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𝕂𝕒𝕦ê 𝔻𝕦𝕒𝕣𝕥𝕖

@Kaue_duarte · desde 2020

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Presente e só

No que consiste existir? Se o sol sempre se vai. As folhas caem e o vento leva; Onde estão meus passos no chão? Por que me resta insistir? Se chora a chuva que cai. As ondas quem batem me carregam; Onde está minha direção? Há de me caber tanta pergunta Em uma vida presente e só As respostas estão espalhadas Em estantes, por instantes cheias de pó.

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Auto-estima

Humanamente

Minha falha ocupa um lugar E o esquenta sem titubear Adere com convicção Em "carteiradas" de opressão. ​E eu perco autoridade Principalmente sobre mim Pois sou errante e ocupante Deste barco até o fim. Não dissipo fácil meu silêncio Ele me corta a pele E sem direito à ausência A angústia não me repele. ​Feito alguém que me ama E não me deixa em paz Mesmo eu não a querendo Ela não se desfaz.

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Amor

Jogo de folhas

Bem me quer Mal me quer Como quem joga com o amor Numa esquina qualquer. ​Bem me quis Em um dia feliz E logo não me olhou E ficou por um triz. ​Esse laço bonito, Perdido no vento, Transformou o infinito Em mero momento. ​Bem te quero, afinal, Mesmo em meio à desfeita, Pois a dor do final É também imperfeita.

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Sapatos e pessoas

Sapatos e pessoas Por vezes não nos cabem Se persistimos, nos apertam os calos E nos deixam marcas que nem sabem. Gasto sola, perco o passo e o tempo, Tentando forçar um encaixe sem graça, Mas quanto mais aceito esse aperto, Menos de mim pelo caminho passa. É preciso coragem pra descalçar O que só nos calça com dor, E aceitar que nem todo tamanho Serve pra abrigar o nosso amor. Pois andar leve pela vida Custa menos do que a ilusão: Sapatos trocam-se nas prateleiras, E a alma exige espaço no coração.

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Auto-estima

Contenção

A fraqueza, mostrou-me a força Não a de não cair, mas a de suportar até o fim, a de ficar e não sair. Que a dor é invisível. A lágrima é torrente. A palavra, indizível. E o sonho impaciente. A calma se perde na pressa O medo se esconde no escuro O ato, que quando começa, termina estatelado no muro. A contenção é de alma A intenção é divina Enquanto tudo definha, eu rezo mantendo a calma. E a rima.

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Amor

O teu contorno

Quando o amor era novo, era um vidro sem trinca, uma folha sem mancha, uma cor que não desbota. ​Aí veio o tempo, com seu sapato pesado, tropeçando na pedra da nossa dor cega. E os teus passos tortos, tuas manias antigas, teu jeito teimoso de fechar as portas, foram me tirando a paciência, foram me tirando do tom. ​Quantas vezes achei que o nó da garganta era o fim da estrada? Quantas vezes o teu barulho pareceu um abismo entre nós? ​Mas o tempo, esse mesmo que amassa o papel, ensinou a pousar o olhar. Aprendi a calar no teu susto, a desviar do teu espinho sem soltar a tua mão. ​Superar não foi apagar o defeito. Foi olhar para a tua imperfeição e ver nela o teu contorno. ​E hoje, no silêncio comprido da casa, quando você não está, a paz é uma coisa fria. A casa fica certinha demais, muda demais, sem vida. ​E me pego querendo aquela tua mania que me enlouquecia. A bagunça da tua pressa, o teu teimar sem razão, o rastro do teu caos no meu dia. ​Descobri, meu amor, que até as tuas falhas eram a música do nosso ninho. E que a saudade mais doída não é da tua perfeição fictícia, mas de cada detalhe teu que antes me tirava do sério e hoje me faz tanta falta.

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Auto-estima

Vassalo do abismo

Cometi o infortúnio da entrega A auto-calúnia declarada Em que em tudo, tudo emprega Por resultado não retém nada ​Um bobo sem corte à sua frente Um servo de senhor imposto Um corte onde a mágoa é vertente Onde o sabor provém de desgosto ​Ajoelho-me diante do ruído De um trono feito de fumaça, Guardando no peito o ferido, Que em silêncio se despedaça. ​Fiz da promessa o meu algoz, Do próprio peito, a prisão; E no eco sufocado da voz, Sobra apenas a desolação.

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Amor

Remanescer

Eu não me via sem você E hoje, só sei me querer Porque quando escolhemos ir Devemos permanecer. Em mim, naquilo que restou, No chão que a queda não quebrou. O amor que outrora era partilha Virou farol, virou minha ilha. Se o teu adeus me fez chorar, O recomeço ensina a andar. Pois ir embora é decidir Que o melhor passo é evoluir. E nessa curva do caminho, Descobri a paz de estar sozinho. Não por orgulho ou desamor, Mas por curar a minha dor. Eu me jurei cumplicidade, Viver a minha própria verdade. E hoje, ao olhar para trás, Ficar comigo me traz paz.

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Rascunho de outono

Por hora Aceitei sua infame proposta Largando o amor lá fora Como inútil resposta Mesmo sabendo do engano Correndo também o risco Nessa vida passo um pano Essa história eu rabisco E no avesso do que sinto Finjo não ver o estrago Sei que caio, mas persisto No amargor do que eu trago Amanhã limpo a calçada E recolho o que sobrou Dessa escolha mal pensada Do que a gente desandou

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