Não há verdade para além de cortar alhos e ser triste.
Celebro a tristeza como um tempero ao que quer que possa haver entre os instantes
nos quais penso ser alguma coisa ou penso quando pensei ser outra coisa
Ou tento me convencer de que não sou coisa alguma.
O tempo há de cobrir-me com o manto do nada.
Mas enquanto não tarda quero os alhos cortados e quero sabor em dias vazios, cheios do que não possa haver, vazios só na essência de haver fim,
Fim que justifica, dá sentido à falta de sentido,
Fim que desbrava caminho não visto, maior que ele próprio que é nada.
Ando nos mesmos caminhos que nunca são os mesmos
São sempre mais ao fim, mais ao que passou mas mais ao fim
Pois há de ver-se fim sobretudo ao que não mais é
E que por obséquio do Destino existam alhos!
Continuar lendo
Sono de merda
Insiste na fuga
Desfaça o pensamento
Que tristezas procura
Sono turrão
Não vale um tostão
Esqueça a saudade
E a ida emoção
Sono rompante
Pego em flagrante
Sonhando certo dia
Fazendo-o ao instante
Sono cansado
Entregue ao Fado
Fez da minh'alma
Um cão amuado
Sono sem fim
Pior que cupim
Coma essa poesia
Inútil e ruim
Continuar lendo
Existo pelo que não posso ser
No espaço vazio da memória
No instante impossível e perdido
Na consciência inútil da perdição.
Envelheço entremeio estilhaços do que não fui
Refaço caminhos não abertos
Perco-me na ânsia de ser
Resgato a espera do que não há.
Adoeço às vésperas do esquecimento
Soluço o amanhã já ido
Pertenço ao Destino premente
Que abraça e desfaz sentido.
Continuar lendo
A presença do sono que não há
Faz versos a esmo
Vontade de estacionar o tempo
Residência neste silêncio
Abraço ao não sentir coisa alguma
Jogar o existir
À paz sem porquê
O compasso do coração
Combalido à vontade de sofrer
E que sofrer tenha o sentido do teu olhar
A conquista do teu sorriso
O horizonte que escapa à vista
Jaz na memória
Que se insiste na ilusão
Perde-se à contramão
Da realidade insossa
Indisposta ao sentir
Encerra-me em contradição.
A vontade de desfazer a ausência
Que preenche o tédio
Desiste a calma
Desfaz a alma
Esparrama o sentido
Aos pedaços da lembrança
Encontrada e não querida
Na inútil faina da vida.
Não abdico a fantasia
Perco-me na alegria
De crer que o mundo se acaba um dia;
Um dia querido, distante
Quiçá insuficiente, impotente
Para matar o sonho poente
Do teu olhar perdido
À triste realidade sobrevivente.
Continuar lendo
Penso-te e meu coração sai do ritmo,
Em solavancos vai à saudade.
Permaneço teimoso, convicto,
No silêncio insisto,
Palavra alguma retomaria
O sonho outrora verdade.
Com tua ausência, os dias passam;
A memória esvaece, leva-me consigo.
O que sou é o esquecimento querido,
A lembrança que não haverá
De um sonho deveras perdido.
Contemplo o que restou
Sem saber o que sentir;
Suponho o que me enganou
À ilusão que trabalhei
À poesia sem agora ou porvir.
Canso de mim mesmo,
De tudo que não serei;
Simplifico minha dor
Em versos sem sabor:
Rotina de uma vida - direi.
Quero viver às avessas,
O tempo enganar.
Mas sou apenas resquício
Do que agora é ido
E ainda insiste em passar.
Continuar lendo
Abro a cortina para entregar luz
A versos que não existem
Assim como abro a memória
Ao amor que quero crer morto.
Deito-me sobre os versos
E nem a tinta sob a têmpora fará deles mais meus,
Ou mais versos,
Ou tão somente verdadeiramente existentes.
Na pausa, um trago
E o pensamento de que os versos do amanhã -
Como estes, inexistentes -
Seguirão o curso inútil da memória.
O que há é espera;
De assistir um passado que não foi,
De ver, com olhos humanos,
Um impossível sonho de amor.
Continuar lendo
Não há nobreza no que sinto.
Amo-te tão somente porque sou eu,
Porque jamais pude ser senão isto:
Cansado, distraído, e
No teu sorriso, que é doce,
Perdido.
Amo-te pela lógica
De teus olhos impossíveis,
A verem coragem no desânimo,
Candura na confusão,
Ao descalabro redenção.
És clareira,
Luz à espera,
Norte ao selvagem, perdido;
Amo-te assim,
Num ato impensado, sem fim.
Continuar lendo
Não sei se sou só disforme fascínio,
se na tua beleza me aventuro por detestável capricho,
se palavras me vêm ao compasso da sozinhês,
se meu flerte à tua poesia é querido porque impossível;
não sei se descreio por só o bem em ti sentir,
se desconfio da tua luz por costume às sombras,
se temo tua ausência no futuro incerto,
se anseio tua palavra
no sonho que não pode haver.
O que sei, mal e pobremente sei,
é que cada manhã traz consigo
o anúncio louco da minha vontade de ti:
perco-me em confabulações necessárias
de um mundo sem distâncias;
vejo-me obrigado a suspender a amargura,
jogar-me na esperança outrora perdida
de um porvir querido e absorto em risos.
Porque posso tão somente com sentido rir-me
ao ter-te ao norte, ao horizonte de estar-sendo.
Nos percamos sem porquê
na ilusão necessária de um existir inútil.
Façamos da realidade um detalhe
descartável ao escopo do sentimento.
Tenhamos montanhas, oliveiras e a vaca-malhada Florença.
Esqueçamos tudo que escape
à redoma impossivelmente real
de nossos sonhos de amor.
Continuar lendo