ARCADAIA @beatryz_santos

Consolo? Sim, tem, claro.

O consolo é material tangível, feito de borracha, Quando entra, preenche o buraco que fica aberto E apaga os rabiscos riscados de ponta grossa prata, Que marca e não se apaga senão por um segundo objeto. É certo que quando mais se consola e mais se isola, Mais cê aperta muito forte porque não consegue deixar sair? Que talvez você tenha mais objeto que objetivo de sobra, E o que sobra é resto, minúsculo demais pra poder distinguir? Abraço, não. Mas no quarto, é a quarta vez no dia Que o braço abre a gaveta e pensa numa outra vida. É vadia, será? ser deixada de lado, deitada num colo Que espelha tudo aquilo que reflete em seus olhos? É claro que tem consolo. Forte, escuro, estável e bem morno, E esse é melhor que o outro, porque é tangível e material. Vinte e três centímetros de calor que penetra até o osso e Sabe bem o que faz, ficando várias vezes no colo único e lateral. [2] Consolo. Tem sim, um não, tem dois, três, tem quatro. E no quarto, é a quarta vez no ano que se pergunta Se deve arriscar outra vez sentir as dores de um parto; Parte tudo e machuca, corta os rins, o peito, as juntas. Consolo, claro que tem, tem dois, tem três, tem vários. Nunca ficou só, e na cozinha, pensando sozinha, Se questiona se borracha é uma bom material ou se deveria Tentar com algo que reluz, tipo vidro, que corta e brilha, Ou que seja maior que o buraco, de tamanho de fim, cheio de paz. Que seja presente, intangível, sensível e também bilateral Preenchendo os buracos de ambos os lados, frente e atrás Que acolha os gemidos, e que talvez dessa vez seja imaterial. Abraço, não. Mas tem colo unilateral, que não toca a alma, Mas toca alguma coisa, o colo do útero, e acho, talvez, o pulmão. Vinte e três centímetros é pouco será? Precisa de consolo maior, Que vai entrando, rasgando e preenchendo o vazio do coração.

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