Bean @MangBean
Amor

Quase algo

Quando você estava prestes a partir, temi que levasse, junto de ti, o pouco que restava de mim. Quando você finalmente partiu, minha concepção era outra: senti que poderia ter feito muitas coisas. Poderia ter gritado. Poderia ter rasgado o céu com perguntas, feito escândalo diante do divino, esperneado como criança privada de colo e amor paterno. Podia ter feito de você um altar de ódio, cultuado todos os seus defeitos e questionado se, em algum momento, houve qualidades. Poderia ter maldito a vida, ter me entregado ao vazio, me tornado ateia do amor. Podia ter transformado sua partida em tempestade e me feito de vítima em uma embarcação frágil. Mas não o fiz. Não porque não doeu. Doía. Doía como a ausência de um dente arrancado, mas, dessa vez, a dor é maior, porque a fada dos dentes não passa mais de um conto de fadas. Assim foi o seu "amor" por mim. Doía como a falta de algo que se perdeu e não se sabe, ao certo, o quê. E descobri, assim, que dói no peito a dor da perda do que nunca se teve. Cada ausência sua latejava em mim. Sua vinda, sua ida, sua dúvida, seu ir embora sem nunca ter realmente vindo. Você me aconteceu como traição: um beijo de Judas no rosto da minha esperança. Seu amor nunca foi paixão, foi desejo. Só isso. Desejo de ter algo quando não se tem nada. E eu também desejei você na minha própria ausência. Talvez por isso você tenha me possuído mais do que eu mesma. Talvez por isso eu tenha ficado indizível. Sem palavra pra mim. Sem palavra pra dor. Eu era abstrata. Mas, com você, eu fui mais do que isso. Fui vazio com nome. Fui quase. Fui sombra do que imaginei que poderia ser. E o medo? O medo de que você levasse o que não era seu, mas também nunca foi meu, esse medo me devorou por dias, porque quem nunca se teve teme que o pouco que resta seja levado sem volta. Eu quase fui algo perto de você, mas você era ausência de si e eu, de mim. E não há como dois vazios se preencherem.

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