No que consiste existir?
Se o sol sempre se vai.
As folhas caem e o vento leva;
Onde estão meus passos no chão?
Por que me resta insistir?
Se chora a chuva que cai.
As ondas quem batem me carregam;
Onde está minha direção?
Há de me caber tanta pergunta
Em uma vida presente e só
As respostas estão espalhadas
Em estantes, por instantes
cheias de pó.
Continuar lendo
Minha falha ocupa um lugar
E o esquenta sem titubear
Adere com convicção
Em "carteiradas" de opressão.
E eu perco autoridade
Principalmente sobre mim
Pois sou errante e ocupante
Deste barco até o fim.
Não dissipo fácil meu silêncio
Ele me corta a pele
E sem direito à ausência
A angústia não me repele.
Feito alguém que me ama
E não me deixa em paz
Mesmo eu não a querendo
Ela não se desfaz.
Continuar lendo
Bem me quer
Mal me quer
Como quem joga com o amor
Numa esquina qualquer.
Bem me quis
Em um dia feliz
E logo não me olhou
E ficou por um triz.
Esse laço bonito,
Perdido no vento,
Transformou o infinito
Em mero momento.
Bem te quero, afinal,
Mesmo em meio à desfeita,
Pois a dor do final
É também imperfeita.
Continuar lendo
Sapatos e pessoas
Por vezes não nos cabem
Se persistimos, nos apertam os calos
E nos deixam marcas que nem sabem.
Gasto sola, perco o passo e o tempo,
Tentando forçar um encaixe sem graça,
Mas quanto mais aceito esse aperto,
Menos de mim pelo caminho passa.
É preciso coragem pra descalçar
O que só nos calça com dor,
E aceitar que nem todo tamanho
Serve pra abrigar o nosso amor.
Pois andar leve pela vida
Custa menos do que a ilusão:
Sapatos trocam-se nas prateleiras,
E a alma exige espaço no coração.
Continuar lendo
A fraqueza, mostrou-me a força
Não a de não cair,
mas a de suportar até o fim,
a de ficar e não sair.
Que a dor é invisível.
A lágrima é torrente.
A palavra, indizível.
E o sonho impaciente.
A calma se perde na pressa
O medo se esconde no escuro
O ato, que quando começa,
termina estatelado no muro.
A contenção é de alma
A intenção é divina
Enquanto tudo definha,
eu rezo mantendo a calma.
E a rima.
Continuar lendo
Quando o amor era novo,
era um vidro sem trinca,
uma folha sem mancha,
uma cor que não desbota.
Aí veio o tempo,
com seu sapato pesado,
tropeçando na pedra
da nossa dor cega.
E os teus passos tortos,
tuas manias antigas,
teu jeito teimoso de fechar as portas,
foram me tirando a paciência,
foram me tirando do tom.
Quantas vezes achei
que o nó da garganta
era o fim da estrada?
Quantas vezes o teu barulho
pareceu um abismo entre nós?
Mas o tempo, esse mesmo
que amassa o papel,
ensinou a pousar o olhar.
Aprendi a calar no teu susto,
a desviar do teu espinho
sem soltar a tua mão.
Superar não foi apagar o defeito.
Foi olhar para a tua imperfeição
e ver nela o teu contorno.
E hoje,
no silêncio comprido da casa,
quando você não está,
a paz é uma coisa fria.
A casa fica certinha demais,
muda demais, sem vida.
E me pego querendo
aquela tua mania que me enlouquecia.
A bagunça da tua pressa,
o teu teimar sem razão,
o rastro do teu caos no meu dia.
Descobri, meu amor,
que até as tuas falhas
eram a música do nosso ninho.
E que a saudade mais doída
não é da tua perfeição fictícia,
mas de cada detalhe teu
que antes me tirava do sério
e hoje me faz tanta falta.
Continuar lendo
Cometi o infortúnio da entrega
A auto-calúnia declarada
Em que em tudo, tudo emprega
Por resultado não retém nada
Um bobo sem corte à sua frente
Um servo de senhor imposto
Um corte onde a mágoa é vertente
Onde o sabor provém de desgosto
Ajoelho-me diante do ruído
De um trono feito de fumaça,
Guardando no peito o ferido,
Que em silêncio se despedaça.
Fiz da promessa o meu algoz,
Do próprio peito, a prisão;
E no eco sufocado da voz,
Sobra apenas a desolação.
Continuar lendo
Eu nunca me cansei de amar...
Mas porque sozinho?
Eu não me via sem você
E hoje, só sei me querer
Porque quando escolhemos ir
Devemos permanecer.
Em mim, naquilo que restou,
No chão que a queda não quebrou.
O amor que outrora era partilha
Virou farol, virou minha ilha.
Se o teu adeus me fez chorar,
O recomeço ensina a andar.
Pois ir embora é decidir
Que o melhor passo é evoluir.
E nessa curva do caminho,
Descobri a paz de estar sozinho.
Não por orgulho ou desamor,
Mas por curar a minha dor.
Eu me jurei cumplicidade,
Viver a minha própria verdade.
E hoje, ao olhar para trás,
Ficar comigo me traz paz.
Continuar lendo
Por hora
Aceitei sua infame proposta
Largando o amor lá fora
Como inútil resposta
Mesmo sabendo do engano
Correndo também o risco
Nessa vida passo um pano
Essa história eu rabisco
E no avesso do que sinto
Finjo não ver o estrago
Sei que caio, mas persisto
No amargor do que eu trago
Amanhã limpo a calçada
E recolho o que sobrou
Dessa escolha mal pensada
Do que a gente desandou
Continuar lendo