ARCADAIA @beatryz_santos

Então falemos sobre desgraças

Viram o rosto quando passei com minhas feridas à mostra. Humanidade é outra palavra para crueldade com diploma. A pluma me deu passos lentos sobre ruínas familiares. A morte era visita frequente que não batia à porta: entrava pela janela do hospital ou pelo telefone nas madrugas. E as drogas imundas inundam na alma desde os sete anos porque mal não usa máscara, mostra seu rosto ordinário no pai que beija e depois bate, na mãe que ama e abandona. Dona do varejo, atacado, tacado ferro cravado no peito desde sempre. Aprendi que os monstros não vivem sob a cama, dormem ao lado, dividem o pão, assinam contratos, tratam a gente. O agente da serpente mente e pentearam meus cabelos com farpas de desdém. Riram quando tropecei, apontaram quando sangrei, sussurraram quando desabei. E eu vou fazer o quê? Porque eu também. Desabei, sabe? Soube, sabiam exatamente onde cutucar pra extrair o pranto e transborda-lo no prato. Praticam os mestres na arte sutil de ligar o foda-se e de torturar com silêncio e de assassinar com omissões Que não são missões, mas me são cumprida: deixaram-me à beira do abismo, conferindo o relógio enquanto eu decidia entre pular ou ficar. Fofocaram, focaram, não ficaram Mas EU fiquei. Não por coragem, mas por cansaço porque até morrer tem que ter energia E sendo pobre de espírito, cortaram-me a luz e vivo de agonia. Harmonizam a crueldade escrito com letra cursiva na minha testa aberta. Até os bondosos tinham sua dose de maldade aquela piedade que humilha, aquele ajudar que inferioriza. Sabe, né? E na veniência, a essência de que não faço mais a ninguém. Desisti de buscar humanidade nos humanos, achei ela num focinho úmido e olhos que não julgam Um algo que não sei nomear veio num dia de sol morno quando meu cachorro trouxe uma folha seca como presente real [...]

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