Foto de Roberto Paixão

Roberto Paixão

@rohpaixao · desde 2023

@rohpaixão

168 poemas 39 seguidores 54 seguindo

Seguir

INDERROTÁVEL TEMPO

O tempo é inderrotável. Não se curva ao choro, Nem recua diante do grito. Ele caminha, Sereno como a maré Que beija as areias de Panaquatira E retorna ao seu destino. O tempo não pede licença. Entra pelas frestas da memória, Folheia retratos antigos, Sopra nomes que já foram abraço Amores antigos Que hoje são apenas eco. Ele viu meninos correndo Pelas ruas de chão batido, Ouviu risos na beira-mar, Sentiu o cheiro da chuva Caindo sobre os quintais Onde o mundo era pequeno E cabia inteiro no coração. Inderrotável, O tempo transforma sol em crepúsculo, Força em cansaço, Paixão em lembrança. Mas também faz do sofrimento Semente. E da espera, Sabedoria. Se não podemos vencê-lo, Podemos vivê-lo. Porque o tempo passa Mas o que é vivido com verdade Permanece na eternidade. Roberto Paixão São José de Ribamar MA

Continuar lendo

ENTRE POEMAS E SUSSURROS

Era noite de setembro. A lua, em brilho tímido, espiava por entre nuvens como quem respeita segredos. As estrelas, inquietas, festejavam o encontro do inspirador com a própria inspiração. Na cidade, versos ecoavam. Um festival de literatura pulsava em palcos iluminados, vozes declamavam palavras impressas, livros se abriam em aplausos. Mas o poeta fechou a agenda da noite, abandonou holofotes e estrofes públicas: preferiu atender ao chamado que vinha do sal, do vento e de um canto que não cabia em papel. Seguiu ao porto que aponta para o mar de maré cheia, onde o cais range histórias antigas e a água respira fundo. Ali, o tempo ancorou. A noite se inclinou para ouvir melhor. Ela surgiu como onda mansa, olhos de ressaca, pele com cheiro de lua molhada. Sereia sem escamas visíveis, mas com um abismo doce na voz. Ele, poeta de mãos inquietas, trazia no peito poemas inacabados e nos lábios uma fome antiga. O abraço foi lento, como quem aprende o corpo do outro em silêncio. O beijo, salgado e quente, misturou respiração e desejo, apagou fronteiras, fez da boca um cais. As palavras perderam importância. Os versos passaram a ser escritos na pele, no arrepio, no toque que demorava mais do que devia. O mar subia cúmplice, o vento rondava curioso, e a lua, já menos tímida, aceitou assistir. Na entrega dos corpos, houve mais que paixão: houve rito, houve consagração. A consumação do amor não pediu testemunhas nem aplausos. Foi profunda como o oceano à noite, intensa como poema que não se lê, apenas se sente. Enquanto a cidade celebrava livros, o poeta descobria, nos braços da sereia, que a mais viva literatura nasce entre corpos, entre desejos, entre poemas e sussurros que só o mar sabe guardar. Roberto Paixão São José de Ribamar Maranhão

Continuar lendo
Poema

CORAÇÃO AO MAR

No casco gasto pelo sal do tempo, Navego a Baía de Guaxenduba. A proa aponta pra fé antiga, Onde São José me ensina a remar. Da popa sigo em lembranças, Entre bombordo e boreste, eu vou No convés carrego histórias do povo Que o vento do cais contou. O leme é firme como promessa, No timão, a mão do pescador O motor é a luta diária, A hélice, o sonho sonhador. Na linha d’água mora a esperança, Entre a maré cheia e o viver calado Com a quilha fincada na tradição, Aprendi o rumo pra não me perder. Se o mar aperta, lanço a âncora E amarro a fé na oração, Porque quem nasce à beira d’água Carrega o mar no coração. E assim segue a embarcação, Entre o cais, a rede e o luar; Bendita seja a travessia De quem navega em São José de Ribamar. Roberto Paixão São José de Ribamar MA

Continuar lendo

VISGADO ENTRE DOIS AMORES

Com o rosto cansado, queimado de sol, tirou o chapéu de palha, olhou pro céu e agradeceu por seus amores. Amores, sim. Um fincado na terra, outro chamando do mar. Um é razão que espera, o outro é paixão que puxa, que arrasta, que lhe faz ir pescar. Porque é no balanço das águas que ele se encontra e se perde. Vive dividido entre dois chamados, o amor da terra e o amor do mar, e é nessa divisão, nessa eterna partida sem despedida, que mora a razão do seu viver. Roberto Paixão Pescador de Emoções São José de Ribamar MA

Continuar lendo

AS POCINHAS DA PRAIA DE BANHO DE SÃO JOSÉ DE RIBAMAR

Houve um tempo em que o mar avisava a vida. Bastava a maré baixar para que as canoas surgissem na linha do horizonte, vindo da baía de São José, carregadas de peixes-pedra. Vinham em cambadas, amarrados com as fibras das folhas de tucum, do jeito que a tradição ensinou e o tempo respeitou. Antes mesmo de encostarem na areia do canal que leva ao Vieira, a praia de banho já estava em vigília: gente esperando peixe, história e notícia. As velas, marrons tinturadas da casca do mangue, balançavam cansadas, como quem também havia pescado. Ao descerem das canoas, os pescadores não iam direto para casa nem para a venda. O corpo pedia outro ritual. Seguiam para as pocinhas espalhadas pela praia, pequenos olhos d'água, reservas de água doce que o chão guardava como segredo. Ali, tiravam o sal do corpo. O ardor da pele encontrava alívio, e a sede, essa companheira silenciosa do homem do mar, era saciada em goles contidos, quase respeitosos. Não era só água. Era agradecimento. As pocinhas eram pausa, bênção miúda, descanso permitido. Naquele instante, o mar ficava para trás. O bravo ficava distante. As pocinhas devolviam forças, alinhavam o fôlego, endireitavam o pensamento. Era como se dissessem: “Vai, que ainda há muito mar pela frente e emoções a pescar”. Hoje, talvez poucos percebam essas pequenas águas na areia. Mas elas continuam ali, guardando a memória dos que viveram do remo, da vela e da fé. As pocinhas da praia de banho não eram apenas poças doces como a infância: eram o intervalo sagrado entre o homem e o mar. Roberto Paixão Crônica. Pescador de Emoções ...nas rimas dos ventos 2014 São José de Ribamar MA

Continuar lendo

BORA DAR UM PIQUE?

Na lentidão da infância, a gente passava os dias correndo, sem relógio, sem pressa, só o corpo obedecendo à vontade. Do Cruzeiro, onde eu morava, até a praia de banho, era um pique, destino nenhum cansava. Tinha torneio no campo do Moropóia, e lá íamos no pique, com o coração chegando antes do corpo. Fim de semana era promessa cumprida: banho no Rio Tabatinga, no Cururuca, um pique só, água, riso e liberdade. A saída da escola virava corrida, porque a vida começava ali. As brincadeiras tinham fôlego e poeira: rouba-bandeira, preto fugido, grito solto, joelho ralado e alegria sem nome. Descíamos as ladeiras do Moropóia rolando em pneu, de patinete, desafiando o medo e subindo de volta correndo, só pra não perder a emoção. E foi assim: na lentidão da infância, a gente passou correndo por dentro do tempo. Hoje, na corrida apressada da vida, somos lentos. Presos. Parados diante da luz fria das telas dos celulares, correndo… sem sair do lugar. Roberto Paixão São José de Ribamar MA

Continuar lendo

SIMPLES ASSIM

Afeiçoei-me a ti. Simplicidade em um único ser. Olhos que acendem o que em mim dormia. Teu cabelo me chama, embaralha e me prende. Tua pele é abrigo, em um toque me acalma. Quando ris, o mundo desacelera. Em ti, descanso. Em ti, fico. É doce te amar, pérola rara, brilhando quieta sob o luar. Roberto Paixão São José de Ribamar MA

Continuar lendo

QUANDO A SAUDADE CHEGA

O que fazer com a saudade quando ela chega sem avisar? Não dá pra fechar as portas, nem correr pra se distanciar. A saudade machuca, mas suaviza com as lembranças… É visita que vem devagar, senta no canto do peito e começa a conversar. Traz cheiros, vozes, abraços que o tempo não conseguiu apagar. E mesmo quando dói, ela ensina a valorizar aquilo que um dia nos fez sorrir e que ainda insiste em iluminar os corredores silenciosos da nossa memória. Saudade não some, se acomoda. Adormece e, num simples movimento, acorda... E a gente aprende, entre um aperto e outro, a transformar a ausência em forma bonita de lembrar. Roberto Paixão São José de Ribamar Maranhão

Continuar lendo

PARA QUE SERVE O POEMA?

Para que serve o poema? Isso eu não sei… Mas sei que acalma a alma, Externa o coração, Fala de amor, de paixão, De alegria e até de tristeza. Eufórico ou melancólico, Exalta emoções, Diz o que a boca cala, Mostra o que a gente sente E nem sempre entende. Fala de riso e de lamento, De encontro e de saudade, Da força do sentimento E da fragilidade. Serve pra aliviar o peito, Pra arrumar o pensamento, Pra lembrar sem sofrimento Ou esquecer por um momento. É sopro, é toque, é rumo, É jeito simples de viver O que vive escondido em nós. Poema não explica nada… Apenas deixa a alma ter voz. Roberto Paixão São José de Ribamar - Maranhão

Continuar lendo

FORA DOS TEUS PLANOS

Hoje já não caminho nos teus mapas, Nem pertenço ao desenho que fizeste de mim. Minhas palavras, antes cheias de retorno, Agora se perdem em ecos sem fim. A simplicidade que um dia te tocou a alma Virou lembrança dobrada no passado repugnante, Como se o tempo tivesse manchado O que havia de mais sagrado. E eu, que era a brisa leve que te acalmava, Tornei-me um enigma mal interpretado. Fui crescendo entre medos e silêncios, Me refazendo no que a vida permite. Sou complexo, mas sigo inteiro, Mesmo quando ninguém me decifra ou admite. E, se um dia o destino, por desengano, Te fizer lembrar do que fomos, sem ruído, Saberás: não era falta de amor no teu plano, Nem um simples “passar o pano”. Era apenas um coração, firme e vivo, Sendo, por ti, mal compreendido. E, se te interessa saber: Apesar de tudo, eu te amo. Roberto Paixão São José de Ribamar MA

Continuar lendo