MANUAL PARA DESMONTAR UMA PESSOA
Parte 2 Cada expiração é um gemido que eu não consigo segurar, que escapa entre os dentes junto com o gosto metálico do sangue que começa a encher a boca. — Mexa a cabeça diz uma voz, sem rosto, sem dono, vindo de toda parte e de lugar nenhum. E o fio puxa, e minha cabeça vira para a esquerda, e eu sinto a pele esticar até quase rasgar, e o sangue escorre devagar, quente e pegajoso, escorrendo pelo pescoço até o colarinho do vestido branco que já começa a manchar de vermelho escuro. Eu não quis virar. Eu não decidi virar. Mas eu virei. Porque eu não tenho escolha. Eu nunca tive. E o pior não é virar o pior é sentir o músculo se rasgando por dentro, lentamente, como papel molhado, e saber que foi a minha própria cabeça que o fez, mesmo sem querer. O meu corpo me trai a cada movimento. O meu corpo é a primeira coisa que foi desmontada. — Levante o braço esquerdo ordena a voz, e os fios nos meus dedos apertam, e os dedos se abrem e fecham como se fossem de outra pessoa, como se fossem ferramentas presas a mim não parte de mim.
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