O tempo é inderrotável.
Não se curva ao choro,
Nem recua diante do grito.
Ele caminha,
Sereno como a maré
Que beija as areias de Panaquatira
E retorna ao seu destino.
O tempo não pede licença.
Entra pelas frestas da memória,
Folheia retratos antigos,
Sopra nomes que já foram abraço
Amores antigos
Que hoje são apenas eco.
Ele viu meninos correndo
Pelas ruas de chão batido,
Ouviu risos na beira-mar,
Sentiu o cheiro da chuva
Caindo sobre os quintais
Onde o mundo era pequeno
E cabia inteiro no coração.
Inderrotável,
O tempo transforma sol em crepúsculo,
Força em cansaço,
Paixão em lembrança.
Mas também faz do sofrimento
Semente.
E da espera,
Sabedoria.
Se não podemos vencê-lo,
Podemos vivê-lo.
Porque o tempo passa
Mas o que é vivido com verdade
Permanece na eternidade.
Roberto Paixão
São José de Ribamar MA
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Era noite de setembro.
A lua, em brilho tímido,
espiava por entre nuvens
como quem respeita segredos.
As estrelas, inquietas,
festejavam o encontro
do inspirador
com a própria inspiração.
Na cidade, versos ecoavam.
Um festival de literatura pulsava
em palcos iluminados,
vozes declamavam palavras impressas,
livros se abriam em aplausos.
Mas o poeta fechou a agenda da noite,
abandonou holofotes e estrofes públicas:
preferiu atender ao chamado
que vinha do sal, do vento
e de um canto que não cabia em papel.
Seguiu ao porto
que aponta para o mar de maré cheia,
onde o cais range histórias antigas
e a água respira fundo.
Ali, o tempo ancorou.
A noite se inclinou para ouvir melhor.
Ela surgiu como onda mansa,
olhos de ressaca,
pele com cheiro de lua molhada.
Sereia sem escamas visíveis,
mas com um abismo doce na voz.
Ele, poeta de mãos inquietas,
trazia no peito poemas inacabados
e nos lábios uma fome antiga.
O abraço foi lento,
como quem aprende o corpo do outro
em silêncio.
O beijo, salgado e quente,
misturou respiração e desejo,
apagou fronteiras,
fez da boca um cais.
As palavras perderam importância.
Os versos passaram a ser escritos
na pele,
no arrepio,
no toque que demorava
mais do que devia.
O mar subia cúmplice,
o vento rondava curioso,
e a lua, já menos tímida,
aceitou assistir.
Na entrega dos corpos,
houve mais que paixão:
houve rito,
houve consagração.
A consumação do amor
não pediu testemunhas
nem aplausos.
Foi profunda como o oceano à noite,
intensa como poema que não se lê,
apenas se sente.
Enquanto a cidade celebrava livros,
o poeta descobria, nos braços da sereia,
que a mais viva literatura
nasce entre corpos,
entre desejos,
entre poemas
e sussurros
que só o mar
sabe guardar.
Roberto Paixão
São José de Ribamar Maranhão
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No casco gasto pelo sal do tempo,
Navego a Baía de Guaxenduba.
A proa aponta pra fé antiga,
Onde São José me ensina a remar.
Da popa sigo em lembranças,
Entre bombordo e boreste, eu vou
No convés carrego histórias do povo
Que o vento do cais contou.
O leme é firme como promessa,
No timão, a mão do pescador
O motor é a luta diária,
A hélice, o sonho sonhador.
Na linha d’água mora a esperança,
Entre a maré cheia e o viver calado
Com a quilha fincada na tradição,
Aprendi o rumo pra não me perder.
Se o mar aperta, lanço a âncora
E amarro a fé na oração,
Porque quem nasce à beira d’água
Carrega o mar no coração.
E assim segue a embarcação,
Entre o cais, a rede e o luar;
Bendita seja a travessia
De quem navega em São José de Ribamar.
Roberto Paixão
São José de Ribamar MA
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Com o rosto cansado, queimado de sol,
tirou o chapéu de palha,
olhou pro céu e agradeceu por seus amores.
Amores, sim.
Um fincado na terra,
outro chamando do mar.
Um é razão que espera,
o outro é paixão que puxa,
que arrasta, que lhe faz ir pescar.
Porque é no balanço das águas
que ele se encontra e se perde.
Vive dividido entre dois chamados,
o amor da terra e o amor do mar,
e é nessa divisão, nessa eterna partida sem despedida, que mora a razão do seu viver.
Roberto Paixão
Pescador de Emoções
São José de Ribamar MA
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Houve um tempo em que o mar avisava a vida. Bastava a maré baixar para que as canoas surgissem na linha do horizonte, vindo da baía de São José, carregadas de peixes-pedra. Vinham em cambadas, amarrados com as fibras das folhas de tucum, do jeito que a tradição ensinou e o tempo respeitou.
Antes mesmo de encostarem na areia do canal que leva ao Vieira, a praia de banho já estava em vigília: gente esperando peixe, história e notícia.
As velas, marrons tinturadas da casca do mangue, balançavam cansadas, como quem também havia pescado.
Ao descerem das canoas, os pescadores não iam direto para casa nem para a venda. O corpo pedia outro ritual. Seguiam para as pocinhas espalhadas pela praia, pequenos olhos d'água, reservas de água doce que o chão guardava como segredo.
Ali, tiravam o sal do corpo. O ardor da pele encontrava alívio, e a sede, essa companheira silenciosa do homem do mar, era saciada em goles contidos, quase respeitosos. Não era só água. Era agradecimento.
As pocinhas eram pausa, bênção miúda, descanso permitido.
Naquele instante, o mar ficava para trás. O bravo ficava distante.
As pocinhas devolviam forças, alinhavam o fôlego, endireitavam o pensamento. Era como se dissessem: “Vai, que ainda há muito mar pela frente e emoções a pescar”.
Hoje, talvez poucos percebam essas pequenas águas na areia. Mas elas continuam ali, guardando a memória dos que viveram do remo, da vela e da fé.
As pocinhas da praia de banho não eram apenas poças doces como a infância: eram o intervalo sagrado entre o homem e o mar.
Roberto Paixão
Crônica. Pescador de Emoções
...nas rimas dos ventos 2014
São José de Ribamar MA
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Na lentidão da infância,
a gente passava os dias correndo,
sem relógio, sem pressa,
só o corpo obedecendo à vontade.
Do Cruzeiro, onde eu morava,
até a praia de banho,
era um pique,
destino nenhum cansava.
Tinha torneio no campo do Moropóia,
e lá íamos no pique,
com o coração chegando antes do corpo.
Fim de semana era promessa cumprida:
banho no Rio Tabatinga,
no Cururuca,
um pique só,
água, riso e liberdade.
A saída da escola
virava corrida,
porque a vida começava ali.
As brincadeiras tinham fôlego e poeira:
rouba-bandeira, preto fugido,
grito solto, joelho ralado
e alegria sem nome.
Descíamos as ladeiras do Moropóia
rolando em pneu, de patinete,
desafiando o medo
e subindo de volta correndo,
só pra não perder a emoção.
E foi assim:
na lentidão da infância,
a gente passou correndo
por dentro do tempo.
Hoje,
na corrida apressada da vida,
somos lentos.
Presos.
Parados diante da luz fria
das telas dos celulares,
correndo…
sem sair do lugar.
Roberto Paixão
São José de Ribamar MA
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Afeiçoei-me a ti.
Simplicidade
em um único ser.
Olhos que acendem
o que em mim dormia.
Teu cabelo me chama,
embaralha
e me prende.
Tua pele é abrigo,
em um toque
me acalma.
Quando ris,
o mundo desacelera.
Em ti, descanso.
Em ti, fico.
É doce te amar,
pérola rara,
brilhando quieta
sob o luar.
Roberto Paixão
São José de Ribamar MA
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O que fazer com a saudade
quando ela chega sem avisar?
Não dá pra fechar as portas,
nem correr pra se distanciar.
A saudade machuca,
mas suaviza com as lembranças…
É visita que vem devagar,
senta no canto do peito
e começa a conversar.
Traz cheiros, vozes, abraços
que o tempo não conseguiu apagar.
E mesmo quando dói,
ela ensina a valorizar
aquilo que um dia nos fez sorrir
e que ainda insiste em iluminar
os corredores silenciosos
da nossa memória.
Saudade não some, se acomoda.
Adormece e, num simples movimento, acorda...
E a gente aprende,
entre um aperto e outro,
a transformar a ausência
em forma bonita de lembrar.
Roberto Paixão
São José de Ribamar Maranhão
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Para que serve o poema?
Isso eu não sei…
Mas sei que acalma a alma,
Externa o coração,
Fala de amor, de paixão,
De alegria e até de tristeza.
Eufórico ou melancólico,
Exalta emoções,
Diz o que a boca cala,
Mostra o que a gente sente
E nem sempre entende.
Fala de riso e de lamento,
De encontro e de saudade,
Da força do sentimento
E da fragilidade.
Serve pra aliviar o peito,
Pra arrumar o pensamento,
Pra lembrar sem sofrimento
Ou esquecer por um momento.
É sopro, é toque, é rumo,
É jeito simples de viver
O que vive escondido em nós.
Poema não explica nada…
Apenas deixa a alma ter voz.
Roberto Paixão
São José de Ribamar - Maranhão
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Hoje já não caminho nos teus mapas,
Nem pertenço ao desenho que fizeste de mim.
Minhas palavras, antes cheias de retorno,
Agora se perdem em ecos sem fim.
A simplicidade que um dia te tocou a alma
Virou lembrança dobrada no passado repugnante,
Como se o tempo tivesse manchado
O que havia de mais sagrado.
E eu, que era a brisa leve que te acalmava,
Tornei-me um enigma mal interpretado.
Fui crescendo entre medos e silêncios,
Me refazendo no que a vida permite.
Sou complexo, mas sigo inteiro,
Mesmo quando ninguém me decifra ou admite.
E, se um dia o destino, por desengano,
Te fizer lembrar do que fomos, sem ruído,
Saberás: não era falta de amor no teu plano,
Nem um simples “passar o pano”.
Era apenas um coração, firme e vivo,
Sendo, por ti, mal compreendido.
E, se te interessa saber:
Apesar de tudo, eu te amo.
Roberto Paixão
São José de Ribamar MA
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