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Meira

@SrtaMeira · desde 2019

Falar sobre o amor talvez seja mais revolucionário.

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Em Letras Garrafais

Quero amar ardentemente. Quero alguém que seja meu último pensamento antes de dormir e o meu primeiro pensamento quando acordar. Quero testemunhar a sua vida e conhecê-lo em todas as suas pequenas transformações. Quero ser mulher, amiga e amante. Ser a pessoa que entende seus hábitos, suas histórias, seus medos e manias. Quero pensar nele durante uma música aleatória, ou uma frase bonita em um livro, ou às 14h da tarde num dia quente e estressante. Quero muito amar em letras maiúsculas e garrafais. Amar pode ser ascensão e ruína, e eu quero poder experienciar isso com toda a minha alma. Algo que é capaz de transformar, mesmo sabendo que pode destruir. Uma parte de mim teme irracionalmente, mas eu prefiro sentir tudo a não sentir nada.

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Você ficou em tudo

Eu te vejo em tudo. Em momentos inexplicáveis, onde você sequer estaria. Vejo você nos livros que leio, nos novos lugares que frequento. Sinto seu cheiro no meu travesseiro, e ele é novo. Vejo você em cada canto da minha casa. Há vezes também em que sinto seu toque na minha pele. Sinto seus lábios nos meus. Ouço sua voz bem longe quando rio de uma piada boba em um filme. Vejo você em cada momento da minha vida. É que você foi embora, mas ficou em tudo.

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A quem possa interessar

Conheci alguém que vou amar pelo resto da vida. E, ainda assim, alguém de quem nunca pude me despedir. Ficamos suspensos onde nada começou de verdade e, mesmo assim, tudo terminou. É como se tivéssemos nos encontrado no meio de uma história que nunca teve começo, e nos perdido antes mesmo de existir um fim. Talvez por isso doa tanto, porque o que não se completa não se encerra. Fica. E você ficou em mim. Queria poder voltar no tempo só para inventar um final, qualquer final que fosse, só para ter algo que eu pudesse chamar de fim. Talvez assim fosse mais fácil seguir, fechar essa porta entreaberta que insiste em não se calar dentro de mim. Eu vou sentir sua falta. não por um tempo, mas em todos os tempos que vierem depois. E, mesmo assim, existe uma parte de mim que entende, talvez tenha sido melhor assim. Porque você seguiu. Porque você está feliz. E, no fundo, mesmo que isso me quebre, amar você sempre foi querer exatamente isso.

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Para quem já caiu

Eu lembro de como é me sentir sozinha, mas não lembro como é ficar sozinha. Lembro dos domingos na passarela, do sol caindo como quem desiste, do cheiro urbano preso à pele, do som dos ônibus atravessando tudo sem pedir licença. Eu também atravessava. Invisível. Pessoas iam e voltavam. Algumas eu conhecia. Nenhuma me reconhecia. Não fazer parte não era abandono. Era regra. A solidão era honesta: não prometia futuro, não chamava meu nome, não fingia cuidado. Mas havia um chão. E agora, mesmo sozinha, eu caio.

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Entre às 4:43 e às 22:16.

Terminei com ele mentalmente às 4:43 do dia 01/01/25. Naquele momento, a relação já tinha acabado. O que continuou depois foi hábito, medo e processo. Levei mais de um ano para comunicar. Só consegui às 22:16 do dia 08/01/2026. Não porque faltava decisão, mas porque faltava coragem para suportar o que viria. Nesse intervalo, tentei permanecer. Esperei mudança. Negociei comigo mesma. Pedi ajuda a tudo o que não exigia uma escolha. Deuses, santos, pagãos. Chorei sozinha, como quem tenta esvaziar a dor esperando que ela sumisse. Não some. Houve várias chances de terminar antes. Eu sabia. Eu sentia.  E eu não fiz  Não era confusão.  Era medo. Medo do silêncio que ficaria quando não houvesse mais conflito para ocupar o espaço. Medo de não saber quem eu era sem algo doendo o tempo todo. Chega um ponto em que a dor deixa de ser só dor e passa a ser identidade. Ela organiza os dias. Justifica o cansaço. Dá sentido à permanência. E você só tem medo de deixar a dor ir porque não sabe quem é sem ela. Porque, sem a dor, o que sobra? Mas um dia você termina e descobre o que já sabia: o medo nunca foi de acabar. Foi de sustentar o vazio. De não ter para onde voltar. De não poder mais usar a relação como abrigo, desculpa ou qualquer coisa que pudesse vir a ser. Havia medo de seguir em frente e descobrir que nada estava pronto. Que não existia plano. Que o futuro não era um lugar esperando, mas algo que teria que ser construído do zero. Esse medo ainda existe. Ele não vai embora com a decisão. Quando você deixa alguém, não perde só a pessoa. Perde a rotina. Perde o papel. Perde a narrativa que sustentava a própria permanência. O futuro que parecia certo morre. E ninguém fala o suficiente sobre isso. No final, sobra quem teve coragem de sair. Não forte. Não em paz. Só consciente de que continuar significaria se trair mais um pouco todos os dias. Sobra você Sem a dor conhecida. Sem o conforto do sofrimento repetido. Só você e a responsabilidade de aprender a existir sem precisar sangrar para se sentir viva.

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Anatomia da invisibilidade

Sinto como se fosse apenas um recipiente vazio, Existindo para saciar vontades que não são minhas. Colocada de lado quando não o faço, Reduzida a um enfeite silencioso Um troféu na estante de um ego frágil e egoísta  Uma doce ilusão  Dentro de uma realidade distorcida, nunca questionada. Um desejo imperfeito, Malfeito aos seus olhos. Nunca realmente vista. Nunca verdadeiramente ouvida. Nunca compreendida. Apenas usada. Apenas ferida. Com gestos que machucam sob o disfarce do afeto, E palavras que corroem e nunca acolhem. Sem profundidade. Sem abrigo ou acalento. "Quantas vezes você já foi amada?" Nenhuma - eu diria.

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Entre a Coragem e a Covardia

Entre a Coragem e a Covardia Há quem diga que abrir mão é um ato nobre. Porquê deixar ir é a maior prova de amor, é o que eles dizem.  Mas nem sempre. Abrir mão, muitas vezes,  é apenas o nome bonito que damos para o egoísmo covarde de nem tentar resolver algo que não entendemos direito.  É a covardia que vestiu o terno da autopreservação e aprendeu a falar bonito. Querer ir embora não é, por si só, um gesto de coragem. Em muitos casos, é apenas medo disfarçado.  Medo de se frustrar, medo de recomeçar, medo de se perder no outro. Ainda assim, esse medo demanda muita coragem.  Coragem de admitir que não dá conta, que sente demais, que não quer mais lutar contra o impossível. E nem precisa ir fundo pra saber que há algo de humano nisso. Porque ninguém quer doer para sempre. Eu me pergunto onde termina a coragem e começa a covardia. Será que é covarde quem insiste num amor que machuca? Ou corajoso, por se recusar a desistir? E será que é corajoso quem vai embora, ou apenas alguém cansado demais para continuar? A linha é tênue, tão fina que as vezes que é impossível distinguir.  Há dias em que eu me sinto covarde por querer desistir, e outros em que me sinto covarde por continuar. O paradoxo é inevitável.  Tem que ser muito corajoso pra ser tão covarde. Talvez a coragem não esteja em abrir mão nem em insistir. Talvez a verdadeira coragem esteja em olhar para dentro, sem romantizar a dor nem transformar a fuga em sacrifício.  Em simplesmente aceitar que amar é confuso, doloroso, difícil, contraditório. As vezes, é mergulhar no raso. E outras vezes, mesmo no fundo, saímos quebrados.  No fim, o que resta é só isso.  a consciência de que ser humano é viver no fio entre ficar e partir. E reconhecer que o único ato verdadeiramente nobre nessa merda é escolher o que é melhor pra si.

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Verdade ou torta

— Onde foi? — Onde foi o quê? — ela pergunta, confusa. — Que aconteceu... — ??? — Ela franze a testa. — Como assim? — Onde deu errado? Ele a encara com ternura e medo, disfarçados por um sorriso amarelo, quase imperceptível. Alguns segundos se arrastam antes que ela diga, com a voz baixa: — Você quer honestidade crua ou um pedaço de torta quentinha? Ela hesita. O silêncio pesa. Ele engole a maior parte da coragem, mas no fim... — Acho que honestidade crua. Pode não ser melhor, mas talvez, eu precise. — Ok — ela diz, meio contrariada, expirando toda a coragem que ele não conseguiu. — Bom... honestamente? Acho que eu estava errada desde o começo. Acho que não estamos na mesma fase. Queremos as mesmas coisas, mas de formas completamente diferentes. Podemos culpar nossos pais. Os meus, negligentes; os seus, superprotetores. Podemos falar dos vícios: dois alcoólatras e fumantes. Dizem que relacionamento entre fumantes é tóxico. Além disso, tem a dependência emocional e a irresponsabilidade afetiva... não tinha como dar certo. Ah, claro, e os traumas. Somos extremamente traumatizados. Dito isso, acho que nunca devia ter largado a terapia. Resumindo: estava tudo errado desde quando nascemos até o dia em que nos encontramos. Pra simplificar ainda mais... estava destinado a não ser. Uma lágrima escapa do olho dela ao dizer a última frase. Eles se encaram por mais um instante. Ele respira fundo e, finalmente, diz: — Era melhor eu ter aceitado a torta. Eles riem. Ele se levanta. Sai sem nem olhar para trás. E foi a última vez que se viram.

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Sobre viver, morrer e desaparecer

Desde criança, eu sempre fui fissurada pela morte. Ficava obcecada por tudo que a envolvia. Pesquisava, lia, perguntava sobre ela o tempo todo. Com o tempo, fui crescendo... e a minha obsessão pela morte também. Mas não por curiosidade. Não mais. Agora, era desejo. Ansiava por ela. Nunca tive coragem de buscá-la. Mas esperava, (im)pacientemente, que ela viesse ao meu encontro. Como quem espera por alguém que nunca chega, mas insiste em ficar à porta. Ao passar dos anos, a morte deixou de ser apenas uma presença silenciosa. Ela se tornou companhia. Não gritava, não exigia, mas estava ali. Sentada ao meu lado, enquanto eu fingia estar viva. Era como uma sombra que não precisava de luz para existir. Comecei a perceber que o desejo por ela não era sobre o fim. Era sobre o alívio. Alívio de não ter que continuar fingindo força. Alívio de não ter que explicar o vazio. Alívio de não ter que justificar a dor que não tem nome. Mas também entendi que a morte, por mais sedutora que pareça, não responde perguntas. Ela silencia. E eu ainda tinha perguntas demais. Foi aí que percebi, talvez, o que eu ansiava não era morrer. Era desaparecer. Sumir da expectativa dos outros, da cobrança, da imagem que criaram de mim. Desaparecer do papel que nunca escolhi interpretar. A morte se aparentava a liberdade. Mas talvez o que eu precisava era reaprender a viver sem medo. Sem medo de decepcionar. Sem medo de existir do meu jeito. Ainda penso nela. Não com o mesmo desejo, mas com respeito. Ela continua ao meu lado. Como uma lembrança de que tudo é finito, inclusive a dor.

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Cartas ao Destinatário

Eu quis tanto que fosse você. E talvez esse “tanto” tenha sido demais. Foi amor com pressa, esperança exagerada, como quem deposita tudo num futuro que sequer faz parte do presente. Falei de você pro motorista do ônibus das 22:20, numa noite em que tudo que eu sentia era a ânsia de te encontrar logo, e sentir o seu abraço, sua pele na minha. Falei de você pro porteiro do meu prédio, tentando disfarçar minha saudade atrás de uma conversa banal, que podia ser profunda pra mim, mas para ele era apenas papo furado, irrelevante alguns minutos após a minha saída. Contei pra minha amiga do ensino médio, porque certas lembranças pedem testemunhas antigas. Lembro da forma como ela sorriu quando mencionei você pela primeira vez, com mais esperança do que eu. Acredite! Falei pra minha irmã entre respirações curtas, pra ver se a dor diminuía cada vez que eu contava. Não acho que ela tenha realmente me ouvido, mas fingiu melhor do que de costume. Até pra Deus, como quem joga bilhetes no céu na esperança de resposta, eu tentei barganhar a minha felicidade ao seu lado. Passei semanas procurando um colo para me refugiar, um abraço apertado, ou um simples sorriso gentil.  Pedi que fosse você. Implorei aos quatro cantos da Terra, como quem não sabe mais pra onde olhar pra achar sentido.  Mas você não quis. E pra você talvez não tenha sido tão profundo, talvez tenha sido só um gesto, um segundo de distração que passou. E tudo bem! Porque mesmo com o coração em pedaços, eu descobri que ainda sei recolher cada pedacinho com o carinho e a paciência que eu mereço. Hoje sei que nem todo amor é pra durar, mas todo amor deixa algo.  Uma lição, uma força, uma versão minha que eu não conhecia, melhor e mais forte que a anterior. Eu sou feito de recomeços! E mesmo que não tenha sido você,  há beleza no que ficou.  Há força no que aprendi.  E há luz, ainda, no que vem pela frente.

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