sério, quem não está cansado?
Não me venha dizer que a modernidade produz esse cansaço
Ou que essa é a doença contemporânea.
Quantos livros você leu ano passado, hein?
Menos de 10? Que fraco…
Já se passaram duas décadas desde a última trégua!
E você aí… lendo poesia?
Fala Sério?
E vê se para de choramingar:
“Ah, produtividade gera o colapso…”
E você mesmo parado não para de colapsar!
Por que você não larga esse celular?
Você precisa ir à academia!
Precisa ler aquele livro!
Precisa ligar para sua mãe!
Sair mais com seus amigos!
Conversar mais com seus colegas!
Se liga! Se conecta!
Quando foi a ultima vez que viu o mar?
E o vestibular?
Tem que estudar 4 horas por dia!
Aliás, quantas línguas você fala?
Quantas palavras você digita por minuto?
Deve estar abaixo da média nacional...
Você sabe oque tá sendo votado na câmara dos deputados?
Já sabe em quem vai votar?
E você ainda não tem CNH? Que patético...
Precisa escrever um artigo!
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