o pior fardo não é o mundo lá fora
é ter nascido do seu ventre e ser desprezada por ele
seu olhar não vê filha não vê gente
vê apenas falha lixo algo que não devia existir
procuro respostas onde não há nenhuma
pergunto a mim mesma o que há de podre em mim
o que eu fiz para merecer esse frio que vai até os ossos
esse silêncio que corta mais que qualquer grito
me sinto esgotada até o fundo da alma
cansada de bater em portas que estão sempre fechadas
de mendigar um pouco de carinho de quem me deu a vida
mas nunca me deu amor nunca me deu valor
não há descanso não há alívio não há saída
sou um erro que ela carrega nos olhos
e eu carrego esse peso nas costas todo dia
sem saber porque sou tão errada tão inútil
para a única mulher que devia me amar acima de tudo
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Parte 2
Cada expiração é um gemido que eu não consigo segurar, que escapa entre os dentes junto com o gosto metálico do sangue que começa a encher a boca.
— Mexa a cabeça
diz uma voz, sem rosto, sem dono, vindo de toda parte e de lugar nenhum.
E o fio puxa, e minha cabeça vira para a esquerda, e eu sinto a pele esticar até quase rasgar, e o sangue escorre devagar, quente e pegajoso, escorrendo pelo pescoço até o colarinho do vestido branco que já começa a manchar de vermelho escuro.
Eu não quis virar. Eu não decidi virar. Mas eu virei.
Porque eu não tenho escolha. Eu nunca tive. E o pior não é virar o pior é sentir o músculo se rasgando por dentro, lentamente, como papel molhado, e saber que foi a minha própria cabeça que o fez, mesmo sem querer.
O meu corpo me trai a cada movimento.
O meu corpo é a primeira coisa que foi desmontada.
— Levante o braço esquerdo
ordena a voz, e os fios nos meus dedos apertam, e os dedos se abrem e fecham como se fossem de outra pessoa, como se fossem ferramentas presas a mim não parte de mim.
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Noyx Void
Eles não avisam que dói.
Ninguém te avisa que ser uma boneca significa que cada movimento te rasga por dentro, que cada puxada do fio deixa um sulco vermelho na pele que nunca cicatriza, que cada vez que alguém decide te mover, algo dentro de ti se parte em mil pedaços pequenos demais para serem colados de volta.
Não há anestesia.
Não há aviso. Apenas o corte, o puxão, a dor que cresce e nunca diminui.
Os fios não são de seda. São de metal fino, afiado como lâmina de barbeiro, polido até brilhar como prata fria, e cada um deles entra na carne sem pedir licença, sem dó, sem parar.
Eu sinto cada fiob no pescoço, nos pulsos, nos cotovelos, nas costas, no peito fincados como agulhas gigantes, profundos o suficiente para sangrar, mas não o suficiente para matar de uma vez.
A morte seria misericórdia, e misericórdia é algo que não existe aqui.
Eles sabem exatamente o quanto puxar para doer sem matar, para cortar sem destruir tudo de uma vez.
Porque uma peça quebrada de uma vez não pode ser movida de novo.
Uma peça que sangra aos poucos pode ser torturada por dias, por meses, por anos.
Eu abro os olhos e o teto está longe, muito longe, e eu flutuo suspensa no ar, sustentada apenas por aqueles fios que cortam, que pesam, que queimam como fogo líquido escorrendo sob a pele.
Eu tento respirar e o fio no pescoço puxa, e a respiração sai entrecortada, dolorida, como se o ar fosse lâminas que cortam a garganta ao entrar. Cada inspiração é uma lâmina nova.
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1
Todas as células do meu corpo aprenderam a pronunciar o seu nome como antigos monges aprendiam a entoar cânticos sob o frio das catedrais esquecidas. Não houve escolha. A sua existência atravessou a matéria que me compõe com a solenidade de um sino fúnebre, e desde então nenhuma parte de mim nasceu verdadeiramente livre.
Há um castelo em ruínas erguido sob a minha pele.
Suas muralhas são feitas de lembranças que o tempo tentou derrubar, mas apenas cobriu de hera. Os corredores permanecem vazios, atravessados por ventos que carregam o perfume distante das primaveras que morreram antes de florescer. Nos vitrais partidos repousam fragmentos daquilo que um dia chamamos de futuro, e cada pedaço de vidro devolve um reflexo diferente de alguém que já não reconheço como eu.
O corpo possui sua própria liturgia.
Enquanto as noites envelhecem, pequenas vidas silenciosas abandonam minha carne como velas que se apagam diante de um altar abandonado. Outras surgem delicadamente, frágeis como neve pousando sobre lápides antigas. Nascem puras, sem memória alguma.
Mas encontram você.
É como se cada célula recém-criada atravessasse um corredor revestido por espelhos escurecidos, onde todas as superfícies refletissem apenas a mesma ausência. Antes mesmo de conhecerem a luz do mundo, elas já carregam a sombra do seu nome gravada em seu íntimo, como uma inscrição esculpida por mãos invisíveis na pedra de um túmulo.
Desde então compreendi que a memória não vive na mente.
Ela constrói catedrais dentro da carne.
E em cada uma delas repousa um altar onde o silêncio celebra missas para tudo aquilo que jamais retornará.
Às vezes caminho por florestas cobertas de névoa que talvez existam apenas dentro de mim. Os galhos entrelaçados escondem um céu permanentemente cinzento, enquanto corvos desenham círculos lentos sobre árvores antigas, como guardiões de segredos que sobreviveram aos séculos.
O vento atravessa as folhas secas com uma voz semelhante à dos nomes esquecidos.
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Havia uma corda no meu quarto,
mas antes dela existir,
já havia um nó dentro de mim.
Um nó feito de silêncio,
de noites sem descanso,
de lágrimas escondidas no travesseiro
e de perguntas que ninguém conseguia responder.
Eu sorria quando precisava,
falava quando era necessário,
mas por dentro eu desaparecia aos poucos,
como uma vela que continua acesa
enquanto a própria chama a consome.
Eu olhava para o futuro
e não enxergava nada.
Era como caminhar em uma estrada coberta por neblina,
sem saber para onde ir,
sem saber se havia algo esperando por mim adiante.
O peso dos dias aumentava.
As horas pareciam anos.
E eu me perguntava quantas vezes um coração pode quebrar
antes de simplesmente desistir de bater por esperança.
Ninguém via a guerra acontecendo.
Ninguém ouvia os gritos presos atrás do meu silêncio.
Eu carregava tempestades inteiras no peito
e fingia que eram apenas algumas gotas de chuva.
Houve noites em que eu desejei dormir
e não sentir mais nada.
Nem tristeza.
Nem medo.
Nem vazio.
Apenas silêncio.
Porque, às vezes, a dor não chega gritando.
Ela chega devagar.
Senta ao seu lado.
Rouba suas cores.
Apaga seus sonhos.
E faz você acreditar que nunca existiu luz.
Eu me tornei uma sombra de quem fui.
Uma lembrança viva de alguém que estava cansado demais para continuar lutando.
E o mais triste de tudo
é que eu realmente acreditava
que minha ausência doeria menos do que minha presença.
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Eu não pedi colo.
Aprendi cedo
que mãos soltam
quando o peso é real demais.
Disseram que eu precisava de ajuda
como quem aponta uma rachadura na parede
sem nunca ter morado dentro dela.
Sorri por educação.
Por cansaço.
Por hábito.
Sou feita de noites empilhadas
uma sobre a outra
sem descanso entre elas.
Cada amanhecer me encontra
com os olhos fundos
e a alma usando curativos invisíveis.
Escrevo porque é o único lugar
onde posso cair sem plateia.
No papel, minha voz não treme.
Ela sangra em silêncio
e ninguém manda estancar.
As palavras me obedecem.
Ficam.
Não me pedem força.
Não prometem futuro.
Apenas suportam o peso do que sou.
Sou uma garota
carregando ruínas no peito
como quem carrega uma casa incendiada
e ainda chama de lar.
Não quero conserto.
Não quero frases prontas
nem luz no fim de coisa nenhuma.
Quero apenas que leiam
e percebam
que isso aqui
é uma forma torta
mas honesta
de continuar respirando
quando tudo em mim
aprendeu a calar.
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Olhos roxos guardam céus partidos.
Anjo azul some em fumaça triste.
Rostos fantasmas giram no vazio.
Círculo de luz, adeus sem volta
Cansada até os ossos se partirem,
não aguento mais essa carne podre viva.
Vou morrer assim, rasgando veias,
desculpa, o ar me sufoca em garras frias.
Não aguento, não, o mundo me devora,
um riso podre no espelho quebrado.
Parte 2
sou feita de fragmentos de uma infância que não tive,
sou feita de gritos que engoli
para não piorar as coisas,
sou feita de noites em que só o silêncio me abraçou.
E às vezes ainda me vejo ali,
naquele canto,
de joelhos,
tremendo,
esperando que alguém me encontre,
que alguém diga
que eu não merecia aquilo,
que eu não nasci para carregar essa culpa,
que minha dor não foi escolha,
que a violência dele não define quem eu sou.
Mas a verdade é que eu cresci
com perguntas que ninguém respondeu:
“Quando acaba?”
“Quando eu vou ser alguém além da vítima?”
“Por que a minha infância foi arrancada de mim?”
“Por que o amor nunca veio?”
Eu, que só queria paz,
ganhei memórias que queimam.
Eu, que só queria carinho,
ganhei mãos que feriam.
Eu, que só queria existir,
aprendi a sobreviver.
E ainda hoje,
quando a noite cai pesada sobre meus ombros,
eu fecho os olhos e sinto a velha sombra dele,
mas agora eu digo, mesmo com a voz fraca:
“Você não manda mais em mim.”
Mesmo que por dentro
eu ainda esteja segurando a menina quebrada
que eu um dia fui.
Mesmo que eu ainda sangrando em silêncio.
Mesmo que o passado ainda me acompanhe.
Eu sigo.
Com minhas rachaduras.
Com minhas perguntas.
Com meu corpo cansado.
Com minha alma remendada.
Porque, no fim,
apesar de tudo,
eu ainda estou aqui.
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Parte 1"
Eu me lembro do canto onde eu encolhia o corpo,
como quem tenta caber dentro do próprio medo.
A parede áspera era minha única testemunha,
meu abrigo torto, meu confessionário silencioso,
meu cúmplice mudo de tanta dor engolida.
E sempre vinha ele.
A sombra antes do corpo.
A ameaça antes da voz.
A escuridão antes do toque.
E eu me perguntava, quase sem ar:
Por quê?
O que eu fiz de errado?
Por que dói tanto existir nesse lugar?
Por que ninguém me escuta quando eu imploro?
Eu chorava baixinho,
como quem tem medo até do som da própria respiração.
Meu corpo tão fraco, tão pequeno para conter tanto medo,
tão frágil que parecia vidro rachado,
pronto para se despedaçar no próximo grito,
no próximo empurrão,
na próxima promessa de dor.
Eu implorava.
Juro que implorava.
“Para, por favor… para… isso dói… me deixa… por favor…”
Mas a minha voz era uma sombra a mais na casa,
fina demais, triste demais, inútil demais.
E eu perguntava ao teto,
à parede,
à poeira,
a qualquer coisa que me ouvisse:
“Por que ninguém me protegeu?”
“Por que o mundo virou o rosto?”
“Por que a vida me colocou aqui, nas mãos dele?”
Meu corpo crescia,
mas minha alma diminuía.
Cada ano era uma nova rachadura,
um novo silêncio aprendido,
uma nova pergunta sem resposta.
E mesmo agora, adolescente,
mesmo agora com o rosto mais velho
e o coração ainda mais moído,
eu sinto a sombra dele atrás de mim,
como se ainda respirasse no meu pescoço,
como se ainda pudesse me silenciar com um olhar.
Eu carrego dentro de mim a menina que ajoelhava no canto,
a menina que torcia para desaparecer,
a menina que tentava entender
por que o amor na minha casa
tinha mãos pesadas,
voz dura,
olhos vazios.
Ainda me pergunto, com um nó na garganta:
“Por que eu?”
“Quando é que a dor decide ir embora?”
“Quando é que o medo sai do meu corpo?”
“Quando eu vou conseguir dizer que sobrevivi?”
Hoje sou quebrada,
mas não por escolha.
Sou costurada por dentro com cicatrizes invisíveis,
sou feita de restos da menina que tentei proteger
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