O poeta se a vida bastasse:
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@beatryz_santos · desde 2020
O peso do pecado é leve, então me leve pra qualquer lugar.
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O consolo é material tangível, feito de borracha, Quando entra, preenche o buraco que fica aberto E apaga os rabiscos riscados de ponta grossa prata, Que marca e não se apaga senão por um segundo objeto. É certo que quando mais se consola e mais se isola, Mais cê aperta muito forte porque não consegue deixar sair? Que talvez você tenha mais objeto que objetivo de sobra, E o que sobra é resto, minúsculo demais pra poder distinguir? Abraço, não. Mas no quarto, é a quarta vez no dia Que o braço abre a gaveta e pensa numa outra vida. É vadia, será? ser deixada de lado, deitada num colo Que espelha tudo aquilo que reflete em seus olhos? É claro que tem consolo. Forte, escuro, estável e bem morno, E esse é melhor que o outro, porque é tangível e material. Vinte e três centímetros de calor que penetra até o osso e Sabe bem o que faz, ficando várias vezes no colo único e lateral. [2] Consolo. Tem sim, um não, tem dois, três, tem quatro. E no quarto, é a quarta vez no ano que se pergunta Se deve arriscar outra vez sentir as dores de um parto; Parte tudo e machuca, corta os rins, o peito, as juntas. Consolo, claro que tem, tem dois, tem três, tem vários. Nunca ficou só, e na cozinha, pensando sozinha, Se questiona se borracha é uma bom material ou se deveria Tentar com algo que reluz, tipo vidro, que corta e brilha, Ou que seja maior que o buraco, de tamanho de fim, cheio de paz. Que seja presente, intangível, sensível e também bilateral Preenchendo os buracos de ambos os lados, frente e atrás Que acolha os gemidos, e que talvez dessa vez seja imaterial. Abraço, não. Mas tem colo unilateral, que não toca a alma, Mas toca alguma coisa, o colo do útero, e acho, talvez, o pulmão. Vinte e três centímetros é pouco será? Precisa de consolo maior, Que vai entrando, rasgando e preenchendo o vazio do coração.
Continuar lendoAprendi que o tempo engana Mesmo quando a gente implora. Acreditei ser prisioneira, Num ciclo que nunca melhora. Duvidava do amanhã, Achando que a vida demora. Caminhei por tantos medos, Olho agora e vejo além. Sou quem duvidava ser, Tudo muda, e isso é um bem. Aprendi que a vida aposta... Dennet. Amanda Costa.
Continuar lendoEntre nós, a transitividade era direta. Eu te comia. Sujeito claro, verbo ação, objeto certo. Agora o verbo "amar" ficou intransitivo fodo, mas não a você. Fodo a dor, fodo o vazio. Vazio. Adjunto adverbial de lugar onde gozo agora. Advérbio que modifica o verbo "estar" no presente contínuo: "estou gozando vazio". Gerúndio de um processo que não finda. Na cama, éramos verbo no modo indicativo: "fodíamos". Agora é subjuntivo: "talvez fodêssemos se…" O objeto direto era o corpo, o indireto, a alma. De lugar: "dentro de você". De tempo: "sem parar". De modo: "com força". Todos revogados por um advérbio de negação: "nunca mais". Na foda, os advérbios eram de intensidade: "mais fundo", "mais devagar", "mais doce". Agora são de dúvida: "talvez", "quem sabe", "acaso". O adjetivo "nu" perdeu o substantivo "corpo" e virou "nudez crua da alma". Na cama, éramos frase coordenada assindética: "suor, saliva, sêmen, silêncio". Agora é oração subordinada adverbial causal: "choro porque gozei sozinho no escuro". Mas escuro é adjunto adnominal modificando "quarto", modificando "vida". O verbo "gozar" era transitivo direto: gozava você, gozava a nós. Agora é reflexivo: "gozo-me", como se eu fosse objeto de mim mesmo. Éramos predicativo do sujeito: "éramos um". Agora é aposto de solidão: "eu, sozinho, gozo minha sombra". O advérbio "juntos" virou "separado" por contração perversa da língua. Minha língua na sua boca era substantivo concreto. Na minha boca é abstrato: fala palavras ocas sobre o sexo que tínhamos no pretérito mais-que-perfeito: "fôramos um". Vontade. Querer. Verbo transitivo que perdeu o objeto: "quero…" Quero o quê? Quero quem? O complemento ficou elíptico como um orgasmo interrompido. Interrompido, rompido e partido. O adjetivo "molhado" modificava "corpo". Agora modifica "almofada". Advérbio de lugar: "ao lado" onde você não tá mais. [...]
Continuar lendoLeve o que pesa ou carregue o que é vão? Na balança da mesa o leve é prisão? Se canto um verso ou canto um quarto, no canto o som se faz abrigo? Quem canta o canto fica à parte, mas cantar o mundo, será que consigo? Se no palco a bateria ruge e no carro, a bateria morre, No peito, a bateria foge. Me bateria, se agora me socorre? E se ao colher o doce, colher o gesto, colher a fruta, se acolhe o resto? Na mão que colhe, cabe o mundo mas colher, às vezes, é só um objeto. E o ponto final do ponto de ônibus? Do ponto de costura? De interrogação? O ponto cego é o que mais chama a tensão, Mas quem perde o ponto, perde a ocasião.
Continuar lendoMeu pensamento é um pouso momentâneo na beira do rio que leva o ser inteiro. Na beira do ser, fico à beirada do sentido, onde olho a olho nu com o que foi descoberto. Às vezes, tacho de ideias no tato, no calor, na água tácita fervendo em silêncio elétrico. O fato cru, núbil, vira fita desenrolando no ar, e a fita me fita, me prega ao relance. Há um cisma íntimo no cismo da semente: quer ficar terra, escuro cimo, quer ser grito verde. É uma censura na certeza e um corte súbito. Minha luta não é lútea, não é dourada auréola, é bruta, crua, rota em linha nova, ronda noturna que arrenda o escuro. O verso que inverso me traz, esse reverso de um tecido que ainda não existe, me avesso e me revelo no avesso do pano. Calo na alma de tanto tentar a calada perfeita, e o calo, que é casca, vira cala-boca, que vira e ecoa um cala-minha-alma. Na frase, o fra-se de quem quase se diz, na pressa que pre-sa e prende o instante num laço, há um laço de fala, um lasso no tempo. Sou traço de um trato, risco no vão do muro, tráfego de sombras entre tráfico e tráfego de ruas. E no vão que há em mim, constrói-se um vão. Vão de escada, vão de asa, vão de espera. Vão de pessoas que vem e que vão. E esperando só, ouço o eco seco na pedra, árido e agudo, o cego que cego de ver tanto o ponto cego. Ao fim, resta o fio: o fio da voz, o fio da navalha, o fio da espera. E no meio do fio, me afio. Puro corte. Puro canto. Puro fio, que não se rompe por um triz, por um fio.
Continuar lendoEsses vinte e dois graus covardes, esse mar que insiste em sussurrar seu nome na areia me condenam a lembrar do seu olhar e da promessa vã da nossa cadeia quebrada por uma bala ou por um laço. Lembro seus dedos traçando na minha cintura mapas de um país que nunca visitamos e o sol no peito, nua à luz plena, pura, enquanto as ondas quebrando beijavam-nos e ríamos de tudo, até da morte escura. [...] Ódio e amor se misturam nessa espuma que molha meus pés na mesma praia vazia. Você foi, caralho, mas não liberta essa pluma que prende minha alma à sua poesia maldita, linda, amarga, amada escuma. E nesses vinte e dois graus exatos onde não se precisa de casaco nem de nada sinto teus braços, teus velhos retratos e a nudez que era minha armada contra todos os mundos e seus tratados. [...] O corpo dói de tantas madrugadas esperando seus lábios que não virão mais minha cintura esfria, uma vez amada, agora é só uma curva sem porra nenhuma onde seus braços já foram minha estrada. Meu coração ainda cheira a maresia e ao seu suor daquela tarde eterna minha voz quebrou-se na ironia de gritar seu nome na baderna sabendo que a resposta seria vazia. Seu pescoço, agora enlaçado, onde eu escrevia versos com a boca e os dentes e o prazer e o desejo é agora um fantasma disperso que me assombra no mesmo relejo desses vinte e dois graus controversos. O mar é meu, mas não me devolveu o eu E me deu só umas conchas vazias e essa dor que no meu peito cresceu nessas praias sempre sombrias onde o sol de vinte e dois graus morreu. Porque nos vinte e dois graus exatos onde a pele não arde nem arrepia sinto teus abraços, teus tratos e a geometria da nossa agonia nestes braços, nestes retratos.
Continuar lendoViram o rosto quando passei com minhas feridas à mostra. Humanidade é outra palavra para crueldade com diploma. A pluma me deu passos lentos sobre ruínas familiares. A morte era visita frequente que não batia à porta: entrava pela janela do hospital ou pelo telefone nas madrugas. E as drogas imundas inundam na alma desde os sete anos porque mal não usa máscara, mostra seu rosto ordinário no pai que beija e depois bate, na mãe que ama e abandona. Dona do varejo, atacado, tacado ferro cravado no peito desde sempre. Aprendi que os monstros não vivem sob a cama, dormem ao lado, dividem o pão, assinam contratos, tratam a gente. O agente da serpente mente e pentearam meus cabelos com farpas de desdém. Riram quando tropecei, apontaram quando sangrei, sussurraram quando desabei. E eu vou fazer o quê? Porque eu também. Desabei, sabe? Soube, sabiam exatamente onde cutucar pra extrair o pranto e transborda-lo no prato. Praticam os mestres na arte sutil de ligar o foda-se e de torturar com silêncio e de assassinar com omissões Que não são missões, mas me são cumprida: deixaram-me à beira do abismo, conferindo o relógio enquanto eu decidia entre pular ou ficar. Fofocaram, focaram, não ficaram Mas EU fiquei. Não por coragem, mas por cansaço porque até morrer tem que ter energia E sendo pobre de espírito, cortaram-me a luz e vivo de agonia. Harmonizam a crueldade escrito com letra cursiva na minha testa aberta. Até os bondosos tinham sua dose de maldade aquela piedade que humilha, aquele ajudar que inferioriza. Sabe, né? E na veniência, a essência de que não faço mais a ninguém. Desisti de buscar humanidade nos humanos, achei ela num focinho úmido e olhos que não julgam Um algo que não sei nomear veio num dia de sol morno quando meu cachorro trouxe uma folha seca como presente real [...]
Continuar lendoTenho tesão E também tenho traumas, alma, tramas de drama, cama sem calma Armas e carma, Cavalheiro e dama Arma sem bala. Contenho o receio, contemplo, completo com o tempo, e eu tento conter, contar, cantar.... Tento sorrir, sentir e sarar Temo o dia, odeio odiar, adiar, dar, Ar. Arquemos com o tempo Com o vento que temos Com tudo, com nada E eu não sei nadar Contudo, contido, contado Contando contigo Conto os tiros Eu miro, admiro, atiro A bala transpassa, Passeia e rasga o coração Sem graça Sem cor, sem ação Sem noção de reagir e agir e ir Embora daqui, Embora daqui pra lá Seja mil passos E meu andar é bem raso Volto pro mesmo lugar Como um compasso Eu tenho tesão, Olho, me importo, solto não gosto Desejo, eu gozo, sufoco, suporto Contenho o medo, tento contê-lo Contá-lo são vários Para dar-te, amar-te, não sufocar-te Porquê fazer o lanche da tarde, No quintal sob constelação Não tenho nada a oferecer-te Pra ter-te Tenho-te, tenho t tenho tesão Tenho pressa, tenho prece, Peço peças, peço paz, Penso, piso no risco, Risco um rabisco, Rasgo o papel, revejo o céu, Sem véu, veio a véia, Vela, velha chama Meu nome. Nomeio demônios, Demos nós, Damos-nos, Danamos-nos, Dançamos só. Trago traços, tracejo tratos, Trato com tato, Tato raro, rastro de astro, Astro cadente cai na mente, Sente? Não sinto, Simulo sim, só, Solto suspiros, puxo o ar, Pesado, peso o prato, Prato raso de graça, divina, dina mina, sina, será? Sina de sêmen, semente de tempo Perdido em mim, em ti, Em ti, em mim, Miragem mira, atira novamente. Tenho traumas, será? Trama e truque, Trique traque, Traque o coração partido em dois. Dois somos nós sem amarras, Arraso o jogo e jogo sujo De lama de rio, de lágrimas, Secas de tanto esperar Sentado no mesmo barco. Eu não sei nadar, Nadar ou voar, de ver, de vagar, Devagar, sem fim, Fim? Não tem fim, Assim em mim. Tem trauma, trama, cama e calma Fogo e água. Pouco tesão aqui e alí.
Continuar lendoAbaixo brilham, caem diamantes, Estrelas ferventes gravitam. Horizontes iluminam juntos, Kineticamente, luzes movem. Navegam, opacas pelo quieto, Radiante semblante, trazendo universo vasto. wanderlust, xerox, Yin, zênite.
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