Roberto Paixão @rohpaixao

ENTRE POEMAS E SUSSURROS

Era noite de setembro. A lua, em brilho tímido, espiava por entre nuvens como quem respeita segredos. As estrelas, inquietas, festejavam o encontro do inspirador com a própria inspiração. Na cidade, versos ecoavam. Um festival de literatura pulsava em palcos iluminados, vozes declamavam palavras impressas, livros se abriam em aplausos. Mas o poeta fechou a agenda da noite, abandonou holofotes e estrofes públicas: preferiu atender ao chamado que vinha do sal, do vento e de um canto que não cabia em papel. Seguiu ao porto que aponta para o mar de maré cheia, onde o cais range histórias antigas e a água respira fundo. Ali, o tempo ancorou. A noite se inclinou para ouvir melhor. Ela surgiu como onda mansa, olhos de ressaca, pele com cheiro de lua molhada. Sereia sem escamas visíveis, mas com um abismo doce na voz. Ele, poeta de mãos inquietas, trazia no peito poemas inacabados e nos lábios uma fome antiga. O abraço foi lento, como quem aprende o corpo do outro em silêncio. O beijo, salgado e quente, misturou respiração e desejo, apagou fronteiras, fez da boca um cais. As palavras perderam importância. Os versos passaram a ser escritos na pele, no arrepio, no toque que demorava mais do que devia. O mar subia cúmplice, o vento rondava curioso, e a lua, já menos tímida, aceitou assistir. Na entrega dos corpos, houve mais que paixão: houve rito, houve consagração. A consumação do amor não pediu testemunhas nem aplausos. Foi profunda como o oceano à noite, intensa como poema que não se lê, apenas se sente. Enquanto a cidade celebrava livros, o poeta descobria, nos braços da sereia, que a mais viva literatura nasce entre corpos, entre desejos, entre poemas e sussurros que só o mar sabe guardar. Roberto Paixão São José de Ribamar Maranhão

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