Bean @MangBean
Vida

O vazio sem forma

É como se eu me lançasse de um arranha-céu, nua, Sem o luxo do paraquedas, que seria um privilégio para a minha realidade. Meus pulmões estouram em cada tentativa de ar, E a força do vento me golpeia, me desafia, me atravessa. Suspensa no vazio, paralisada, sem tato, sem voz, sem visão. Me sinto completamente sufocada. Quase muda, porque nunca encontrei a minha própria voz. Tentei gritar, muitas vezes, com toda a força que me restava, Mas o fôlego me faltava, e a queda era mais forte. Minha laringe, traidora, só produziu sussurros, Que nem o ouvido mais ávido poderia ouvir, Pelo menos não os meus, que são quase surdos. Porque, mesmo que eu gritasse, sei que seria a primeira a me ignorar. Talvez minha voz tenha partido sem que eu percebesse. Minha vida inteira foi assim: Uma sucessão de gritos abafados, de lágrimas que nunca notei. Enquanto pássaros voam ao meu redor, Me pergunto se cantam alguma melodia, Será "Lacrimosa" de Mozart, a trilha sonora do meu fim? Talvez, em seu voo, eles cantem a dor do meu declínio, Mas, em verdade, nunca aprendi a ouvir minha própria música. Nunca soube apreciar o som da queda que sou. E, entre a incerteza sobre o que cantam os pássaros, A única certeza é que eles têm asas. Eu, talvez, também as tivesse, Se soubesse como usá-las, se soubesse como voar. Quase cega, durante minha queda, não pude ver a beleza do céu, Mesmo que ele brilhasse, radiante, diante de mim. Minha visão sempre foi embaçada, limitada, E, diante do espelho, nunca vi nada além de vazio. Havia alguma grandeza em mim? Eu procurava, mas encontrava apenas o vazio, Aquele vazio que sempre me assombrou. E, ao pensar racionalmente, talvez o impacto nunca aconteça, Talvez, quando meu corpo tocar o solo, Ele se despedaçe sem deixar vestígios, Porque, no fim, cheia de vazio, Nunca fui algo, Sempre fui nada.

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