Querida mãe
Eu sou fruto do seu corpo, mas nunca fui do seu afeto. Você me olha como se eu fosse a pedra que estagnou o seu caminho, como se eu tivesse chegado para arrancar de você algo que você nunca teve. Eu aprendi a existir em silêncio, a pisar leve, a respirar devagar, para ver se você lembrava que eu era sua filha. Você diz que me ama com a voz doce, e ao ouvir essas palavras, meu coração não se emociona, e minha boca não forma as palavras de volta. Porque segundos depois, de agir como quem nunca feriu ninguém, você me esmaga com a crueldade de quem sabe exatamente onde dói. Você ficava ali, presente, a poucos metros de distância, e ainda assim tão longe que eu me sentia órfã com você sentada na mesma mesa. Na nossa “casa”, o amor tinha hora marcada para ir embora. E quando você trazia o silêncio à mesa, eu deixava de existir. Eu me encolhia, me curvava, me apagava, ficava tão pequena a ponto de deixar de existir para mim mesma, na esperança de merecer o som da sua voz outra vez. Cresci sabendo o peso de ser punida por existir da forma que você determinou errada. Você despedaçou as partes pequenas de mim e logo em seguida sorria com amor novamente. Hoje, mesmo tendo em mente que superei a sua influência em mim, quando alguém levanta o tom, ou se cala de repente, meu corpo inteiro volta para aquela casa. E eu me torno pequena, minúscula, inexistente. Você me ensinou que lar não é refúgio, é alerta. Que mãe não é proteção, é risco. Para o mundo afora, você diz que eu sou o orgulho que você tem. Mas diante do espelho, eu ainda escuto a sua voz antes da minha. E ela diz que eu fracassei, que eu não sou suficiente, que eu estraguei tudo, que eu decepciono até a mim mesma. As suas palavras viraram a minha opinião sobre quem eu sou. Ninguém imagina que o que você fez de mim foi sobrevivente, não filha. E o que rasga, o que corta, o que mata todos os dias, é que, mesmo sabendo de tudo isso, uma parte minha ainda te ama, sem condições e limitações, como as que você impôs a mim.
𝕂𝕒𝕦ê 𝔻𝕦𝕒𝕣𝕥𝕖
É intenso, tem peso nas palavras, embarga até pensamentos. 😢