Sopro do naufrágio P.1
Mergulho no puro e intrínseco silêncio do meu vasto interior onde o quieto telão de memórias sem cores vivas me transportam para o contraste nítido da fantasiosa meninice. Risos tão claros, fios emaranhados e no profundo: olhos marejados. O véu de imagens composto por um céu azul, uma casa humilde e infinitas brincadeiras, se transforma em um outro cenário. Esse não é mais tão bonito. Ele é meloso, profundo e obscuro. Todo o mural de luz do cenário anterior é moldado em uma lembrança de gosto amargo. Agora os risos são choros reprimidos, e os fios emaranhados é um sinal do descuido da noite melancólica anterior. Os olhos marejados ganham sentido e uma tal clarividência que nunca havia me atingido antes, toma forma, cor e lucidez. E o mergulho vasto que eu havia dado, se torna ainda mais submerso ao enxergar por inteiro a face daquela criança. Ao ver o desenho perfeito de um tempo de inocência que foi completamente destruído. Nesse momento, um rio de águas revoltas deságua em meu olhar pois teria ali conseguido chegar ao ponto base que fez com que o jardim da minha alma fosse completamente corroído e jogado ao léu. Para que encontrasse o amparo para enxergar o pôr do sol novamente, que tanto senti falta naquela vastidão turva do mergulho, foi necessário desacelerar e retornar a memória inicial daquele rosto de sossego e afago. E, não há nada que tenha sido tão difícil até aqui como resgatar o alvor da alma onde tinha deixado de ser morada da pureza há muito tempo. Isso foi mais difícil do que o rio em fúria que parecia sufocar meu pescoço, o corpo já não possuía força física. Eu emergi.
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