AS POCINHAS DA PRAIA DE BANHO DE SÃO JOSÉ DE RIBAMAR
Houve um tempo em que o mar avisava a vida. Bastava a maré baixar para que as canoas surgissem na linha do horizonte, vindo da baía de São José, carregadas de peixes-pedra. Vinham em cambadas, amarrados com as fibras das folhas de tucum, do jeito que a tradição ensinou e o tempo respeitou. Antes mesmo de encostarem na areia do canal que leva ao Vieira, a praia de banho já estava em vigília: gente esperando peixe, história e notícia. As velas, marrons tinturadas da casca do mangue, balançavam cansadas, como quem também havia pescado. Ao descerem das canoas, os pescadores não iam direto para casa nem para a venda. O corpo pedia outro ritual. Seguiam para as pocinhas espalhadas pela praia, pequenos olhos d'água, reservas de água doce que o chão guardava como segredo. Ali, tiravam o sal do corpo. O ardor da pele encontrava alívio, e a sede, essa companheira silenciosa do homem do mar, era saciada em goles contidos, quase respeitosos. Não era só água. Era agradecimento. As pocinhas eram pausa, bênção miúda, descanso permitido. Naquele instante, o mar ficava para trás. O bravo ficava distante. As pocinhas devolviam forças, alinhavam o fôlego, endireitavam o pensamento. Era como se dissessem: “Vai, que ainda há muito mar pela frente e emoções a pescar”. Hoje, talvez poucos percebam essas pequenas águas na areia. Mas elas continuam ali, guardando a memória dos que viveram do remo, da vela e da fé. As pocinhas da praia de banho não eram apenas poças doces como a infância: eram o intervalo sagrado entre o homem e o mar. Roberto Paixão Crônica. Pescador de Emoções ...nas rimas dos ventos 2014 São José de Ribamar MA
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