Então falemos sobre transitividade
Entre nós, a transitividade era direta. Eu te comia. Sujeito claro, verbo ação, objeto certo. Agora o verbo "amar" ficou intransitivo fodo, mas não a você. Fodo a dor, fodo o vazio. Vazio. Adjunto adverbial de lugar onde gozo agora. Advérbio que modifica o verbo "estar" no presente contínuo: "estou gozando vazio". Gerúndio de um processo que não finda. Na cama, éramos verbo no modo indicativo: "fodíamos". Agora é subjuntivo: "talvez fodêssemos se…" O objeto direto era o corpo, o indireto, a alma. De lugar: "dentro de você". De tempo: "sem parar". De modo: "com força". Todos revogados por um advérbio de negação: "nunca mais". Na foda, os advérbios eram de intensidade: "mais fundo", "mais devagar", "mais doce". Agora são de dúvida: "talvez", "quem sabe", "acaso". O adjetivo "nu" perdeu o substantivo "corpo" e virou "nudez crua da alma". Na cama, éramos frase coordenada assindética: "suor, saliva, sêmen, silêncio". Agora é oração subordinada adverbial causal: "choro porque gozei sozinho no escuro". Mas escuro é adjunto adnominal modificando "quarto", modificando "vida". O verbo "gozar" era transitivo direto: gozava você, gozava a nós. Agora é reflexivo: "gozo-me", como se eu fosse objeto de mim mesmo. Éramos predicativo do sujeito: "éramos um". Agora é aposto de solidão: "eu, sozinho, gozo minha sombra". O advérbio "juntos" virou "separado" por contração perversa da língua. Minha língua na sua boca era substantivo concreto. Na minha boca é abstrato: fala palavras ocas sobre o sexo que tínhamos no pretérito mais-que-perfeito: "fôramos um". Vontade. Querer. Verbo transitivo que perdeu o objeto: "quero…" Quero o quê? Quero quem? O complemento ficou elíptico como um orgasmo interrompido. Interrompido, rompido e partido. O adjetivo "molhado" modificava "corpo". Agora modifica "almofada". Advérbio de lugar: "ao lado" onde você não tá mais. [...]
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