ARCADAIA @beatryz_santos

vinte e dois graus

Esses vinte e dois graus covardes, esse mar que insiste em sussurrar seu nome na areia me condenam a lembrar do seu olhar e da promessa vã da nossa cadeia quebrada por uma bala ou por um laço. Lembro seus dedos traçando na minha cintura mapas de um país que nunca visitamos e o sol no peito, nua à luz plena, pura, enquanto as ondas quebrando beijavam-nos e ríamos de tudo, até da morte escura. [...] Ódio e amor se misturam nessa espuma que molha meus pés na mesma praia vazia. Você foi, caralho, mas não liberta essa pluma que prende minha alma à sua poesia maldita, linda, amarga, amada escuma. E nesses vinte e dois graus exatos onde não se precisa de casaco nem de nada sinto teus braços, teus velhos retratos e a nudez que era minha armada contra todos os mundos e seus tratados. [...] O corpo dói de tantas madrugadas esperando seus lábios que não virão mais minha cintura esfria, uma vez amada, agora é só uma curva sem porra nenhuma onde seus braços já foram minha estrada. Meu coração ainda cheira a maresia e ao seu suor daquela tarde eterna minha voz quebrou-se na ironia de gritar seu nome na baderna sabendo que a resposta seria vazia. Seu pescoço, agora enlaçado, onde eu escrevia versos com a boca e os dentes e o prazer e o desejo é agora um fantasma disperso que me assombra no mesmo relejo desses vinte e dois graus controversos. O mar é meu, mas não me devolveu o eu E me deu só umas conchas vazias e essa dor que no meu peito cresceu nessas praias sempre sombrias onde o sol de vinte e dois graus morreu. Porque nos vinte e dois graus exatos onde a pele não arde nem arrepia sinto teus abraços, teus tratos e a geometria da nossa agonia nestes braços, nestes retratos.

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