Victória Bianca @SorrisoCianza

Amputaram meu jardim.

Arrancaram meu jardim. Quando vi, me perdi de mim. Ele não estava mais lá. Arrancaram meu jardim. Pronto, simples assim. Sem motivo, sem aviso, sem receio. Sem dó, sem maldade, sem piedade. As mãos inocentes de um jardineiro que só aprendeu a cortar. Inocente jardim que não aprendeu a dizer. As mãos calejadas de um pedreiro que só aprendeu a quebrar. Gentil veneno, a inocência não devasta menos, nem cega a faca que corta, nem cessa a ferida que sangra. Me dói, me dói por dentro, Como se eu fosse uma criança que perdera, subitamente, seu jardim. Meu coração largo, frágil, despedaçado inteiro, simples assim. Perdoai os homens, pois não lhes ensinaram a cultivar. Devastada terra, devastada eu, devastado lar. Como se de mim tivessem arrancado um dedo, uma costela, um familiar, um jardim. Sobrou o choro, destes, que não tem consolo. Nem culpa para justificar. Ele não está mais lá. E só restou o concreto: quente, cinza, seco, onde erá jardim. Mas a terra permanecerá, sozinha, fértil enfim E o tempo há de regar o solo, e fazer crescer outro jardim. O tempo há de estancar essa ferida em mim. Mas até lá , carregarei a falta como sobrenome. Até lá me faltará sempre um dedo, uma costela, um familiar, um jardim. Levarei uma esperança e choro calado de criança dentro de mim.

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