Inferno Poético @pessoafria

MANUAL PARA DESMONTAR UMA PESSOA

Noyx Void Eles não avisam que dói. Ninguém te avisa que ser uma boneca significa que cada movimento te rasga por dentro, que cada puxada do fio deixa um sulco vermelho na pele que nunca cicatriza, que cada vez que alguém decide te mover, algo dentro de ti se parte em mil pedaços pequenos demais para serem colados de volta. Não há anestesia. Não há aviso. Apenas o corte, o puxão, a dor que cresce e nunca diminui. Os fios não são de seda. São de metal fino, afiado como lâmina de barbeiro, polido até brilhar como prata fria, e cada um deles entra na carne sem pedir licença, sem dó, sem parar. Eu sinto cada fiob no pescoço, nos pulsos, nos cotovelos, nas costas, no peito fincados como agulhas gigantes, profundos o suficiente para sangrar, mas não o suficiente para matar de uma vez. A morte seria misericórdia, e misericórdia é algo que não existe aqui. Eles sabem exatamente o quanto puxar para doer sem matar, para cortar sem destruir tudo de uma vez. Porque uma peça quebrada de uma vez não pode ser movida de novo. Uma peça que sangra aos poucos pode ser torturada por dias, por meses, por anos. Eu abro os olhos e o teto está longe, muito longe, e eu flutuo suspensa no ar, sustentada apenas por aqueles fios que cortam, que pesam, que queimam como fogo líquido escorrendo sob a pele. Eu tento respirar e o fio no pescoço puxa, e a respiração sai entrecortada, dolorida, como se o ar fosse lâminas que cortam a garganta ao entrar. Cada inspiração é uma lâmina nova.

Comentários

Nenhum comentário ainda. Entre para ser o primeiro a comentar.