Meira @SrtaMeira

Sobre viver, morrer e desaparecer

Desde criança, eu sempre fui fissurada pela morte. Ficava obcecada por tudo que a envolvia. Pesquisava, lia, perguntava sobre ela o tempo todo. Com o tempo, fui crescendo... e a minha obsessão pela morte também. Mas não por curiosidade. Não mais. Agora, era desejo. Ansiava por ela. Nunca tive coragem de buscá-la. Mas esperava, (im)pacientemente, que ela viesse ao meu encontro. Como quem espera por alguém que nunca chega, mas insiste em ficar à porta. Ao passar dos anos, a morte deixou de ser apenas uma presença silenciosa. Ela se tornou companhia. Não gritava, não exigia, mas estava ali. Sentada ao meu lado, enquanto eu fingia estar viva. Era como uma sombra que não precisava de luz para existir. Comecei a perceber que o desejo por ela não era sobre o fim. Era sobre o alívio. Alívio de não ter que continuar fingindo força. Alívio de não ter que explicar o vazio. Alívio de não ter que justificar a dor que não tem nome. Mas também entendi que a morte, por mais sedutora que pareça, não responde perguntas. Ela silencia. E eu ainda tinha perguntas demais. Foi aí que percebi, talvez, o que eu ansiava não era morrer. Era desaparecer. Sumir da expectativa dos outros, da cobrança, da imagem que criaram de mim. Desaparecer do papel que nunca escolhi interpretar. A morte se aparentava a liberdade. Mas talvez o que eu precisava era reaprender a viver sem medo. Sem medo de decepcionar. Sem medo de existir do meu jeito. Ainda penso nela. Não com o mesmo desejo, mas com respeito. Ela continua ao meu lado. Como uma lembrança de que tudo é finito, inclusive a dor.

Comentários · 1

  1. iago

    finalmente escreveu um poema sem ele como expiração

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    1. Meira

      Em compensação... KKKKKK eu sinceramente, adorei escrever esse texto, mas fiquei meio receosa de postar e virar, sei lá, gatilho pra alguém.

    2. iago

      ficou MT bom! n tem q ter medo desse poema, tem q ter medo de recair e escrever sobre ele dnv kk