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Gessika Nielly

@NiellyS · desde 2024

@gessikanielly_

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História

Casa Vazia.

Ouço em meu profundo interior, A voz do silêncio tingir aos poucos cada rastro dos meus passos. E esse som... Ah, esse som é veemente e doloroso. A dor surge na nascente, porém ela também some, é engolida conforme o leito corre. Essa dor me traz a fúria, o fogo e a garra que mais tarde trará vitória. Porém o silêncio não conforta, pelo menos não inteiramente. Quando a solidão adentra cada canto do quarto, o silêncio é morno. A ingrime sensação de estar em paz. E a tão combatente sensação de estar em paz. Nessas horas, eu desapareço. As vezes quem surge é quem serei. Outras, quem eu fui. Quem sabe, quem eu teria sido. A verdade é que no presente sou de tudo um pouco. Afinal, quem teria sido eu sem todas essas dores? E esse presente? Ele existiria sem tantas batalhas encaradas pelo caminho? E o futuro... Ele é o que mais dói. As vezes a pergunta latente se irei prosseguir bem com a sombra de tudo que faz parte desse conjunto que sou, perturba. E essa sombra segue em mim. Quando fecho os olhos, consigo vê-la com clareza. E é nesse momento que eu desabo, eu sempre desabo. O coração tão puro e um olhar esperançoso, alegre, contente, felizardo... Eu desabo ao ver o passado, Eu desabo ao sentir o gosto da inocência. Tudo isso eu sinto fortemente. As vezes eu choro, outras nem consigo mais. O amargo da lucidez golpeia cada resto de ingenuidade que ainda resta, ou restava. Mas me encontro satisfeita. Eu diria que encontro descanso. Descanso esse que me traz ânimo pra escrever cada linha desse poema, que também me traz vida outra vez. Ainda que eu caia, sei que tem dia que é difícil, ainda que o choro seja presente na solitude (ou solidão, depende do meu momento). Eu sigo. É da minha sabedoria que todo dia alguém com uma nascente como a minha, ou com raízes afrouxadas, cicatriza a mesma ferida. Seguiremos, Tentando estancar cada fluído, E renovando tudo que empalideceu.

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Bíblia

Razões.

Não vim acertando, Na minha suma incerteza. Porém, o Senhor se fez presente. Apesar da minha luxúria e amargor. Sinto em meu paladar, Como um mel acentuado, O gosto da vitória, Que ganhei no pleno cuidar. Nesses versos, Que partem do meu âmago, Eu sinto a sua presença a me guiar. Afinal, Sou apenas um barco sem rumo e vazio. O meu fim é insignificante, tardio, Sem teu velejo. Tu que estiveste ao meu lado, Ainda que eu não tenha percebido, Em meus choros e derrotas, Na minha batalha, alado. Aqui, queimo de amor. Eu sinto teu agir em minha vida. Eu posso sentir teu esplendor. Quero te ter tão perto, senhor. Ah! Que todos possam te ver. Que seu toque seja lançado sobre cada vida, Sobre cada coração, E que todos provem, de antemão, a tua presença linda.

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Vida

A Felice Bonança Vazia P2.

A fase da aceitação. Eu olhei pra trás, e notando que meu passado foi a guinada para construir meu futuro, o vazio que eu sentia tomou prumo. Eu a deixei pra trás. Essa fato soou amargo em minha boca. Não como culpa. Mas como clareza pois ao olhar pro meu passado, nunca enxergaria as mesmas razões e motivações que ela tinha para agir. Ela agiu. Mas agiu conforme as forças que tinham lhe restado e com o possível que o destino a permitiu. Repeti o que ela já imaginaria que podia acontecer, supri as expectativas que ela tinha que já eram abaixo do baixo, e isso vinha como um peso tão grande na consciência que ainda que estivesse no alto, ao final do dia algo sempre me jogava de novo ao chão. Eu não soube amar. E ela também não sabia. E por meio de mim, além de continuar sem saber, ela ainda conheceu a dor e o amargor do abandono, que alguns meses depois seria um peso tão grande, machucaria tanto o coração a ponto dele pedir parada na vigésima quinta estação. E assim, eu também nunca pude conhecer o amor. Mas levei comigo uma única certeza da chance desperdiçada que a impaciência me causou. Ela poderia ter me amado. Talvez ela já me amava. E eu poderia tê-la retribuído. Hoje, me despeço com a falta cortante de uma ausência jamais despercebida.

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Vida

A Felice Bonança Vazia P1.

Eu acho que naquela noite eu conheci uma parte dela que ainda não me pertencia. Os olhos marejados, vibrando em lágrimas e as mechas do cabelo que faziam uma cortina sobre aquele rosto que parecia uma pintura. E o mais louco: Ela não falava uma palavra. Ela não me falou sequer uma frase. Porém o silêncio era gritante e imersivo de uma forma que eu podia entender e decifrar cada canto e pedaço da atmosfera sobre a gente. Eu via os seus olhos e enxergava a doçura e a meiguice que havia se perdido ao longo dos anos. O que era irônico, pois a menina que estava na minha frente também era a mesma menina que me olhava com uma constelação penetrante a cada minuto. Assim eu me atentei a cada detalhe, guardei aquela imagem em minha memória por muito e muito tempo. Visto que depois dessa noite, não nos vimos mais. Eu a deixei. Precisava me reorganizar da bagunça que ela tinha feito. Precisei respirar e levantar minha cabeça, aceitar o futuro que me pertencia e a vida cheia de promessas que nunca permiti que fossem cumpridas. E essas promessas foram aceitas. E elas se realizaram. A vida cheia de bonança, mas repleta também de uma felicidade vazia. Eu pensei que fosse capaz de me preencher ao cumprir tudo que havia me prometido um tempo atrás. Mas era insano que continuava aqui, que me acompanhou durante todo tempo, sem soltar por um minuto, a imersiva tristeza de ter deixado algo pra trás. Foi o momento em que deixei cair minhas máscaras, despi minha alma por completo ao enxerga-la novamente em minha frente. A julguei em silêncio. Pois havia se passado cinco anos e nada nela e nem pra ela havia mudado. Ou melhor, hoje ela conseguiu voar do ninho. Mas sua conquista foi unicamente essa. Se é que pode chamar de conquista, seus olhos continuam opacos e marejados. Então, como se fosse capaz de decifrar meu pensamento, ela solta uma frase crua e palpável - Hoje percebo que minha maior prisão é não conseguir sustentar um aperto de mão - o mundo se calou no momento em que percebi que ela não chorou, mas a voz estava embargada.

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Vida

Sopro do naufrágio P.1

Mergulho no puro e intrínseco silêncio do meu vasto interior onde o quieto telão de memórias sem cores vivas me transportam para o contraste nítido da fantasiosa meninice. Risos tão claros, fios emaranhados e no profundo: olhos marejados. O véu de imagens composto por um céu azul, uma casa humilde e infinitas brincadeiras, se transforma em um outro cenário. Esse não é mais tão bonito. Ele é meloso, profundo e obscuro. Todo o mural de luz do cenário anterior é moldado em uma lembrança de gosto amargo. Agora os risos são choros reprimidos, e os fios emaranhados é um sinal do descuido da noite melancólica anterior. Os olhos marejados ganham sentido e uma tal clarividência que nunca havia me atingido antes, toma forma, cor e lucidez. E o mergulho vasto que eu havia dado, se torna ainda mais submerso ao enxergar por inteiro a face daquela criança. Ao ver o desenho perfeito de um tempo de inocência que foi completamente destruído. Nesse momento, um rio de águas revoltas deságua em meu olhar pois teria ali conseguido chegar ao ponto base que fez com que o jardim da minha alma fosse completamente corroído e jogado ao léu. Para que encontrasse o amparo para enxergar o pôr do sol novamente, que tanto senti falta naquela vastidão turva do mergulho, foi necessário desacelerar e retornar a memória inicial daquele rosto de sossego e afago. E, não há nada que tenha sido tão difícil até aqui como resgatar o alvor da alma onde tinha deixado de ser morada da pureza há muito tempo. Isso foi mais difícil do que o rio em fúria que parecia sufocar meu pescoço, o corpo já não possuía força física. Eu emergi.

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Serenidade

Isso é sobre resiliencia (e passarinhos).

Silêncio a beira do mar, Barcos, velas e rios, Navios a velejar. O som do outono tão frio, A brisa leve a visitar. Choro do topo vazio, Deleite a sombra do lar. Pássaro canta em brio, Em seu ninho a criar, Meia-dúzia de passarinhos, Que breve irão planar. Desafios surgem em torvelinhos, E ainda estão a sibilar, Afastando o estio, E a chuva a se convidar. Com esse grande desvio, A noite gélida está a chegar, Imersos no ninho quentinho, Exaustos de celebrar, A derrota contra os torvelinhos, E o grande ato de continuar. Pois em meio a ventania, Não se cansaram de melodiar.

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Sociedade

Fim de linha.

Ouço o pavoroso ruído, Que emite o televisor: É notícia, novela, Ou um filme de terror? "Homem é morto aos 42 anos" Informa o narrador, A história do rico e influente, Assassinado sem temor. Era uma quinta ensolarada, Quando alguém me denunciou, Sendo mocinha ou vilã, O dolo se confirmou. O olhar era meio acinzentado, E o aroma bastante azedo, A pele pálida como neve, E a finada expressão de medo. Foi o que sobrou do corpo robusto, E não houve quem testemunhou, O crime quase perfeito, Traído pela boca que confessou. As algemas cercando o punho, Vivendo cercada por quatro muros, É um cemitério de gente viva, Um custo alto, um preço duro. Não há saída do plano térreo, Sem alto preço para pagar, E por motivos com esses, O que motivou a matar? A narrativa da mulher violentada, O chefe da casa risonho mas abusivo, Com duas personalidades, Distintas como o infinito e o finito. Sem a linha tênue da cela e do lar, Vivendo socialmente presa, Naquele crítico e famoso drama, Sem outro rumo a tomar. E eis que me perguntam; Era necessário mesmo matar? E com um sorriso, eu respondo, Que outro jeito iria tomar? Uns veem a intensa brutalidade, Do topo morto e opaco, Eu vi as consequências De uma mulher só os cacos. E hoje, duas décadas depois, Início minha reintegração, Do lado de fora sendo aplaudida, Por quem entendeu o meu crime como solução. E eu de dentro daquela cela, Despertei mais espirito acolhedor, Que o corpo no matagal, Largado e sem um dado valor.

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Sociedade

Depoimento de um condenado (Parte 2/2)

Iniciando a trajetória de um ex-prisioneiro, Fui flanela, fogueiro e padeiro... Tentando conseguir dinheiro, Pra mudar minha vida por inteiro. Sem uma borracha da vida, Não pude apagar aquela rota perdida, Perdi o emprego e o dinheiro pra comida, Preso em um beco sem saída. Largado em um batente quebrado, Não tinha nem cinco centavos, Para cobrir meu estômago esfomeado, Assim era constantemente observado. Depois de muito olhado, Há quem notou meu estado desolado, Então para um abrigo fui mandado. Ali seria renovado. Mesmo um pouco atrapalhado, E do meu passado, envergonhado, Fui ficando alinhado, Até para um novo emprego fui chamado. O tempo tomando as rédeas e os caminhos, Ainda que cheio de espinhos, Estrada que eu iria trilhar sozinho, De raminho a raminho. Quando foi vista a minha transformação, Encheu-se meu coração, De tamanha satisfação, Por essa tomada de decisão. E o destino acolhedor, Devolveu o meu valor. Da minha vida, virei o escritor. Relatando sempre o meu louco interior. Nessa caminhada, encontrei minha paixão. Que por uns três anos, foi apenas ilusão. Mas hoje é o motivo dessa exaltação, Aquela que me incentivou a abrir o coração. Fui de inocente a culpado, De culpado a trancado, De trancado a desolado. Hoje sou realizado, e no mais, um bobo apaixonado.

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Sociedade

Depoimento de um condenado. (Parte 1/2)

Passei por esse mundo louco, Andei de um jeito meio torto, Cheguei a ser quase morto, Tardei em sumo desconforto. Na vida detrás do xadrez, O tempo passava, mês em mês, E eu tratado naquela rigidez, Sobrevivendo na mísera escassez. Apontava o tempo na singularidade, Como supôs o velho amigo Einstein, No buraco negro, a dura eternidade. E de vez em vez, assim eu via o cárcere. O sistema prisional não delatado no jornal, Calava a má estrutura judicial, Fazia do crime local, Uma febre nacional. Fui um em meio a vários marginais, Que veem na vida do crime, os pilares sociais. O altivo jeito de colecionar rivais, Cego pelos práticos êxitos pessoais. E eu era o preso mais isolado, Visita familiar? Não é coisa de rejeitado. E perguntaram o motivo de ter sido trancado; Ah, eu respondi: me pegaram drogado. Diria eu que não possuo sangue na mão, Mas sei que isso seria invenção. Pois passei a possuir ao trair minha criação, Desviando meus valores atrás de "realização". Minha mãe morreu, faleceu de decepção. E quando a droga tomou tal dimensão, Passei a dever ao chefão, que levou meu irmão Como uma cruel solução. Sangra mão, pé e orelha, As vividas memórias em uma chama vermelha, O vasto reinício parte em uma centelha, Desvelando as drogas de qualquer guelha.

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Sociedade

1964

Clamo pela independência De pairar sem pudor, Em ânsia por um futuro, Futuro esse sem temor. Onde a brisa jogue para longe Toda a louca normatização. E todos manifestem certo criticismo A esse sistema de desumanização. Onde o preto calado, É constantemente segregado. E aquele que se opõe, cansado, Vive para sempre trancafiado. A violência nos segue e não se rompe. E se for para o xadrez, Não há dinheiro que compre Aquela dignidade que se esconde. Eles eram para nos proteger. Pelo menos assim era, Antes do dinheiro os corromper. Maldita era para viver. Em uma nova autocracia, Lá se vai a democracia... Pela qual lutamos De santo em santo dia. E não posso me expressar, Sou louco se esse poema recitar, E se desse papel chegar a voar, O meu defunto há de encontrar.

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