Um poeta do destino
Sem um mapa nem noção
Não sabe o que faz com o que sente
Promessas para pura ilusão
Sofrendo deixa de conformar
Mas continuando torna a noção.
Poeta da promessa
Que não sabe o refrão
Vê com dois e se compara
Cospe e tange com escarra
Mesmo encabrestado e pidão
Encalho do destino
Cegueira visceral
A busca acha a dor
a vontade cospe o perdão
Morre etéreo e infame
A promessa de seus irmãos.
Noite de muitas relvas
Céu de tingidor
Quem és tu no grande termidor?
Que tanto gaba mas geme
Aceitando o inefável servidor.
Ser poeta de poetas um dito prometido
Mas basta a esperança com temor
Ainda que entulhe e cambaleie o tal do escritor.
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A neve cai lá fora, fria como aço criogenado
Só quem mais precisa anda pelas ruas a essa hora
Os carros andam com dificuldade
A neve lhes penetra desde as juntas
E esfriam os motores suburbanos.
Quando abre-se a boca na neve lá de fora
Vê-se uma nuvem de vida se formar
E face a face você percebe a sensibilidade
Que só algo como a vida poderia ter
Porque nos protegemos da neve para ter como correr
E viver mais algumas horas de uma vida sutil.
Quando neva lá fora, as folhas param de viajar
As aves cessam de granjear
Os insetos saem sem nem demorar
Porque o frio não perdoa os fracos
Não amansa os de coração quente
Ela quer esfriar o que sente
Conformar o que entende
Que assim será até a neve cessar.
Quando a neve cai lá fora, as latas de lixo parecem castiçais
Uma imundícia disfarçada de prudência
Que continua guardando lixo
Mas que não presume deixar de aparentar plenitude
Porque achem o que achar
Nunca algo podem mudar.
É que ninguém lembra das latas de lixo
Deixadas nas calçadas
Na neve lá fora
E que é quando neva lá fora
Que eu percebo
A extasia da mansidão
O acaso advento da paixão
Que me romantiza o fato de então
Ser só eu, só eu e a solidão.
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Uma vez eu quis escrever uma poesia.
Não sabia por onde começar.
Fiz que queria saber, fui investigar.
Poesia é feita do pensar.
Então por que quer escrever?
Pois quero sobre sentimentos falar
Pois quê? Onde está?
Era sobre uma moça, uma de beleza singular
Engraçado que quando nela pensava, não sabia o que deflagrar.
Mas então me fugiram os sonetos
As rimas foram passear
Pois ela de mim não gostava
Queria mais me baratear.
Então meu sorriso se sumiu
Meu sentimento ruiu
E a poesia, pra outra moça, vou deixar.
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Não sei. Sei lá.
Não sei ler. Só ouvir.
Não sei tocar. Só refletir.
Não sei escrever. Só protelar.
Não sei amar. Só adiar.
Não sei dizer. Só titubear.
Não sei sorrir. Só tentar.
Não sei sentir. Só ficar.
Não sei nada. Quiçá.
A única coisa que sei é pensar.
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Mas que delícia este século
Andem, andem, Ele virá
Toda chaga, todo torpor findará
Porque amaste, quiçá, sanguinolentos
Por favor, chegue, pare estes dias truculentos
Vive o bem, sobrevive o mal
Mas às portas há Um celestial
Olhem e vejam: é O profeta!
Sim, ele virá como um poeta
Anunciando os júbilos de seu Pai
Matando um deus foeta
Reunirá os sazonados; os abraçará
Paguem, expiem, Ele os amará
Todo ser a cantar:
Venit tempus! Chegou a hora do rei, em paz, reinar!
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Quantas folhas. São memórias?
Leria com um pouco de raiva estes termos
Por que deveria queimá-las?
O cheiro seria terrível e a dor profunda
Se é que criança anda e afunda
Bate bola no chão
No chão a bola bate e em mim também
Caramelos e balões, saiam do colchão
Papiros! Parecem papiros! Não me lembrava disso!
Também que tocá-los traria sorrisos.
Isto era lá atrás? Oi, jovem semente.
Pois não? Queimou-os? Ah, Tudo bem.
Eles precisam ser esquecidos
Não há mais tinta para tanto papel
Amo ser velho, novo como tal
Ter o olhar de pureza
O vigor e a esperteza de um pretérito jovial
Belas minhas rugas, não?
Ontem fui moço e hoje sou velho
De muitos conselhos e bloqueios
Não escrevo mais, ainda amo meu ursinho
Ainda tenho a vida como qualquer criança ama.
Mamãe dizendo: não vá com caramelos para a cama.
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Até quando terei eu que esperar?
Minhas botas não fazem primavera
Sinto que esse alguém nunca vai chegar
Minha vida é suficiente nessa era.
Sobre a luz do sol e a fria neblina
O universo observa e ri das nossas alucinações
Um teatro sem plateia, vidas sem realidade
Ao menos, com isso, conseguimos superar.
O amor não existe, ou ainda não o vi
Ontem gosto, hoje ama, amanhã parte daqui
Deixando o coração pesado, ah bagagem infeliz
Ela me deixou.
E eu, poeta e pesador, fico ao compasso do universo
No banco da praça sorrindo os pesares da vida.
E eu? Hei de ficar só
Se o amor existe deixe-o pra lá
Não quero mais procurar, tampouco aguardar
Diga-me: até quando terei que esperar?
Sou compreensivo e conformado
Talvez, deste sentimento, manipulado
Prefiro o platônico, o imaginário
Sou homem que ama, porém solitário.
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Fati, fati, fati
Que coisa absurda, mas decerta
Veja o caos comum, como é formoso
Por que tal coisa, não se sabe
Quando este respiro perdeu a linha?
Em que era foi-se a beldade?
Veja tudo tão sádico e egoísta
Onde está o meu amor?
Por que secos estão os olhos?
Poderia viver sem tal direito?
E a praga da injustiça?
E essa dor que só empetece?
Nada se perde, nada se cria
Tudo empobrece.
Posse do amor ou amor por posse?
O meu já se acabou, sumiu.
E à luz da razão sanou, ao escuro da verdade fugiu.
Por que tanto odor onde há dor?
Fati amor ou amor de funil
E o que me diz do sofrimento anil?
Era porque o homem arrefeceu
Ou simplesmente, de si, não se arrependeu?
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Dane-se o que os outros pensam
Dane-se o que pede o impulso
Dane-se aquilo o que folículos pensam.
Estar só não significa sentir-se só.
Sinto-me normal, mas logo se dissipa
Penso razão como homens são
Mas dane-se o que sinto, bem será a razão
Não é para isso a luz?
Minha carne será vendida!
Minha mente me transcende
Meu corpo se ascende
Mas não é o trilho regular
Não que a vida me dirija
Mas também não sou livre.
Dane-se os folículos
Estou triste, mas dane-se isso
O que chamam de felicidade é podre
O que acham podre é simples
O que é simples tem sementes de felicidade
Simplesmente viva! Não reflita
O choro vem com o vazio
A angústia, pela comparação
Viver é um doce! Para muitos, amargo.
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O livro na estante com corpo alvo e limpo
As páginas vão passando e as letras indo
A luz jovem erradeia e os aquece
E isso é o que, todos os dias, se repete.
As luas trocam e o monte cresce
As folhas amassam e difícil parece
Mas o monte cresce
Na leitura contínua a poeira repousa no papel
A estante balança e alguns caem
Eles criam pernas e são arrastados
Voltam a crescente pilha com pouco atraso
O monte para e os rasgos se atenuam
Finda-se, e o vento sopra leve
E de cair e fracassar
Os ácaros deles se apossam
Porque quando livros se fecham
Não voltam mais
Os parágrafos se ofuscam do papel
Mas dos novos livros, não apagar-se-ão jamais.
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