Verdade ou torta
— Onde foi? — Onde foi o quê? — ela pergunta, confusa. — Que aconteceu... — ??? — Ela franze a testa. — Como assim? — Onde deu errado? Ele a encara com ternura e medo, disfarçados por um sorriso amarelo, quase imperceptível. Alguns segundos se arrastam antes que ela diga, com a voz baixa: — Você quer honestidade crua ou um pedaço de torta quentinha? Ela hesita. O silêncio pesa. Ele engole a maior parte da coragem, mas no fim... — Acho que honestidade crua. Pode não ser melhor, mas talvez, eu precise. — Ok — ela diz, meio contrariada, expirando toda a coragem que ele não conseguiu. — Bom... honestamente? Acho que eu estava errada desde o começo. Acho que não estamos na mesma fase. Queremos as mesmas coisas, mas de formas completamente diferentes. Podemos culpar nossos pais. Os meus, negligentes; os seus, superprotetores. Podemos falar dos vícios: dois alcoólatras e fumantes. Dizem que relacionamento entre fumantes é tóxico. Além disso, tem a dependência emocional e a irresponsabilidade afetiva... não tinha como dar certo. Ah, claro, e os traumas. Somos extremamente traumatizados. Dito isso, acho que nunca devia ter largado a terapia. Resumindo: estava tudo errado desde quando nascemos até o dia em que nos encontramos. Pra simplificar ainda mais... estava destinado a não ser. Uma lágrima escapa do olho dela ao dizer a última frase. Eles se encaram por mais um instante. Ele respira fundo e, finalmente, diz: — Era melhor eu ter aceitado a torta. Eles riem. Ele se levanta. Sai sem nem olhar para trás. E foi a última vez que se viram.
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