ARCADAIA @beatryz_santos

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Meu pensamento é um pouso momentâneo na beira do rio que leva o ser inteiro. Na beira do ser, fico à beirada do sentido, onde olho a olho nu com o que foi descoberto. Às vezes, tacho de ideias no tato, no calor, na água tácita fervendo em silêncio elétrico. O fato cru, núbil, vira fita desenrolando no ar, e a fita me fita, me prega ao relance. Há um cisma íntimo no cismo da semente: quer ficar terra, escuro cimo, quer ser grito verde. É uma censura na certeza e um corte súbito. Minha luta não é lútea, não é dourada auréola, é bruta, crua, rota em linha nova, ronda noturna que arrenda o escuro. O verso que inverso me traz, esse reverso de um tecido que ainda não existe, me avesso e me revelo no avesso do pano. Calo na alma de tanto tentar a calada perfeita, e o calo, que é casca, vira cala-boca, que vira e ecoa um cala-minha-alma. Na frase, o fra-se de quem quase se diz, na pressa que pre-sa e prende o instante num laço, há um laço de fala, um lasso no tempo. Sou traço de um trato, risco no vão do muro, tráfego de sombras entre tráfico e tráfego de ruas. E no vão que há em mim, constrói-se um vão. Vão de escada, vão de asa, vão de espera. Vão de pessoas que vem e que vão. E esperando só, ouço o eco seco na pedra, árido e agudo, o cego que cego de ver tanto o ponto cego. Ao fim, resta o fio: o fio da voz, o fio da navalha, o fio da espera. E no meio do fio, me afio. Puro corte. Puro canto. Puro fio, que não se rompe por um triz, por um fio.

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