Foto de Charles

Charles

@chuckwp · desde 2018

"Quanto fui jaz. Quanto serei não sou."

95 poemas 75 seguidores 53 seguindo

Seguir

O alho justifica o fim

Não há verdade para além de cortar alhos e ser triste. Celebro a tristeza como um tempero ao que quer que possa haver entre os instantes nos quais penso ser alguma coisa ou penso quando pensei ser outra coisa Ou tento me convencer de que não sou coisa alguma. O tempo há de cobrir-me com o manto do nada. Mas enquanto não tarda quero os alhos cortados e quero sabor em dias vazios, cheios do que não possa haver, vazios só na essência de haver fim, Fim que justifica, dá sentido à falta de sentido, Fim que desbrava caminho não visto, maior que ele próprio que é nada. Ando nos mesmos caminhos que nunca são os mesmos São sempre mais ao fim, mais ao que passou mas mais ao fim Pois há de ver-se fim sobretudo ao que não mais é E que por obséquio do Destino existam alhos!

Continuar lendo

Dormir tudo

Sono de merda Insiste na fuga Desfaça o pensamento Que tristezas procura Sono turrão Não vale um tostão Esqueça a saudade E a ida emoção Sono rompante Pego em flagrante Sonhando certo dia Fazendo-o ao instante Sono cansado Entregue ao Fado Fez da minh'alma Um cão amuado Sono sem fim Pior que cupim Coma essa poesia Inútil e ruim

Continuar lendo

Recorrência

Existo pelo que não posso ser No espaço vazio da memória No instante impossível e perdido Na consciência inútil da perdição. Envelheço entremeio estilhaços do que não fui Refaço caminhos não abertos Perco-me na ânsia de ser Resgato a espera do que não há. Adoeço às vésperas do esquecimento Soluço o amanhã já ido Pertenço ao Destino premente Que abraça e desfaz sentido.

Continuar lendo

Prelúdio

A presença do sono que não há Faz versos a esmo Vontade de estacionar o tempo Residência neste silêncio Abraço ao não sentir coisa alguma Jogar o existir À paz sem porquê

Rotina ou doutrina

O compasso do coração Combalido à vontade de sofrer E que sofrer tenha o sentido do teu olhar A conquista do teu sorriso O horizonte que escapa à vista Jaz na memória Que se insiste na ilusão Perde-se à contramão Da realidade insossa Indisposta ao sentir Encerra-me em contradição. A vontade de desfazer a ausência Que preenche o tédio Desiste a calma Desfaz a alma Esparrama o sentido Aos pedaços da lembrança Encontrada e não querida Na inútil faina da vida. Não abdico a fantasia Perco-me na alegria De crer que o mundo se acaba um dia; Um dia querido, distante Quiçá insuficiente, impotente Para matar o sonho poente Do teu olhar perdido À triste realidade sobrevivente.

Continuar lendo

O fim não tem fim

Com tua ausência, os dias passam; A memória esvaece, leva-me consigo. O que sou é o esquecimento querido, A lembrança que não haverá De um sonho deveras perdido. Contemplo o que restou Sem saber o que sentir; Suponho o que me enganou À ilusão que trabalhei À poesia sem agora ou porvir. Canso de mim mesmo, De tudo que não serei; Simplifico minha dor Em versos sem sabor: Rotina de uma vida - direi. Quero viver às avessas, O tempo enganar. Mas sou apenas resquício Do que agora é ido E ainda insiste em passar.

Continuar lendo

Cinza

Abro a cortina para entregar luz A versos que não existem Assim como abro a memória Ao amor que quero crer morto. Deito-me sobre os versos E nem a tinta sob a têmpora fará deles mais meus, Ou mais versos, Ou tão somente verdadeiramente existentes. Na pausa, um trago E o pensamento de que os versos do amanhã - Como estes, inexistentes - Seguirão o curso inútil da memória. O que há é espera; De assistir um passado que não foi, De ver, com olhos humanos, Um impossível sonho de amor.

Continuar lendo

Impensado

Não há nobreza no que sinto. Amo-te tão somente porque sou eu, Porque jamais pude ser senão isto: Cansado, distraído, e No teu sorriso, que é doce, Perdido. Amo-te pela lógica De teus olhos impossíveis, A verem coragem no desânimo, Candura na confusão, Ao descalabro redenção. És clareira, Luz à espera, Norte ao selvagem, perdido; Amo-te assim, Num ato impensado, sem fim.

Continuar lendo
Amor

Desequilíbrio

Não sei se sou só disforme fascínio, se na tua beleza me aventuro por detestável capricho, se palavras me vêm ao compasso da sozinhês, se meu flerte à tua poesia é querido porque impossível; não sei se descreio por só o bem em ti sentir, se desconfio da tua luz por costume às sombras, se temo tua ausência no futuro incerto, se anseio tua palavra no sonho que não pode haver.  O que sei, mal e pobremente sei, é que cada manhã traz consigo o anúncio louco da minha vontade de ti: perco-me em confabulações necessárias  de um mundo sem distâncias; vejo-me obrigado a suspender a amargura, jogar-me na esperança outrora perdida  de um porvir querido e absorto em risos.  Porque posso tão somente com sentido rir-me ao ter-te ao norte, ao horizonte de estar-sendo. Nos percamos sem porquê  na ilusão necessária de um existir inútil. Façamos da realidade um detalhe descartável ao escopo do sentimento. Tenhamos montanhas, oliveiras e a vaca-malhada Florença. Esqueçamos tudo que escape  à redoma impossivelmente real  de nossos sonhos de amor.

Continuar lendo