Desequilíbrio
Não sei se sou só disforme fascínio, se na tua beleza me aventuro por detestável capricho, se palavras me vêm ao compasso da sozinhês, se meu flerte à tua poesia é querido porque impossível; não sei se descreio por só o bem em ti sentir, se desconfio da tua luz por costume às sombras, se temo tua ausência no futuro incerto, se anseio tua palavra no sonho que não pode haver. O que sei, mal e pobremente sei, é que cada manhã traz consigo o anúncio louco da minha vontade de ti: perco-me em confabulações necessárias de um mundo sem distâncias; vejo-me obrigado a suspender a amargura, jogar-me na esperança outrora perdida de um porvir querido e absorto em risos. Porque posso tão somente com sentido rir-me ao ter-te ao norte, ao horizonte de estar-sendo. Nos percamos sem porquê na ilusão necessária de um existir inútil. Façamos da realidade um detalhe descartável ao escopo do sentimento. Tenhamos montanhas, oliveiras e a vaca-malhada Florença. Esqueçamos tudo que escape à redoma impossivelmente real de nossos sonhos de amor.
Comentários · 1
Nenhum comentário ainda. Entre para ser o primeiro a comentar.