Quem, em sã consciência, tendo a escolha de ir ou ficar,
escolheria, por espontaneidade,
ficar?
Quem cometeria tamanho ato de loucura
e arriscaria chamar de amor?
Quem escolheria ficar
quando até mesmo eu,
sem escolhas,
tento fugir de mim?
Mas a minha sombra me segue
onde quer que eu vá.
Ai de mim
se eu pudesse escolher.
Se eu pudesse escolher,
eu me separaria de mim
antes mesmo do cordão umbilical.
Se eu pudesse,
eu me ignoraria.
Me apagaria das minhas próprias lembranças.
Viveria
e morreria
sem jamais saber
que fui.
O meu respirar me incomoda.
Minha companhia me aflige.
Mas você escolheu ficar aqui.
Aqui comigo.
Você escolheu a inconstância.
A mudança repentina
em ser
e deixar de ser
em questão de segundos.
Você fica.
Toda vez.
E escolhe
me amar.
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Eu sou fruto do seu corpo,
mas nunca fui do seu afeto.
Você me olha como se eu fosse a pedra
que estagnou o seu caminho,
como se eu tivesse chegado para arrancar de você
algo que você nunca teve.
Eu aprendi a existir em silêncio,
a pisar leve,
a respirar devagar,
para ver se você lembrava
que eu era sua filha.
Você diz que me ama com a voz doce,
e ao ouvir essas palavras, meu coração não se emociona,
e minha boca não forma as palavras de volta.
Porque segundos depois,
de agir como quem nunca feriu ninguém,
você me esmaga com a crueldade
de quem sabe exatamente onde dói.
Você ficava ali, presente,
a poucos metros de distância,
e ainda assim tão longe
que eu me sentia órfã com você sentada na mesma mesa.
Na nossa “casa”,
o amor tinha hora marcada para ir embora.
E quando você trazia o silêncio à mesa,
eu deixava de existir.
Eu me encolhia,
me curvava,
me apagava,
ficava tão pequena
a ponto de deixar de existir para mim mesma,
na esperança de merecer o som da sua voz outra vez.
Cresci sabendo o peso
de ser punida por existir
da forma que você determinou errada.
Você despedaçou as partes pequenas de mim
e logo em seguida sorria com amor novamente.
Hoje, mesmo tendo em mente que superei a sua influência em mim,
quando alguém levanta o tom,
ou se cala de repente,
meu corpo inteiro volta para aquela casa.
E eu me torno pequena, minúscula, inexistente.
Você me ensinou que lar não é refúgio,
é alerta.
Que mãe não é proteção,
é risco.
Para o mundo afora, você diz que eu sou o orgulho que você tem.
Mas diante do espelho, eu ainda escuto a sua voz antes da minha.
E ela diz que eu fracassei,
que eu não sou suficiente,
que eu estraguei tudo,
que eu decepciono até a mim mesma.
As suas palavras viraram a minha opinião sobre quem eu sou.
Ninguém imagina
que o que você fez de mim
foi sobrevivente, não filha.
E o que rasga,
o que corta,
o que mata todos os dias,
é que, mesmo sabendo de tudo isso,
uma parte minha ainda te ama, sem condições e limitações, como as que você impôs a mim.
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Quando você estava prestes a partir,
temi que levasse, junto de ti, o pouco que restava de mim.
Quando você finalmente partiu, minha concepção era outra: senti que poderia ter feito muitas coisas.
Poderia ter gritado.
Poderia ter rasgado o céu com perguntas,
feito escândalo diante do divino,
esperneado como criança privada de colo e amor paterno.
Podia ter feito de você um altar de ódio,
cultuado todos os seus defeitos e questionado se, em algum momento, houve qualidades.
Poderia ter maldito a vida, ter me entregado ao vazio, me tornado ateia do amor.
Podia ter transformado sua partida em tempestade e me feito de vítima em uma embarcação frágil.
Mas não o fiz.
Não porque não doeu.
Doía. Doía como a ausência de um dente arrancado, mas, dessa vez, a dor é maior, porque a fada dos dentes não passa mais de um conto de fadas.
Assim foi o seu "amor" por mim.
Doía como a falta de algo que se perdeu e não se sabe, ao certo, o quê.
E descobri, assim, que dói no peito a dor da perda do que nunca se teve.
Cada ausência sua latejava em mim.
Sua vinda, sua ida, sua dúvida,
seu ir embora sem nunca ter realmente vindo.
Você me aconteceu como traição:
um beijo de Judas no rosto da minha esperança.
Seu amor nunca foi paixão,
foi desejo. Só isso.
Desejo de ter algo quando não se tem nada.
E eu também desejei você
na minha própria ausência.
Talvez por isso você tenha me possuído mais do que eu mesma.
Talvez por isso eu tenha ficado indizível.
Sem palavra pra mim.
Sem palavra pra dor.
Eu era abstrata.
Mas, com você, eu fui mais do que isso.
Fui vazio com nome.
Fui quase.
Fui sombra do que imaginei que poderia ser.
E o medo?
O medo de que você levasse o que não era seu,
mas também nunca foi meu,
esse medo me devorou por dias, porque quem nunca se teve
teme que o pouco que resta seja levado sem volta.
Eu quase fui algo perto de você,
mas você era ausência de si
e eu, de mim.
E não há como dois vazios se preencherem.
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Durmo com o medo de morrer.
Acordo com o medo de viver.
Levanto, com o medo de tropeçar.
Calço os sapatos, com o medo de onde podem me levar.
Abro a porta, com o medo do que há além dela.
Saio à rua, com o medo da sombra que me atropela.
Ando com medo do sol me queimar,
Falo com medo de ninguém escutar.
Fico em silêncio com medo da solidão,
Mas temo ainda mais o vazio no meu coração.
Respiro com medo do ar que respiro,
Corro com medo do tempo perdido.
Fecho os olhos com medo do escuro,
E temo, no fim, o peso do instante futuro.
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Temo que nunca sairei da mediocridade.
Cresci na invisibilidade, onde a grandiosidade nunca soube meu nome.
Deixo as oportunidades passarem,
porque o medo do destaque me corrói por dentro,
como um peso que me impede de respirar.
Fico no canto das paredes,
onde minha alma sussurra em silêncio,
e poucos ouvidos são sensíveis o suficiente para escutar.
Mas como se ensina a quem nunca foi vista
que ser vista importa,
que ser vista é a chave para ser mais do que sou agora?
E se eu não quiser mudar?
E se esta mediocridade, que me envolve,
já for um peso tão grande
que eu não saiba mais viver sem ela?
Sinto o desejo de ser grande,
mas ele arde como uma chama
que me queima e me assusta ao mesmo tempo.
Porque, ao mesmo tempo que quero ser mais,
há um medo terrível de perder a segurança
da única certeza do que sou: pequena.
É como se ser grande fosse uma prisão,
uma grandeza que me esmagaria.
E então me pergunto:
seria eu capaz de carregar um peso maior que o da mediocridade?
Ou, mais ainda: seria eu capaz de ser grande
sem me perder de mim mesma?
Talvez o peso de ser apenas boa o suficiente
já seja um fardo insuportável
que me esmaga na sombra.
E me faz querer continuar aqui, sendo o que sou:
pequena,
como uma farpa cravada no dedo de um gigante.
A grandiosidade me assusta,
mas o que mais me aterroriza
é a dúvida cruel:
se eu tentasse ser grande,
quão pequena ainda pareceria minha mudança?
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Talvez em outra vida
eu tenha me apaixonado por você no segundo olhar.
Talvez em outra vida
eu não tivesse sido tão indiferente aos seus sinais.
Talvez em outra vida
você tenha pensado duas vezes antes de partir.
Talvez em outra vida
tenha sido fácil me amar.
Talvez em outra vida
eu tenha aprendido a te manter por perto,
tenha me perdido menos no seu sorriso,
tenha me entregado menos ao incerto.
Talvez em outra vida
eu tenha guardado melhor meu coração.
Talvez em outro tempo,
em outra estação,
se tivéssemos seguido outra direção,
se houvesse menos desencontro,
menos hesitação.
Eu deveria ter te dado meu coração?
Talvez em outra vida
não houvesse contradição,
apenas certeza, sem suposição.
Talvez você tenha me amado sem limitação.
Talvez em outra vida
eu tenha escutado pela última vez nossa música tocar,
tenha sentido meu peito vibrar,
tenha dançado contigo até o fim,
até que o adeus coubesse em um passo,
até que a despedida se esquecesse de seu fim.
Mas nesta vida,
deixo você ir.
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É como se eu me lançasse de um arranha-céu, nua,
Sem o luxo do paraquedas, que seria um privilégio para a minha realidade.
Meus pulmões estouram em cada tentativa de ar,
E a força do vento me golpeia, me desafia, me atravessa.
Suspensa no vazio, paralisada, sem tato, sem voz, sem visão. Me sinto completamente sufocada.
Quase muda, porque nunca encontrei a minha própria voz.
Tentei gritar, muitas vezes, com toda a força que me restava,
Mas o fôlego me faltava, e a queda era mais forte.
Minha laringe, traidora, só produziu sussurros,
Que nem o ouvido mais ávido poderia ouvir,
Pelo menos não os meus, que são quase surdos.
Porque, mesmo que eu gritasse, sei que seria a primeira a me ignorar.
Talvez minha voz tenha partido sem que eu percebesse.
Minha vida inteira foi assim:
Uma sucessão de gritos abafados, de lágrimas que nunca notei.
Enquanto pássaros voam ao meu redor,
Me pergunto se cantam alguma melodia,
Será "Lacrimosa" de Mozart, a trilha sonora do meu fim?
Talvez, em seu voo, eles cantem a dor do meu declínio,
Mas, em verdade, nunca aprendi a ouvir minha própria música.
Nunca soube apreciar o som da queda que sou.
E, entre a incerteza sobre o que cantam os pássaros,
A única certeza é que eles têm asas.
Eu, talvez, também as tivesse,
Se soubesse como usá-las, se soubesse como voar.
Quase cega, durante minha queda, não pude ver a beleza do céu,
Mesmo que ele brilhasse, radiante, diante de mim.
Minha visão sempre foi embaçada, limitada,
E, diante do espelho, nunca vi nada além de vazio.
Havia alguma grandeza em mim?
Eu procurava, mas encontrava apenas o vazio,
Aquele vazio que sempre me assombrou.
E, ao pensar racionalmente, talvez o impacto nunca aconteça,
Talvez, quando meu corpo tocar o solo,
Ele se despedaçe sem deixar vestígios,
Porque, no fim, cheia de vazio,
Nunca fui algo,
Sempre fui nada.
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Tenho passado tanto tempo a pensar em nós
no que poderíamos ter sido,
no que não fomos,
nas palavras que ficaram presas na garganta,
nas mensagens que nunca partiram,
nas que morreram sem resposta.
Penso todos os dias.
No teu silêncio.
Na forma como foste,
sem aviso, sem vestígios,
como quem nunca esteve.
E nessa ida e vinda,
Pude perceber que eu prefiro o barulho da presença
ao silêncio cortante da falta.
Prefiro a dor do que existe
à ilusão do que nunca foi.
Eu te amei, como te amei.
Com tudo o que sobrou de mim.
E o amor veio sem esforço,
mas, tu nunca refletiste de volta o que eu via.
Parecia que cada minuto ao meu lado
era um fardo nos teus ombros.
Fui eu apenas um desejo fugaz?
Fui eu só um reflexo do teu vazio?
Tiveste algum instante de ternura ao pensar em mim?
Sentiste minha falta nos dias em que me calei?
Ou apenas seguiste, sem olhar para trás,
como se eu nunca tivesse existido?
Não me deixes assim tão fácil.
Eu já sou ausência em mim mesma.
Não me tornes ainda mais esquecida.
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Tenho caminhado ao lado de uma angústia dilacerante,
e por ela, já morri incontáveis vezes.
Carrego comigo as dores das vidas que me foram dadas e arrancadas,
e me pergunto sobre o peso de tudo isso,
quão profundo é um corte que nunca se fecha?
Quão avassaladora é a dor de quem nunca conheceu o amor?
Tentei amar, mas não fui amada.
Tentei ser indiferente, mas sempre me importei demais.
Tentei fugir, mas o longe sempre esteve perto demais de mim.
Tentei tudo.
Tudo para entender essa urgência de ter um rumo,
de ser alguém que quer algo,
de desejar o que os outros desejam.
Mas e se eu não quiser?
Se o vazio não me assombrar?
Se minha vida não couber nos moldes dos planos alheios?
Porque, nesse momento, eu não sou e nem quero nada.
Neste quarto, eu não sou nada.
Nenhuma lembrança de mim se faz presente.
O mundo tem gritado tão alto que, com frequência, se confunde com o ruído na minha cabeça.
Quase chamei isso de silêncio.
Quase chamei isso de paz.
A graça de ser eu sempre esteve refletida nas pegadas
esquecidas de algo que talvez nunca tenha existido.
Mas o que resta para quem já não tem ambições?
Quero respirar, mas o ar não me encontra.
O que chega aos meus pulmões
é o sufocar das palavras que nunca disse,
das palavras de um idioma que nunca aprendi por completo.
Desse idioma, tirei como fluente apenas a saudade que sinto de mim,
a saudade de não me lembrar do peso do que fui
ou do que nunca serei.
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Qual o sentido da vida para quem já não ama?
Para quem os olhos se tornaram opacos diante da despedida do sol, sem mais perceber a delicadeza dessa queda lenta?
Para quem o beija-flor, antes admirável, agora é só um movimento sem graça, sem mais deslumbramento no voo ou na flor?
Qual o sentido da vida quando a língua, que carrega a saudade tão viva, já não consegue articular o que pulsa por dentro, pedindo socorro para ser libertado?
Há palavras no mundo, sim, tantas palavras. Criadas para dar nome ao que sentimos, ao que vemos, ao que nem entendemos.
Meu nome, por exemplo, que denomina a mim uma identidade da qual nem conheço.
Mas, no fundo, nenhuma palavra basta. Nenhuma traduz o que a vida passa a ser quando o sentido se desfaz. Tudo vai ficando pelo caminho, silencioso, como algo que não se sabe se perdeu ou se nunca esteve ali.
O que resta para quem já não encontra beleza nas pequenas coisas?
Talvez a vida, antes plena de sentido em cada detalhe, agora seja uma estrada de memórias não sentidas, de dias que passam sem deixar vestígios. E as palavras, essas, se perdem no caminho, incapazes de nos salvar do que não sabemos mais ver.
Porque, no fundo, a falta de sentido não é uma ausência do mundo, mas uma ausência de si, uma desconexão tão funda que já não se sabe onde começa a dor ou termina o esquecimento.
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